Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

9789897025549_1589818009[1].jpg

 

Livro oito: A Ideologia Afrocentrista à Conquista da História, de François-Xavier Fauvelle

Tradução de Ivan Figueiras

Edição Guerra & Paz, 2020

140 páginas

 

Este livro não evita a polémica. Pelo contrário: procura-a. Tem como alvo as teses afrocentristas, em expansão no meio universitário europeu por importação dos EUA, que deixam de conceber a história como uma disciplina social e humana abrangente para a confinar em redutos tribais cada vez mais fragmentados.

O autor tem a vantagem de conhecer bem o tema. Doutorado em História pela Sorbonne e especialista em arqueologia, François-Xavier Fauvelle é professor do College de France, com uma cátedra dedicada à História de África. Considera o afrocentrismo uma corrente ideológica alicerçada no ressentimento. E lavra assim o seu protesto: «Nas transformações identitárias actuais, em que as identidades nacionais se vêem forçadas a ceder um lugar às várias identidades comunitárias ou particularistas, a memória foi posta em leilão.»

A militância afrocentrista contesta a tradição europeia de apontar o Mediterrâneo como berço dos mais relevantes acontecimentos históricos, considerando que tudo quanto de significativo ocorreu no mundo teve origem no continente africano – linguagem, cultura, religiões, civilização. Sócrates pode ter sido negro, Jesus e Buda podem ter sido negros, nada desmente que Cleópatra fosse negra. E do possível logo se passa ao provável. «São ideias de combate» que consumam «uma vingança sobre o Ocidente». Apropriando-se do conceito de raça em proveito próprio. Daqui emerge «uma história romântica e perigosa, em que o espírito de uma nação se confunde com os seus genes». E tudo gira em função do tom da pele. A América foi descoberta por negros muito antes de Cristóvão Colombo, o cristianismo é uma religião de origem afro-egípcia. «Deus é negro», proclamam as franjas mais radicais.

Fauvelle contesta sobretudo a contaminação da academia por estas correntes que abdicam do carácter universal da sabedoria: «Diz-me a tua cor, e eu dir-te-ei o que deves pensar: para os brancos, o “pensamento ocidental”; para os negros, o afrocentrismo.»

Dicotomias deste género, assentes no mais rudimentar maniqueísmo, deram mau resultado noutros tempos e noutras circunstâncias. A história tem tendência a repetir-se quando a memória se relativiza. E torna-se até perigosa ao vermos historiadores colocar mitos no altar dos factos.

 

 

Sugestão 8 de 2016:

Todos os Fogos o Fogo, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)

Sugestão 8 de 2017:

Prantos, Amores e Outros Desvarios, de Teolinda Gersão (Porto Editora)

Sugestão 8 de 2018:

Quem Meteu a Mão na Caixa, de Helena Garrido (Contraponto)

Sugestão 8 de 2019:

Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins (Bookbuilders)

14 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. Mais uma vez constato que não retiraria uma vírgula ao que escrevi em comentários de anos anteriores, o que faz de mim uma pessoa coerente, penso eu de que…
    Neste caso refiro-me a um escritor que gostava de gatos…
    (ai, ai, estou a abusar das reticências, eu sei…)
    🍁
    Maria

  2. “Fauvelle contesta sobretudo a contaminação da academia por estas correntes”

    Contaminação?
    Isto começou na academia, no sistema educativo. É a Academia que está a contaminar não a ser contaminada.

    “transformações identitárias actuais”

    É só a consequência das teses Marxistas de que a civilização ocidental representa o Capitalismo, leia-se Branca, leia-se Judia ( Marx já dizia que os Judeus deviam desaparecer da face da terra)…agora até os Asiáticos são considerados brancos e punidos com discriminação pela Esquerda devido ao sucesso que têm, pois não aceitaram serem “vítimas” permanentes para serem usados pela esquerda.

    lucklucky

  3. O que se está a assistir é a destruição da Universidade a partir da Universidade numa Revolução Cultural Neo-Marxista, e em consequência a Civilização.
    Ainda parto do princípio que sem Universidade a funcionar não há civilização., mas talvez esteja enganado e na verdade a Universidade hoje seja contra a civilização.

    Being nonwhite leaves one protected in this environment only to the extent that one toes the ideological line. An assistant professor of color who cannot quite get with the program writes, “At the moment, I’m more anxious about this problem than anything else in my career,” noting that “the truth is that over the last few years, this new norm of intolerance and cult of social justice has marginalized me more than all racism I have ever faced in my life.”

    “Overall I found it alarming how many of the letters sound as if they were written from Stalinist Russia or Maoist China. A history professor reports that at his school, the administration is seriously considering setting up an anonymous reporting system for students and professors to report “bias” that they have perceived. One professor committed the sin of “privileging the white male perspective” in giving a lecture on the philosophy of one of the Founding Fathers, even though Frederick Douglass sang that Founder’s praises.

    The administration tried to make him sit in a “listening circle,” in which his job was to stay silent while students explained how he had hurt them—in other words, a 21st-century-American version of a struggle session straight out of the Cultural Revolution.”

    “They are supporters of free speech, scientific data, and healthy debate, but they are too fearful today to publicly declare such support. However, they’ll tell it to a sympathetic ear in the back corner booth of a quiet bar after two or three pints.”

    https://www.theatlantic.com/ideas/archive/2020/09/academics-are-really-really-worried-about-their-freedom/615724/

    Nota: a The Atlantic é uma das revistas que contribuiu para este estado de coisas…como agora vêem os seus a ser atacados…

    https://twitter.com/roddreher/status/1300897705858928646?

    Na Northwestern University Law School na Califórnia – essa civilização progressista avançada tão admirada por cá – temos rituais públicos de confissão de racismo só por se ter pele branca.

    lucklucky

  4. Nos EUA serão estas as %s das diferentes etnias.
    1 German 14.70%
    2 Black or African American (non-Hispanic) 12.30%
    3 Mexican (of any race) 10.90%
    4 Irish 10.60%
    5 English 7.80%
    6 American 7.20%
    7 Italian 5.50%
    8 Polish 3.00%
    9 French 2.60%
    10 Scottish 1.70%
    11 Native American and Alaska Native 1.60%
    12 Puerto Rican 1.60%
    13 Norwegian 1.40%
    14 Dutch 1.40%
    15 Swedish 1.20%
    16 Chinese 1.20%
    17 Asian Indian 1.00%
    18 Scotch-Irish 1.00%
    19 Russian 0.90%
    20 West Indian (non-Hispanic) 0.90%
    21 Filipino 0.90%
    Em qualquer País a predominância de uma, ou de algumas etnias, é um facto mensurável e inultrapassável. Só quem nunca saiu do seu quarteirão ignora, infantilmente, as consequências quotidianas de essa realidade.
    Quem acha que está mal ou se muda, ou aceita as regras em vigor aonde está. Tentar mudá-las, à força, é brincar num agueiros.

    1. Não percebi nada, mas verifico como o grupo étnico maior dos “brancos” é apresentado dividido por nacionalidades que é para número de pretos parecer mais significativo. Deve ser uma tese de merda, seja ela qual for. Deve pensar que somos estúpidos.

      O pior é que é com este tipo de truques que a coisa tem andado e fazem logo manifs e põem quadradinhos pretos no instagram.

  5. Da maneira que isto anda, se fôssemos a comprar só um quarto dos livros que o Pedro Correia já aconselhou, fora os que ainda vai sugerir, nem um ano de vencimentos davam conta do recado.
    🙂

  6. A Universidade é como nunca um terreno de Luta: quem publica e quanto e onde, quem é citado e quanto por quem, se não citas talvez não publiques, talvez inovando…
    A estatística a prevalecer sobre os valores!

  7. Quando a narrativa se transforma em cultura temos disto:
    https://www.foxnews.com/lifestyle/hair-salon-job-posting-happy-hairdresser-discrimanatory

    And the advertisement stated, “This is a busy, friendly, small salon, so only happy, friendly stylists need apply.”
    But on Wednesday, Birch says she received a call from her local job center informing her they could not run her ad because the word “happy” is considered “discriminatory.”

    lucklucky

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *