Depois do meu texto anterior relativo aos velhos marretas que “orgulhosamente sós” e do alto da sua bancada insistem, de dedo em riste e voz grossa, em mostrar aos portugueses que lhes devemos obediência e gratidão pelo regime que temos, achei que importava acrescentar algumas considerações.
Afirmo que desde a sua criação e consolidação, o actual regime constituiu um tremendo avanço em relação ao anterior, que só pelo facto de ser uma ditadura fazia dele algo execrável, desprezível e anacrónico.
A democracia razoavelmente decente que temos, constitui um patamar de evolução abaixo do qual o país nunca poderá regressar.
O primado da liberdade nas suas diferentes vertentes, do respeito pelos direitos humanos, com especial enfoque pelos direitos das mulheres e das minorias, não é nem nunca deve ser um luxo da situação, mas apenas uma base de decência mínima.
Eu, que ainda usava fraldas quando a nossa democracia liberal foi instituída, cresci a acompanhar a sua evolução. Na escola primária cantei o hino da época de “Uma gaivota voava, voava, somos livres”, cheio de significado para quem nos ensinava a letra, mas banal e repetitivo para quem o aprendia. Para a minha geração essa liberdade, felizmente, foi sempre um dado adquirido. Pode incomodar os mais ortodoxos, mas a banalidade e indiferença das gerações mais novas perante as conquistas de Abril são o indicador maior do seu sucesso.
Para a minha geração, e para os mais novos que eu, a paz, a inexistência de censura formal, as eleições livres, as fronteiras abertas, mas também a constituição, a república, a separação do estado e da igreja, o conceito de propriedade privada, assim como o sistema heliocêntrico, são tudo conquistas do passado. Todos nós, sem excepção, temos uma dívida moral para com aqueles que contribuíram para o mundo que hoje temos, desde Galileu Galilei, a Magalhães, a Darwin, a Pasteur e a Salgueiro Maia.
Por isso, quando digo que está a chegar a hora de exigirmos mais e oiço de imediato as forças conservadoras da actualidade, a que chamo de beatas do regime, a chamaram-me facho, acabo por achar piada, pois sem darem por isso imitam as reacções das beatas do Estado Novo quando alguém exigia o fim da guerra colonial e uma democracia ocidental. Claro que já não me podem mandar prender por delito de opinião, mas isso agora é apenas normal.
Cresci e vivo em liberdade e por isso recuso-me a não poder exigir mais crescimento económico e mais oportunidades para os jovens. O actual sistema de reformas foi desenhado num Portugal com uma estrutura etária completamente diferente e há muito que deixou de ser sustentável. Isto é público e sabido e só não foi ainda corrigido por puro calculismo eleitoral. E não são as reformas miseráveis das pessoas simples que ferem o sistema, mas sim as muito elevadas que são imensas. Já aqui falei disso.
Para os que estão bem estacionados na pirâmide do regime e que insistem que o que temos é perfeito, eu lembro-lhes que um quinto dos portugueses vive na pobreza e os seus filhos não podem aspirar a muito mais do que isso. Estes portugueses não têm voz e não sentem que ir votar faça a diferença. A abstenção é a prova de que a linguagem dos políticos não consegue fazer-se ouvir fora da bolha onde vivem.
Lembro-lhes também o sufoco financeiro que os jovens sentem em tornar-se independentes dos seus pais, lembro-lhes que temos uma justiça labiríntica onde só os poderosos sabem navegar, lembro-lhes que as várias falências do país não são obra do destino, lembro-lhes que cada bébé que nasce hoje deve dinheiro suficiente para comprar um chaimite daqueles ilustram o 25 de Abril, e lembro-lhes que a dimensão da imigração dos anos 60 era um indicador tão fidedigno dos desequilíbrios do Estado Novo como o é do actual regime.
Por tudo isto, só quem vive alienado não reconhece que entre o regime e demasiados portugueses existe um vazio que politicamente alguém irá preencher.
Insistir em chamar facho a quem diz que o que temos não é suficiente é negar a realidade, é adiar reformas e alimentar radicalismos.

Parabéns, melhorou bastante, o texto anterior, para além de pouco rigoroso, era até de alguma forma acintoso e como tal, propício a alimentar radicalismos.
Agradeço, mas considere este texto um acrescento ao outro e não o contrário.

Muito lindo o que escreveu, muito liberal, mas então em defesa da vossa “religião” formem um partido político e exponham o vosso manifesto.
O comentador Vento desmontou e bem, as falácias que escreveu no 2º post da sua autoria que cita neste texto.
Para mim tudo no estado pode ser alvo de cortes ou revalorizações á excepcção das reformas, não é nem nunca será por aí, até poderão existir “meia duzia” de reformas acima de 5 mil euros que a sua soma nunca encontrará paralelo com os crimes económicos praticados por servidores do estado em beneficio próprio.
Volto a enfatizar proponham o vosso programa e vão a votos porque não basta dizer que se quer um estado pequeno e ficar-se por aí, eu pelo contrário defendo que o estado também deve ser encolhido em alguns sectores, aumentado noutros e em alguns fazer valer a sua autoridade tal como acontece em muitas democracias liberais, não por essa Europa fora, já me fico pelas da zona euro.
WW
Ficamos apenas separados por duas coisas que são as nossas opiniões e também pelos factos. Refere que as reformas acima de 5000€ são meia dúzia. É com o rigor idêntico a esse que aqui apresenta que parece ser gerida a coisa pública.
Se a reforma como rendimento de quem já não trabalha tem como objectivo a manutenção de uma vida digna, eu baixaria significativamente esse valor dos 5000€ como referência de reforma máxima.
Se os crimes económicos também o preocupam, crie também o partido político e resolva esse assunto, pois os que temos lidam com isso com indiferença.
“Insistir em chamar facho (…) é negar a realidade”
Estou de acordo.
Não me irei debruçar sobre a perspectiva política mas fim sobre a perspectiva linguística/fonética.
Um facho não é um facho é um feixe, do latim “fasces”.
Esse termo -facho- enraizou-se tanto na língua portuguesa que até os patuscos do pnr têm uma labareda como símbolo, não fazendo a mínima ideia da origem etimológica da palavra.
Chamar facho é automático como as antigas máquinas de flipers, que quando eram sacudidas faziam Tilt.
Num debate destes quem defende a situação e fica sem saber o que dizer, também faz Tilt, mas grita “facho”.
Não há como evitar. São uns cómicos.
Excelente exemplo, há uma semana dei esse exemplo a um colega de trabalho de vinte e tal anos que vê vírus em cada moeda e em cada nota; abanei-o (virtualmente) e disse-lhe algo, tipo: “pareces uma máquina de flippers, eu que sou uma pessoa idosa estou aqui impávido e sereno, tu fazes tilt por tudo e por nada”; olhou-me sem perceber uma palavra daquilo que lhe dissera, não sabe o que é uma máquina de flippers nem um tilt; encolhi os ombros e tive uma atitude pedagógica: “vai ao Google”.
Temos de recomendar às beatas que também vão ao Google perceber a razão das nossas falências frequentes.
Democracia não é sinónimo de liberdade. É apenas o álibi utilizado para encobertar um estado de sufocação real metamorfoseado em sofrível respiração.
O rico será sempre cada vez mais rico, e o pobre ou mantém a bitola ou afunda-se na escala.
Em todos os países ditos livres e cujos governos são e foram eleitos democraticamente.
E mesmo essa envelopada liberdade só vai até onde o poder o permite. Diz no seu texto:
“O primado da liberdade nas suas diferentes vertentes, do respeito pelos direitos humanos, com especial enfoque pelos direitos das mulheres e das minorias, não é nem nunca deve ser um luxo da situação, mas apenas uma base de decência mínima.”
Debrucemo-nos então sobre os tais direitos humanos, mais propriamente no que concerne aos direitos da mulher.
Morrem mais mulheres em Portugal por violência doméstica do que vítimas do covid. Quantos companheiros ou maridos estão enjaulados?
Pelo menos aqui, num assunto de primordial importância, mudam-se os regimes permanecem as vontades.
Ai o teu marido arreou-te, – Juiz, se o caso lá chegar, – é porque lha pregaste e portanto só tiveste o que merecias.
Ai não fizeste? Então é porque tinhas pensamentos impuros. Vai para casa, porta-te bem e lê a Bíblia. *
(*) qualquer aproximação descritiva ao juiz da Relação do Porto, não é mera coincidência.
Se o SMN é uma referência do que é ser pobre, lembro-lhe que o da Irlanda é de 1800€. Este país não têm petróleo ou outros recursos naturais que justifiquem esta diferença em relação ao nosso SMO. A diferença que conta é na relação do estado com a economia, nomeadamente na sua burocracia e dimensão. Sem os nossos Velhos do Restelo também poderíamos seguir-lhes os passos.
Todo o primeiro parágrafo é, ou foi, aplicado à ‘rapaziada’ do regime anterior (ena regime anterior, estou a ser porreiro), não faz sentido fazer comparações com os tempos que vivemos há já 46 anos. Não tem comparação possível, mesmo estando a aparecer uns resquícios à la mode daquele tempo, falta-lhes as fardas MP e Portugal do Minho a Timor.
Não faz sentido fazer comparações com os tempos de há 46 anos. Concordo.
No entanto temos de nos governar por regras definidas nesse tempo.
Os donos da liberdade impediram que as gerações futuras pudessem decidir como é que se podem organizar? Faz ou não sentido poder debater o futuro?
As regras desse tempo eram a Constituição de 1933 e a cópia dos fascistas italianos e dos nazis alemães.
Vejam-se fotografias da época, mesmo que as pessoas pareçam mais velhas, todo o o governo, assembleia nacional e de várias repartições do estado serem autênticas brigadas do reumático, assim como qualquer acontecimento teria que haver uma figura religiosa e um desfile paramilitar.
(O simples acontecimento da inauguração da carreira de autocarros da carris Rossio-Olivais teve a presença do presidente Câmara e de um padre a benzer a tabuleta da paragem, existem fotos).
Tendo a II guerra mundial acabado em 1945, o país continuou a viver num estado de guerra com quarteis da tropa em todas as cidades e vilas principais e a partir de 1960 mais tropa passou a haver com o serviço militar obrigatório até para coxos e vêsgos.