
Livro cinco: As Praias de Portugal, de Ramalho Ortigão
Edição Quetzal, 2022
188 páginas
Ramalho Ortigão anda a ser reeditado – eis uma excelente notícia. Tantas vezes agregado ao seu contemporâneo e amigo Eça de Queiroz, o co-autor d’ As Farpas merece leitura não contaminada por tal comparação, aliás pouco justificada: ele não se distinguiu como romancista, mas como cronista e até repórter.
As Praias de Portugal, de regresso às livrarias após prolongada ausência, é um bom exemplo do seu talento. Faz-nos recuar cerca de 150 anos, visitando pontos da nossa costa como se os víssemos agora. Mérito do grande prosador que Ramalho (1839-1915) foi. Mesmo sem ter cultivado a arte da ficção.
Quando turista ainda se escrevia à francesa (touriste), o autor deste «guia do banhista e do viajante» percorreu muitas praias do país, confessando preferências. Portuense de berço, assume especial fascínio pelo mar nortenho. Algumas das raras notas confessionais surgem-lhe a propósito da Foz. E suscita sorrisos ao apresentar a Granja, «uma praia de algibeira».
Mas duas das melhores crónicas deste roteiro balnear situam-se mais a sul. Uma em torno da Ericeira, que Ramalho enaltece como «a terra mais asseada de Portugal» – exceptuando Olhão, aliás só aflorada para tal efeito nesta digressão entre Âncora, no Alto Minho, e a península de Tróia. Alentejo e Algarve estão ausentes da obra, datada de 1876.
A Ericeira serve de pretexto para o autor mencionar Mafra, desviando-se da linha costeira. E vergastar D. João V, «Nero de sacristia, Faraó freirático», que «consumiu tantos milhares de contos, tantos milhares de braços e tantos milhares de vidas» no convento.
Este Ramalho é-nos familiar: exímio praticante da farpa verbal. Mas o cronista amável também se revela neste livrinho, hoje com interesse não apenas literário mas sobretudo etnográfico. Numa época em que a praia se frequentava mais pelas suas propriedades terapêuticas do que como cenário de lazer.
«De Pedrouços a Cascais»: assim se intitula outro texto digno de realce neste volume, infelizmente sujeito ao famigerado “acordo ortográfico”, aliás sem enganar ninguém: logo na primeira frase alude-se ao «aspeto (sic) da praia».
Aqui sobressai a visão minuciosa do repórter que no Cais do Sodré embarca «no vapor» e vai mirando as praias do Tejo e as seguintes, já no mar. «Entramos na baía de Cascais, 27 quilómetros de Lisboa percorridos em cinco quartos de hora.» Sem poupar elogios à vila, que «possui uma praça em que se acha o tribunal e a casa da Câmara, um passeio público, três hotéis, um teatro e uma praça de touros».
Ecos de um tempo remoto, eram ainda S. Martinho do Porto, Costa Nova e S. Pedro de Moel «praias obscuras». E quando cândidas almas se escandalizavam porque «a viscondessa de X… foi vista fumando cigarros cor-de-rosa na praia de Paço de Arcos».
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Sugestão 5 de 2016:
Telex de Cuba, de Rachel Kushner (Relógio d’ Água)
Sugestão 5 de 2017:
Coração de Cão, de Mikhail Bulgákov (Alêtheia)
Sugestão 5 de 2018:
Octaedro, de Julio Cortázar (Cavalo de Ferro)
Sugestão 5 de 2019:
Júlio de Melo Fogaça, de Adelino Cunha (Desassossego)
Sugestão 5 de 2020:
Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro (Objectiva)
Sugestão de 2021:
Gramática Para Todos, de Marco Neves (Guerra & Paz)

“de regresso às livrarias após prolongada ausência”
Ainda há à venda exemplares das edições de 2014 (Plátano e a própria Quetzal).
Esta obra esteve décadas fora do mercado. Voltou a estar disponível, o que é boa notícia.
Aliás há oito anos, quando reapareceu, dei notícia dela aqui: ugestao-um-livro-por-dia-6452247
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/s
Já agora, junte-se-lhe a obra sobre as termas, também muito interessante.
Essa não conheço.
Do Ramalho, gostava muito de ver reeditadas as ‘Últimas Farpas’. A ver se alguém se atreve a meter mãos à obra.
Mais precioso se torna o meu exemplar, também da Quetzal, de 2014 e em português saudável. Visitar a feira do livro de Lisboa (qualquer feira do livro, é de crer) vai sendo de forma crescente – e muito infeliz – uma experiência quase masoquista: a cada ano cresce a tirania do AO90. A Quetzal, então, e também a Relógio d’Água, como ontem pude confirmar visitando os seus pavilhões, curvando-se perante esse crime.
Foi aliás esclarecedora, embora nada surpreendente, a resposta da senhora (educadíssima, devo notar) no pavilhão da assembleia da república – e escrevo assim, sem maiúsculas, deliberadamente, pois há dignidades que têm que ser merecidas – perante a minha tristeza ao ver vertida em AO90 uma de outra forma decerto muito interessante colecção sobre figuras do parlamentarismo português: que era obrigatório, que já nem valia a pena pensar nisso e que já havia milhares de criancinhas ensinadas nessa “norma”. Balbuciei, desesperançado, que talvez fosse obrigatório para ela e para quem depende directamente do governo e do parlamento (e, desgraçadamente, da presidência da república; veja-se a infâmia do prefácio de Rebelo de Sousa em “podia ter sido pior”; por alguma razão expressamente identificado como o único texto dessa preciosa colectânea vertido em acordês), mas essa obrigatoriedade acabava aí; e mesmo aí era falsa, ilegal, por mero efeito de básica hierarquia de normas. Conhecida aliás, pois que seguramente a ensinou anos e anos, pelo “mais alto magistrado da nação” e pelo primeiro-ministro de turno que, consta, terá sido dos melhores alunos daquele. Rosnei – em fúria impotente, perante tão abjecta submissão, e quanto às criancinhas – que o simples perpetuar de um erro, pior, de um crime, o não sana. E segui, verdadeiramente envergonhado de ser português, deste país de lavouras e daquele “orgão de soberania” que alegadamente – termo da moda mas aqui tão apropriado – me representa.
Lá voltarei, contudo, à feira. Creio que me vou confinar – para usar outro termo da moda e muito patriótico – aos pavilhões da Guerra & Paz, da Tinta da China e de alfarrabistas. Cada vez mais, alfarrabistas.
Até que também aí o acordês domine. Mas talvez já cá não esteja.
Não só, meu caro. Aqui ficam mais três sugestões: Cavalo de Ferro, Antígona e E-primatur.
Todas excelentes editoras, com a ortografia correcta. Chamo ainda mais a atenção para a última, um pouco menos conhecida por ser mais recente.
Tem muitas obras de excelência. Começando pelo livro que anteriormente destaquei nesta série dedicada à Feira.
É certo isso que escreve. E mesmo entre as que cederam (talvez com a excepção da farisaica Porto Editora) é ainda possível encontrar obras em português correcto. Nem que seja por expressa vontade dos autores. Mas aquilo avança inexoravelmente, por entre bovina aceitação ou entusiástica adesão.
Foi um desabafo. Grato pela paciência.
Quanto à «bovina aceitação», nem precisamos zarpar desta caixa de comentários.
Ela medra por aí.
que já nem valia a pena pensar nisso e que já havia milhares de criancinhas ensinadas nessa “norma”
É a mais pura verdade.
Até Passos Coelho e o seu governo se renderam a essa evidência.
O mundo não volta para trás, por mais que os conservadores gostassem que sim.
“(…) aquilo avança inexoravelmente, por entre bovina aceitação ou entusiástica adesão”, escrevi noutro comentário aqui. No seu caso será de escrever bovina aceitação e entusiástica adesão.
Ei-la. A medrar, bem viçosa.
«O mundo já não volta para trás», reza este apoiante do expansionismo imperial russo na Ucrânia.
Andou travestido de “liberal” durante uns tempos a ver se saía do armário socialista.
Mas não saiu. Ficou lá dentro.
Não vejo bem qual o interesse em saber como eram as praias portuguesas no século 19.
Com as movimentações do mar, muitas delas já têm uma extensão bem diferente da que tinham.
Com as movimentações das populações, ainda muito mais. Veja-se por exemplo a Ericeira. De há 30 anos para cá, quanta mudança!
Não vê bem?
Experimente isto:
https://www.multiopticas.pt/
quando o pai vivia no A. Alentejo a Mãe era a Senhora Ortigoa.
hoje até o Pan o condenava pela Praça de touros
Peter Pan? E a Sininho?
E o Capitão Gancho?
O nível de instrução terá de facto aumentado nas últimas décadas (a formal, desde logo: um dia destes a licenciatura virá por simples efeito do nascimento). Mas o culto fanático da insensibilidade, o embrutecimento orgulhoso, o desprezo generalizado e dogmático pelo passado – condição como se sabe excelente para que este se repita no seu pior – e por tudo o que não seja ciência dita “exacta”, mesmo por quem ostente grau de doutor e cumes afins, bem demonstram que instrução e cultura são coisas bem diferentes.
Isso deve explicar a questão do interesse ou desinteresse das praias de há cem ou mais anos, assunto reduzido acima a mera questão de evolução da linha de costa, de geografia, geologia ou ciência parecida. Como se fosse isso, sequer, a essência da obra em causa 8e ainda que fosse). Obra que evidentemente não se leu.
Mas ainda assim se despeja sem mais no caixote das inutilidades. Com a firme certeza da mais profunda ignorância.
A “praia” mais próxima do Lavoura é a fonte luminosa da Alameda D. Afonso Henriques.
Que por vontade dele seria Alameda António Costa.