O nosso aparelho estatístico é deficiente, as publicações de informação de carácter social são escassas, dispersas e desordenadas e, logo, pouco merecedoras de confiança e frequentemente secretas. As instituições portuguesas têm o velho hábito de esconder a informação. Quando era deputado sofria muito perante propostas ou projectos de lei que sistematicamente ignoravam a realidade.
– António Barreto, em 1998, ao Expresso.
Houve rupturas estatísticas nos últimos 20, 30, ou 40 anos que fazem com que muitas delas sejam deficientes e exista um enorme défice de informação pública. Aquilo que transmite informação faz homens e mulheres livres. E uma das lacunas de Portugal – por falta de hábito, de experiência, de cultura – é não ter cidadãos livres, informados, capazes de participarem de modo independente na vida pública. Se se quiser participação há que respeitar as pessoas dando-lhes conhecimento, informação e manifestando respeito pelas opiniões contrárias. Participar é isso. Quando não se quer que as pessoas participem faz-se propaganda exigindo obediência ou impassibilidade. A opinião pública pode ser a grande parteira da democracia. – António Barreto, em 2009, ao i.


António Barreto é um dos mais estimulantes pensadores portugueses, embora nem sempre esteja de acordo com o que escreve nem com um certo tom catastrofista que gosta de imprimir às suas declarações. A realidade, infelizmente, tem-se encarregado de confirmar algumas das suas previsões mais pessimistas.
Como dizes, infelizmente, muitos dos que são chamados de catastrofistas a prazo têm razão. Mas nunca considerei o António Barreto catastrofista. No máximo chamar-lhe-ei céptico, no mínimo lúcido.
Parece-me muitíssimo bem citares António Barreto. É inteligente, pensador coerente e solto, reconhecido em muitos meios acima de qualquer suspeita, parcimonioso no uso dos palcos que tem sempre ao dispor e, sobretudo, de grande honestidade intelectual.
Também acho que ele é isso tudo, João. E fico muito satisfeita por agora ele estar à frente de uma fundação que finalmente vai produzir e dar acesso à informação que sempre faltou à sociedade civil para poder avaliar, com objectividade, os resultados da governação a médio e longo prazo.
O que o torna até duplamente coerente e consequente, visto que António Barreto há muito se queixava publicamente da falta de estatísticas, por um lado, e das meias estatísticas suspeitas e escondidas, por outro.
Creio que isso mudou e que a qualidade das estatísticas nacionais está hoje acima de suspeitas, excepto quando saem “trabalhadas” da boca dos nossos políticos. Mas continua a haver enorme falta de elementos que permitam leituras amplas e conclusões adequadas em diversas áreas, tão necessárias para quem quer governar a sério e para quem precisa de gerir com visão.
Graças à oportuníssima e utilíssima Fundação, começa a haver o que tanta falta fazia. E disponível para todos.