Dez livros para comprar na Feira


Pedro Correia,

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Livro seis: O Barulho das Coisas ao Cair, de Juan Gabriel Vásquez

Edição Alfaguara, 2020

302 páginas

 

Juan Gabriel Vásquez é considerado discípulo literário de Gabriel García Márquez. Une-os, é certo, a nacionalidade colombiana. Mas aqui há pouco realismo mágico. Enquanto o autor de Cem Anos de Solidão deambulava por uma nação ancestral, recriando-a a seu modo com exuberante requinte de linguagem castiça, Vásquez fala-nos da Colômbia contemporânea – este país concreto em que vive e trabalha após longos anos de ausência em Paris e Barcelona, onde estudou Literatura, foi tradutor e jornalista. 

Estar fora permitiu-lhe perceber com maior nitidez o sinistro legado do narcotráfico aliado ao terrorismo que durante décadas manchou a terra colombiana, pondo-a à mercê de todos os impulsos liberticidas. Traindo o sonho do pai da pátria, Simón Bolívar.

«A experiência, aquilo a que chamamos experiência, não é o inventário das nossas dores, mas a compaixão aprendida com as dores alheias.» Eis a lição que o jovem Antonio Yammara recebe e transmite neste belíssimo romance que nos confirma como são precários os laços humanos perante as encruzilhadas da vida, tecidas de mil acasos.

A vénia a García Márquez é óbvia logo neste parágrafo da página 18: «No dia da sua morte, no início de 1996, Ricardo Laverde tinha passado a manhã a passear pelas calçadas estreitas de La Candelaria, no centro de Bogotá, entre casas velhas com telhas de barro cozido e placas de mármore que resenham para ninguém momentos históricos, e por volta da uma chegou aos bilhares da Calle 14, disposto a disputar um par de jogos com os clientes habituais.»

Mas aqui não há exotismo pícaro nem lugar para nostálgicas contemplações etnográficas. O Barulho das Coisas ao Cair, com meritória tradução de Vasco Gato, tem como pano de fundo os anos de chumbo em que o país esteve submetido ao império do maior barão da droga, Pablo Escobar, com o seu viscoso cortejo de sangue que marcou para sempre as personagens centrais, Antonio e Maya. Condenados a uma espécie de antecipação da morte ainda em vida.

Eles atravessaram a adolescência e tornaram-se adultos enquanto Bogotá «se afundava no medo e no barulho dos tiros e das bombas sem que ninguém tivesse declarado guerra nenhuma, ou pelo menos não uma guerra convencional». À semelhança de tantos da sua geração, também eles experimentaram o barulho das coisas ao cair – no plano real e no plano metafórico. Numa digressão sem retorno a um tempo de trevas.

Vale para a Colômbia, país que «produz fugitivos», mas tem alcance universal. 

 

Sugestão 6 de 2016:

Axilas e Outras Histórias Indecorosas, de Rubem Fonseca (Sextante)

Sugestão 6 de 2017:

O Tesouro, de Selma Lagerlöf (Cavalo de Ferro)

Sugestão 6 de 2018:

Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho (Porto Editora)

Sugestão 6 de 2019:

Como Ser um Conservador, de Roger Scruton (Guerra & Paz)

Sugestão 6 de 2020:

Fósforos e Metal Sobre Imitação de Ser Humano, de Filipa Leal (Assírio & Alvim)

Sugestão 6 de 2021:

Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, de João Céu e Silva (Contraponto)

10 comentários em “Dez livros para comprar na Feira”

  1. Bom dia
    Nunca associaria Juan Gabriel Vásquez a Gabriel García Márquez. Talvez sugestionada pela alusão, num artigo que li, que seria o “substituo” de Carlos Ruiz Zafón. Não desiludiu, gostei do livro, tenho várias páginas sublinhadas, eu sou das que riscam os livros. Sublinhei o último parágrafo “(…) juntos nos defenderíamos melhor do mal do mundo ou que o mundo é um lugar demasiado arriscado para andarmos por aí, sozinhos, sem ninguém que espere por nós em casa, que se preocupe quando não chegamos e que possa sair à nossa procura?” Termina com chave de ouro.
    Não li nenhum dos outros que sugere, mas fiquei tentada com este: “Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão”, de Mário de Carvalho (Porto Editora)
    Claro que compraria todos, mas não se pode ter tudo, já dizia a minha avó…

    1. Vásquez presta várias homenagens a García Márquez ao longo deste romance. Mas são homenagem no campo da escrita literária, com sucessivas paráfrases das linhas iniciais de ‘Cem Anos de Solidão’, não no capítulo das ideias.
      García Márquez era um escritor muito menos interventivo na denúncia dos grandes problemas contemporâneos da Colômbia, que na pena dele surgia recriada numa mistura de misticismo folclórico e fantasia burlesca. Virada mais para o passado do que para o presente histórico.
      Este romance, nisto, nada lhe deve. Juan Gabriel Vásquez tem voz própria – e de extrema qualidade.

      P. S. – O livro de Mário de Carvalho é muito bom. Aprendemos com ele, naquela escrita fluida que tão bem cultiva, sem nunca sentirmos que está a assumir pose conselheiral ou doutoral.

  2. Li este livro, de que gostei muito. Este autor é da nova geração de escritores colombianos / latino-americanos que se dedicaram ao realismo e abandonaram a magia, com claro benefício quer para a obra quer para os leitores (na minha mais-que-modesta opinião).
    Já vi na feira outros livros dele.
    Obrigada pelo lembrete Pedro, vou procurar outras obras na Biblioteca do Instituto Cervantes pois leio em espanhol e como antiga aluna pago 15€ por ano para ter acesso a todas as obras lá existentes, incluindo filmes e revistas.

    1. Fiquei deslumbrado com este romance. Tem tudo quanto mais gosto na ficção. Confesso-me também mais adepto do realismo do que da fantasia em literatura, sem desprimor para os grandes nomes deste último género.
      Faz muito bem em aproveitar esse pequeno (grande) privilégio de ter sido aluna do Instituto Cervantes. A preço imbatível.
      E… gosto de revê-la por cá.

      1. Deslumbramento é exactamente o que senti, Pedro! Tanto que ofereci o livro à minha irmã quando o vi publicado em português (infelizmente nunca soube o que ela achou mas isso é outra história).
        Aproveito para fazer publicidade ao Clube de Leitura do Instituto Cervantes, existe desde 2011, tem um “núcleo duro” de participantes, em que me incluo, e foi a partir dele que conheci imensos autores de língua espanhola pouco ou nada conhecidos em Portugal, com destaque para prémios Cervantes, como a já mencionada Ana Maria Matute e a última galardoada, Cristina Peri Rossi, mas também muitos outros novos escritores como o Juan Gabriel Vasquez. Existe um blog que regista as leituras que vamos fazendo http://clubdelecturalisboa.blogspot.com/?m=1.
        Este ano descobri outro colombiano, Santiago Gamboa, e já levo quatro livros lidos.
        Quanto ao Delito, o prazer é meu, passo por cá todos os dias mas raramente comento.
        Fico na expectativa das próximas recomendações. Eu este ano comprei Joseph Roth e Olga Tokarczuk, estreias na minha biblioteca.
        Abraço.

        1. Agradeço-lhe esta divulgação e felicito-vos pela iniciativa.
          Roth e a Olga fazem parte das minhas leituras eleitas em anos mais recentes.
          Ele é, aliás, autor de um dos dez melhores romances da década de 30 do século XX. Já tive ocasião de escrever sobre essa obra aqui:
          https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/grandes-romances-19-6641745

          Gostei muito de saber que continua a visitar-nos.

  3. se ainda pudesse ler em suporte de papel adquiria os livros dos meus conhecidos do Institut Pasteur
    Jacques Monod
    André Lwoff
    François Jacob
    e ainda
    Jean Pierre Changeux
    Jacques Prevert

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