Ainda não existe uma distinção entre o interesse público e o privado. O nepotismo bloqueia a modernização. A afirmação é de Luís de Sousa, politólogo com um doutoramento em Corrupção em Portugal, França e no Reino Unido no currículo. Numa entrevista dada à Visão, em 23 de Junho de 2005, defendeu que mais Estado não significa mais corrupção. Ou melhor, menos Estado não significa menos corrupção. Os processos de privatização têm sido marcados por forte corrupção. Contrariando teses que se se popularizavam na época, o investigador considerava que associar o aumento da corrupção à maior presença do Estado numa Economia era uma afirmação primária, que tem vingado nos países em vias de desenvolvimento, o que interessa a certos players.
Para sustentar a sua tese recorreu ao exemplo de Portugal. Na sua opinião o período mais negro em matéria de corrupção começou, no nosso país a partir dos finais de oitenta, época em que se procedeu a uma redução rápida e significativa do aparelho produtivo do Estado e a um aumento da interacção entre as esferas pública e privada, criando-se condições para a emergência de conflitos de interesse e apropriação financeira por parte dos detentores do poder. As privatizações, sustentou, as concessões de serviços públicos a privados, a realização de grandes projectos públicos, o aumento da capacidade reguladora do Estado com um enquadramento ético conturbado e uma nova esfera privada crescente, com actores de mercado aguerridos e sedentos de poder, facilitou o caminho aos maus rapazes. Em muitas instâncias ganhava o mercado, perdia o interese público.
No momento em que vários países europeus criavam organismos de combate à corrupção, Portugal extinguia (em 1992) a Alta Autoridade Contra a Corrupção, uma decisão que Luis de Sousa estudou: A classe política apontou, na época, a existência de poucos resultados. Com o alargamento de competências, que lhe permitia investigar as entidades soberanas, começaram os problemas, sobretudo no que dizia respeito às declarações patrimoniais. E isso explica que os partidos com representação parlamentar, à excepção do Partido Comunista, tenham votado o seu fim. O certo é que no momento em que foi extinta, a AACC tinha mais de dois mil processos de investigação. Apesar de alguns deles implicarem empresas públicas, as denúncias não partiram da classe política.
Convidado a pronunciar-se sobre os efeitos da reduzida renovação da classe política em Portugal, Luís de Sousa respondeu: A longevidade no poder vai permitindo a criação de atalhos em termos de respostas aos problemas. Criam-se relações estreitas entre o detentor do poder e determinados elementos da sociedade civil, prejudicando a imparcialidade.


Cara Teresa, ainda não lhe tinha dado os parabéns por esta excepcional série que em boa hora iniciou no DO. Não que isso tenha alguma importância, a qualidade dos posts e do trabalho feito não necessitam da irrelevância de palavras de circunstancia de uma comentadora de bitaites . Quero no entanto aproveitar a circunstância deste post em particular referir extinção da Alta Autoridade Contra a Corrupção, para assinalar a qualidade e o verdadeiro serviço publico que constitui este trabalho.
Obrigada, Ariel. Pela sua atenção e presença constantes que só podem constituir um estímulo para mim e para os meus colegas de blogue.
Um génio, esse politólogo que associa a corrupção às “privatizações” e à “concessão de serviços públicos a privados”. Para dizer tudo numa só palavra, que ele evita: ao “capitalismo”.
A moral da história é sempre a mesma neste país que adora viver sob o tecto protector do pai Estado: nos tempos do saudoso doutor Salazar e do general Vasco Gonçalves, homens impolutos, havia muito menos corrupção em Portugal. A defunta URSS, onde a economia era monopólio estatal, era um modelo de combate permanente e com sucesso à corrupção (daí o PCP ter sido, compreensivelmente, o único partido a votar contra a extinção da eficientíssima AACC) e hoje praticamente só a Coreia do Norte subsiste, a servir-nos de modelo.
De facto, na Coreia do Kim, anticapitalista, não há “privatizações” – logo, não há corrupção, para aplicar a brilhante lógica do doutor Sousa. Pena Pyongyang ficar tão longe…
Hi! O que para aí vai! Pedro, onde é que leste que o Luís de Sousa afirmou que mais Estado é igual a menos corrupção? A única coisa que ele diz é que o paralelismo que os liberais estabelecem entre mais Estado e mais corrupção (o que leva a supor que menos Estado é igual a menos corrupção) não corresponde NECESSARIAMENTE à realidade. Da investigação que ele fez sobre corrupção em Portugal, concluiu que por cá, por exemplo, não foi assim.
A minha conclusão é óbvia ao ler o parágrafo que termina com esta frase lapidar: “Em muitas instâncias ganhava o mercado, perdia o interesse público.” Maldito capitalismo, não é, Teresa?
Nos tempos saudosos do doutor Salazar e do general Gonçalves, em que não havia “privatizações”, a corrupção nem tinha sido inventada. Digo eu, que nem sou doutor em Politologia. Ai que saudades, ai, ai!
Nem mais caro Pedro. “Em muitas instâncias ganhava o mercado(…)”, diz o politólogo. Mas o que é o mercado senão as pessoas, e as suas escolhas e trocas voluntárias?
Pedro, quantas vezes já vieram a público notícias sobre negócios que são ruinosos para o Estado e que beneficiam escandalosamente particulares?
Não tenhas uma visão maniqueísta das coisas. A corrupção existe, seja em que sistema for. E sabes muito bem que sou defensora do capitalismo. Do bom capitalismo, de que falava Saldanha Sanches. E da economia de mercado, por isso não percebo essa tua acrimónia.
a pergunta é, o que é que jornalismo português andou a fazer durante este tempo todo ?
Conforme. Uns andaram a ver passar TGV’s, outros andaram a juntar dinamite cerebral. Já ouviu falar?
Infelizmente o jornalismo português foi perdendo independência e nesse processo os jornalistas são os menos culpados.
se o jornalismo português foi perdendo a independência, então toda a manifestação na Assembleia da Republica, promovida pela Blogosfera, teve toda a razão de ser, apesar de desvalorizada por muitos…e se o jornalismo português perdeu a independência, as ultimas eleições legislativas foram uma autêntica fraude…consentida pelo jornalismo português! são os menos culpados, será!!??
A concentração da comunicação social em grupos e a dependência dessa mesma comunicação social do poder político e/ou económico dá-lhe alguma pista? A esmagadora maioria dos jornalistas são assalariados. Dependem de editores, que por sua vez dependem de direcções que por sua vez dependem de administrações.
concordo, consigo! estamos numa nova forma de censura…
Concorda?!? Quando a esmola é muita até um pobre como eu desconfia…
só tenho que concordar!
eu não posso confundir, os actos dos principais Directores de Informação dos Orgãos De Comunicação Social deste País ( DN, TSF, Lusa, RTP, Sic-Noticias, Expresso e mais alguns ) com os jornalistas portugueses! Estes Directores de Informação é que deviam pagar a CRISE!!! fuderam Portugal cá com uma pinta, e o mais engraçado, é que ainda andam por aí de nariz empinado…fdp!