
Livro oito: Luanda, Lisboa, Paraíso, de Djaimilia Pereira de Almeida
Edição Companhia das Letras, 2021
229 páginas
Grande revelação, esta prosa desenvolta que nos apresenta personagens credíveis e com espessura. Ficamos ligados à família Cartola, sobretudo ao pai e ao filho Aquiles, transplantados da Angola natal para Lisboa – terra inscrita no imaginário do mais velho, nascido durante a administração colonial e sentindo-se duplamente desenraizado: o país que se tornou independente em Novembro de 1975 não é o seu, pois sente-se culturalmente português.
Mas a antiga metrópole recebe-o com indiferença forasteira naquela década de 80. Uma frieza que ele é incapaz de compreender. Ele que «chegou a apanhar pedrinhas do chão e a encher os bolsos com elas, como relíquias de uma terra santa». Ele que «se arrepiava ao ouvir o hino de Portugal e sabia de cor a primeira estrofe dos Lusíadas». Ele que na escola havia memorizado os afluentes do Mondego e recitava os nomes dos reis da dinastia Bragança.
O filho tornou-se apátrida cultural em terra-de-ninguém quando se viu forçado a viajar de África para a Europa por motivos de saúde. Ainda no hospital onde esteve internado, deixou de se sentir angolano. «Esse olhar de quem vê o mundo da cama, contrariado, a morder-se de raiva porque ninguém o ouve, ninguém acode, foi a sua nacionalidade assim que pisou Lisboa.» Não volta a ser o mesmo.
Há também Glória, que se manteve em Luanda e vai comunicando com o marido e o filho por cartas e telefonemas apressados. Também ela saudosa de um tempo que deixou há muito de existir, envolta numa rotina onde o sonho se sobrepõe à realidade.
É um romance em 49 sucintos capítulos que lança um olhar atento e terno sobre a verdadeira pobreza – não sobre os pobres de catálogo, manipulados para efeitos de propaganda ideológica ou catecismo político. Mas é também uma narrativa ficcional sem condescendência paternalista nem códigos de trincheira: apresenta-nos gente à deriva numa Lisboa que empurra os mais humildes para arrabaldes infernais como aquele a que por ironia chamam Paraíso. Gente mergulhada na pobreza endémica mesmo trabalhando para ter tecto e pão.
Nascida em Luanda e há muito radicada em Portugal, Djaimilia Pereira de Almeida doutorou-se em Teoria da Literatura, desempenha desde 2021 funções de consultoria na Casa Civil do Presidente da República e viu esta obra lançada em 2018 distinguida com vários prémios – Oceanos, Inês de Castro, Fundação Eça de Queiroz.
Apetece incentivá-la a escrever novos romances como este. Singelo, original e luminoso.
Sugestão 8 de 2016:
Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
Sugestão 8 de 2017:
Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)
Sugestão 8 de 2018:
Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)
Sugestão 8 de 2019:
Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)
Sugestão 8 de 2020:
A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle (Guerra & Paz)
Sugestão 8 de 2021:
Ernestina, de J. Rentes de Carvalho (Quetzal)

“Ernestina” é magistral, alemde bem escrito, retrata um Portugal que já não existe e que ninguém quer evocar.
O meu pai era de Trás os Montes, duma terra próxima de Estevais de Mogadouro (terra natal da mãe de Rentes de Carvalho e onde ele passa parte do ano, viajando de carro desde a Holanda). Eu só conheci esses locais na era das auto-estradas mas os meus irmãos fizeram a viagem de comboio tal como Rentes a descreve: um dia inteiro, do Porto até Freixo do Numão (entre farneis e quase envenenamentos nos túneis, por conta do fumo do comboio a carvão), atravessar o rio numa chata, com animais, a mala da correspondência, jornais e encomendas) e, finalmente, subir 7km a pé (porque o burro do mosso tio era para a bagagem) até se chegar ao destino, que não tinha qualquer comodidade mas eles adoravam.
(Os meus sobrinhos acreditam porque em mim mas se não fosse tia deles achavam que eu era a encarnação duma personagem saída duma novela de Camilo…).
O livro do Cortazar li-o no Club de Lectura do Instituto Cervantes há 10 anos, o conto “La salud de los enfermos” é fantástico.
‘Ernestina’ é uma obra-prima da literatura contemporânea portuguesa. Escrevi esse pequeno texto sobre o livro, mas merece mais. Ando com vontade disso.
Quanto a Cortázar, um dos meus contistas favoritos, já escrevi aqui sobre ‘Circe’ e ‘Os Bons Serviços’. randes-contos-20-cortazar-6419227 383243.html
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/g
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/4
Mas podia escrever sobre muitos outros.