O 25 de Abril foi um golpe de estado da tropa.
O regime anterior não conseguiu manter a motivação dos seus soldados e estes sentiram-se desligados da mão que os vestia e alimentava. Conseguiram levar o golpe por diante porque tinham armas e estavam treinados para as usar. Os padeiros, os pescadores, ou pastores nunca conseguiriam tal empreitada.
Aceito que alguns dos ‘capitães’ teriam aspirações de levar o povo para uma vida melhor, mas de facto nenhum deles singrou na política activa e, interpretação minha, acabaram por delegar a governação do país nas mãos dos que a isso aspiravam e, ao fim e ao cabo, estiveram na hora certa e no local certo.
Como o relógio não pára, a primeira vaga dos políticos que alinhavaram o actual regime já está velha. Basta ver a média de idades das ilustres figuras que estarão presentes no ajuntamento, a que chamam celebração, que decorrerá no próximo dia 25 de Abril.
Já tive a oportunidade de alinhar em críticas a este ajuntamento mas, depois de procurar um ângulo diferente para observar o fenómeno, acabei por reparar que a celebração deste ano, o 46º após o golpe, não é descabida coisa nenhuma, e será sim a mais significativa e fidedigna cerimónia do espírito do regime.
Cento e trinta marretas, sem ‘populares’ a aplaudir, que se representam a eles próprios e aos privilégios que conseguiram assegurar para si, para os seus amigos e protegidos, irão continuar a tentar a convencer a maralha que aquela coisa – o golpe – foi feita pelo povo.
Eles sabem bem que esse mito, de que o golpe foi feito pelo povo, é o degrau onde assenta a choldra que representam, e por isso não podem arredar pé.
Regressando à pandemia e lembrando a festa do bar 75 em Vila Maior, Santa Maria da Feira, alusiva ao covid, apontada como um exemplo acabado de irresponsabilidade e de mau-gosto, importa fazer uma comparação. Ali quem participou pagou o que comeu e bebeu, enquanto que no ajuntamento do 25 de Abril, quem paga não participa.

A isto se chama tresler a história.
Não é quem fez o golpe que é importante. O que é importante é que a partir dele foram devolvidas liberdades que o salazarismo sonegava. Liberdade de expressão de opinião, de participar na política, estado de direito, separação de podres e mais algumas coisas.
Pessoalmente não me interessam as motivações de quem fez o 25 de Abril. Interessa-me que tenha apresentado um programa que previa eleições ao fim de um ano e normalidade democrática ao fim de dois, e cumpriram. Apesar de todos os que por cá continuaram e continuam a pensar salazarento.
São as pseudo-vítimas da liberdade que sentem a falta de uma Pide que dê “uns quantos abanões” nos opositores. Sem nuca pensarem na sua estupidez que os opositores podem ser eles.
O golpe, como também o descreveu, permitiu também que eu possa dizer estas coisas. Mas também permitiu escolher quem seriam os banqueiros do regime, para com eles ter as relações promiscuas de que só conhecemos em parte, para nomear procuradores confortáveis e despachar os que poderiam faziam estragos. Não vou aqui relatar a lista de indignidades e indecências que já fazem parte do CV deste regime e que passaram pela mão de muitos dos 130 jarretas que no próximo sábado irão emocionados, fazer declarações de amor à liberdade.
Se ainda vivêssemos em ditadura não duvido de que lado estaria, mas passados 46 anos e a caminho da quarta falência sinto que o que temos é pouco.
Um postal Facho.
Que eu saiba só levam os golpes por diante aqueles que têm armas e foram treinados para as usar.
Já agora,a revolução liberal de XIX também não foi levada pelo povo, a Padeira é uma estória, e a República também não foi cosida pelos pedreiros /marceneiros.
Lê-se no postal uma crítica explícita à celebração de Abril e outra, implícita, à mudança de regime (ao golpe).
Foda-se, peço desculpa pelo palavrão… mas agora tudo o que não é comuna, tudo o que não é bloquismo, tudo o que não agrada ouvir, tudo o que sai fora do politicamente correto… em suma, tudo o que é liberdade de expressão… é facho?
Não é. Sabe o que é? É ignorância… ignorância pura de quem não faz a mínima idéia do que é o fascismo. É ser ovelha de rebanho de quem ecoa aquilo que lhe dão a ouvir. É preguiça de ler, de apurar conhecimentos sobre o que é o fascismo. É sobretudo uma falta de respeito para quem nele viveu, ou sobreviveu. É mimo de beto caviar de quem nunca ganhou um calo nas mãos a trabalhar. Sabe lá o que é fascismo… mas mais grave ainda… sabe lá o que é o privilégio de ter liberdade.
Está desculpado. Desculpe – me se não li a sua resposta
Típico…
“Não vou aqui relatar a lista de indignidades e indecências que já fazem parte do CV deste regime”
Era bom que pudesse relatar as indignidades do outro regime, mas com a censura é sempre complicado contar seja o que for.
Essa é uma arma dos donos da situação, quem os crítica é a favor da censura e contra a liberdade. Isso é simplificador e abusivo. Pois eu nem sequer me recordo do regime anterior e quando acho que o actual tem de ser renovado e não pode ser o último da nossa história.
Falha do meu post certamente, mas o enfoque que vale a pena dar é ao futuro e os 130 ilustres marretas que estarão no ajuntamento representam apenas o passado.
Não sei a sua idade, não sei que idade tinha em 1974, nem qual a sua experiência do que veio desse evento. Mas lhe garanto, o problema deste país foi passar do 8 para o 80, sem passar pelo 18, pelo 28, pelo 38 e por aí fora. Conseguimos criar uma máquina corrupta e mais importante ainda, uma justiça ineficaz para a combater. Mais grave, uma mentalidade absurda que não nos permite evoluir legislativamente para colocar este país nos eixos. Uma mentalidade que criou a ilusão de que a constituição foi impressa tal qual os dez mandamentos e que é inalterável. E assim se manobra de forma a que estes arautos da liberdade continuem a esmifrar o contribuinte honesto, a manobrar as cunhas, a passar impunes, a usufruir de recursos e mais recursos e a aproveitar as penas levezinhas, com a agravante de acabarem por nunca pagarem aquilo que desviaram. Liberdade deveria ser muito mais que eleições e liberdade de expressão. Deveria ser honestidade, justiça implacável e meritocracia. Ao invés temos corrupção, impunidade e cunhas para os amigos e familiares. Não chega, para quem lá esteve, como eu, não chega.
Eu não estive lá, ainda andava de cueiros.
Subscrevo o que aqui diz.
Soube há pouco tempo que a maioria dos juízes em funções no início do actual regime, transitou simplesmente do anterior. Tiveram de se ajustar à nova situação, e assim o fizeram.
Haverá quem diga que o mesmo terá acontecido noutras mudanças de regime noutras latitudes, mas também podemos dizer que isso pode explicar a relação demasiado próxima que têm na actualidade com a classe política.
Tenho de acrescentar que a última palavra do seu comentário está banida do meu vocabulário. É a procura de uma evolução que nos pode levar a uma grande regressão, que não duvido que ocorreria se tal javardisse fosse bem sucedida.
Concordo consigo, mas infelizmente para lá caminha, por muito que o lamente. Mas a culpa é fácil de atribuir. A culpa é desta classe pós 25 de abril, que em momento algum elevou aquela data, por muito que ache que andar com um cravo ao peito é suficiente. E para lá caminha por inoperância, incompetência e arrogância da classe política que nos representa à 46 anos… representa, quer dizer…. deveria representar. E se isso acontecer não vai ser por estupidez do português, como esta gente se tenta convencer, vai ser porque o português simplesmente se fartou…. e com toda a razão.
Excelente exemplo !……

A.Vieira
O povo vai sair à rua, metaforicamente, através dos seus representantes democraticamente eleitos.
Obrigado Parlamento (a parte democrática)
Fascismo nunca mais.
O vírus ao serviço do grande capital e das forças neo liberais de direita não passará.
Caro Anónimo,
Allahu akbar, também para si.
Eu estive lá. No Largo do Carmo a 25 de abril de 1975 e nunca mais lá voltei. Mas uma coisa lhe garanto, a maioria dos que lá estavam, não estavam por querer a liberdade do povo. Essa é a maior mentira da nossa democracia. A maioria dos que lá estavam, a começar pelos subalternos, era pura e simplesmente porque não queriam ir para o ultramar. Morriam de medo da guerra. Inventaram a falácia da liberdade, para camuflar o medo que lhes ia na alma. Eu inclusive… e hoje sou um herói… ironia do destino.
Ter medo é um legítimo mecanismo de defesa, mas surfar bem a onda é só para os artistas.

1974. O alzheimer já começa a fazer estragos, nem acerto nas teclas.
Apesar dos donos do regime terem vergonha o celebrar, foi mesmo nesse ano que a democracia ficou assegurada.
Em 25 de Abril de 1975, no Largo do Carmo, foi com certeza passear e visitar o local que há um ano atrás aconteceu a ‘rendição’.
Que idade tinha? Já tinha ido à tropa? Já tinha completado o seu Curso?
Sabia que até os aleijados iam prá tropa? Sabia que já se estava a pensar no serviço militar obrigatório também prás mulheres e a idade de para recrutamento passar para os 18 em vez dos 20 anos? (Pouco faltava arranjar míudos como os nazis para defenderem Berlim)
Acha que a guerra que durava há treze anos ia acabar passado mais um aninho?
Por muitas razões, como o direito à democracia partidária, acabar com a guerra seria suficiente para todos os anos festejarmos o 25 de Abril.
Pois meu caro amigo, nesse dia lá estava com o meu esquadrão de cavalaria, saído de Santarém ainda de madrugada. O meu objetivo não foi desprestigiar o 25 de abril, foi apenas lembrar um pormenor que se faz por esquecer. Que é o facto de a maioria, se não todos os militares que lá estavam, não estarem minimamente preocupados com a liberdade, com o fim do estado novo, ou com outros doutos valores. Estavam ali por medo. Estavam ali porque não queriam fazer mais nenhuma comissão, ou no meu caso, a primeira. Confesso que morria de medo da guerra, como eu quase todos. E no fim o argumento adaptou-se e fomos uns heróis. Quando a grande motivação não era libertar o povo…. era o medo da guerra. Cumpri 26 meses e 14 dias de serviço militar. Entrei como instruendo e saí 2 sargento. Quanto ao seu último argumento, concordo… mas questiono se pensa o mesmo da invasão do Iraque em 2003. O verdadeiro motivo, tal como o nosso, foi omitido, mas libertou-se um povo de um tirano ditador. E agora? Presumo que concorde com a invasão. Ou dá uma no cravo e outra na ferradura e foi também um dos que se insurgiu na altura?
(E como pode constatar no meu texto seguinte, a data foi corrigida… problemas da idade)
Se tivesse acontecido 13 anos antes, também eu tinha saído de Santarém.
O programa do MFA não foi feito no joelho naquela tarde.
A questão do Iraque tinha a ver com o pitrol. Se o pitrol fosse dos américas queriam lá saber do ditador, ou então se ele fosse rei ou príncipe muito menos.
Queria dizer 7 anos antes e não 13.
Uma manera crua de ver a coisa, mas que não deixa de ter umas verdades bem ditas lá pelo meio.
O grande capital paga-me para dizer estas coisas
Bronco,ignorante mas rancoroso, terás um prolongamento da condenação que te mata:
-Vais ficar a falar sózinho mais um ano !
Esse seu comentário é também uma confirmação do mito que o referido ajuntamento celebra. A democracia é uma coisa diferente.
Foi a primeira vez que li uma frase certeira, enxuta e popular a abrir as hostilidades. Qual Movimento das Forças Armadas ; qual quê … a Tropa . Ainda estou a rir. O Paulo Sousa sabe que estou grata ao movimento dos capitães e que gosto de comemorar a data. Felizmente esta comemoração não tem manual e pode ser celebrada de muitas formas… nunca ao arrepio e em contradição clara entre o que se manda fazer e o que se faz . Esse não é o meu Abril… o meu tem respeito pelo passado para se compreender o presente , celebra a esperança para um amanhã que sabemos difícil. Para ouvirmos discursos sobre esta matéria , não havia necessidade de reunir uma Assembleia a um sábado ( que não é dia de trabalho naquela casa) obrigando, Deputados, pessoal de segurança, manutenção e limpeza a deslocar-se, provavelmente a ganharem horas extraordinárias . Falar verdade é também falar nos custos de uma manhã de vaidades e teimosia em tempo de vacas magras!!
Amiga Ana
,
O golpe abriu a porta a grandes avanços do país e dos cidadãos. Mas 46 anos depois existem desequilíbrios na sociedade em dimensão suficiente para que se possa aspirar a mais do que isto.
O golpe não encerrou, nem pode encerrar a história do país, e o regime só pode aspirar a durar muitos mais anos se evoluir. Esse é um corolário do meu post.
Se a liberdade de expressão é uma conquista do golpe de estado, então que a exerçamos. Sem ela não passamos. (até rimou!)
Obrigado pelo comentário
Parafraseando Baptista-Bastos, onde estava no 25 de Abril de 1974?
Andava de cueiros.
Sou assim levado a concluir, que saberá mais sobre a festa do bar 75 em Vila Maior, Santa Maria da Feira, alusiva ao covid, do que propriamente sobre o evento que apelida depreciativamente de “golpe de estado da tropa.”
Como certamente não será o único, deixo aqui um pequeno trailer, que poderá ser utilizado com fins pedagógicos ou quiçá numa perspetiva mais saudosista ou revivalista.
https://www.youtube.com/watch?v=dsZIehHU MQQ
O seu comentário, que agradeço, é efectivamente representativo do regime que se vai celebrar no referido ajuntamento. É um regime que continua a precisar do passado para se legitimar. Eu gostava que o regime deixasse espaço também para o futuro. s-inimigos-do-futuro-11041698
Se quiser pode também ler isto:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/o
Meu caro, o futuro começa sempre no passado.
É verdade. Eu olho para o passado e só desde o golpe de estado vejo três falências. A próxima vai ser novamente por culpa do destino.
Veja as falências de XIX, no final da monarquia, motivo para um descontentamento da classe empresarial e influente/burguesa para com o regime. O Ultimato foi depois usado para mobilizar a populaça.
Se a seguir às falências que refere houve mudanças… porque é que agora é facho falar nisso?
“Um destes dias, num futuro próximo, gostaria de falar sobre o futuro que o regime de Abril tem para oferecer aos portugueses que nasceram depois dele.”
Este era o futuro que o regime de antes de Abril tinha para oferecer aos portugueses que nasceram antes dele… Vai-me desculpar, mas comparado com isto até as três falências são quase brincadeira, pior vai ser esta maldita pandemia, que não tem nada a ver com o 25 de Abril.
A Guerra Colonial tinha começado em 1961, e opunha o Exército português aos guerrilheiros que lutavam pela independência dos territórios africanos que Portugal na altura governava: Angola, Moçambique e Guiné.
O governo chamava a esses territórios «províncias ultramarinas» (porque estavam para além do mar) e afirmava que faziam parte de Portugal da mesma forma que o Minho ou o Algarve. Na verdade, eram colónias, ou seja, países com populações e línguas próprias que no passado tinham sido conquistados e ocupados pelos portugueses. Muitos países europeus tinham tido colónias em África, mas em 1973 ou 1974 essas colónias já se tinham tornado países independentes quer dizer, já não dependiam das metrópoles, que era como se chamava aos países colonizadores.
Mas o governo português da altura teimava em manter a posse das colónias, e por isso enviava para a guerra todos os jovens. O serviço militar a tropa, como se costuma dizer durava então quatro anos, os primeiros dois passados na «metrópole», em instrução e os dois últimos no «ultramar», em combate.
Muitos jovens morriam nos combates em África. Durante os 13 anos que durou a guerra perderam a vida quase 9 mil e uns 30 mil ficaram feridos ou estropiados. Quase todas as famílias estavam de luto, pois tinham pelo menos um morto na guerra. Em 1973, Portugal tinha 150 mil homens a combater. Muitos dos sobreviventes, depois de regressarem, mostravam dificuldade em integrarem-se na vida civil e eram frequentes as doenças psiquiátricas provocadas pela terrível experiência por que tinham passado.
Além disso, Portugal (que era, como agora, um país pobre) dirigia para as despesas da guerra cerca de metade do dinheiro que gastava. Portanto, quase não havia obras públicas; construíam-se poucas estradas, pontes, escolas ou hospitais.
A Guerra Colonial nunca poderia ser ganha pelos portugueses, pois o seu combate era contra a própria História. Quase toda a África era já independente.
Nesse tempo não se podia criticar o governo, mas como a guerra se arrastava, os mortos eram já muitos e as despesas cresciam cada vez mais, as pessoas passaram a estar fartas daquilo tudo. A certa altura, os militares começaram a ser apontados como os culpados por a guerra se arrastar.
Só havia um partido político, a Acção Nacional Popular, que apoiava o governo.
Não havia eleições livres.
Só se podia votar no partido do governo.
As mulheres só podiam votar se tivessem concluído o curso secundário.
As mulheres não podiam viajar sozinhas para fora do País sem autorização escrita do marido.
Não se podia dizer mal do governo e quem o fizesse era preso.
Havia uma polícia política, com milhares de informadores em toda a parte, que escutava praticamente todas as conversas.
As pessoas casadas pela Igreja não se podiam divorciar.
Cada patrão pagava o que queria aos seus trabalhadores.
As notícias só podiam sair nos jornais depois de terem sido lidas e autorizadas pelos Serviços de Censura.
Os jovens passavam quatro anos na tropa, dois dos quais na guerra.
Em 1974 cerca de 26% da população era analfabeta.
Em 1974 havia cerca de 38% de mortalidade infantil.
Posto isto e parafraseando Winston Churchill..” A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais”.
É um belo resumo do regime anterior. O actual não é tão mau assim, mas tem coisas e permite coisas más. Por isso precisa de evoluir para que possamos ter futuro.
Isso depende de todos nós, andámos distraídos durante muito tempo, não exercendo o escrutínio que se impunha.
Antes de mais quero agradecer este post, que, tirando um ou outro alienado, propiciou comentários intelectualmente estimulantes, incluindo este que comento. Pretendo, todavia, colocá-lo em perspectiva. Morreram menos portugueses nos 13 anos das 3 guerras de África, do que nos 2 (ou 4) anos na guerra da primeira república. E aos mais 10 mil militares portugueses que morreram na guerra da primeira república, juntaram-se os que morreram de fome na metrópole (e já não falo da gripe espanhola), e os que morreram da violência política (muita dela do próprio estado ou de milícias associadas ao partido dominante) que grassava nas ruas. E nunca, sem dinheiro oferecido ou roubado, houve tantas obras públicas no nosso país; tantas estradas, pontes, escolas ou hospitais, foram construídos em Portugal (incluindo, obviamente, as colónias), como entre 1930 e 1974. Era um ditadura de partido único. Sem dúvida. Tinha censura, presos políticos, tortura. Sem dúvida. Discriminação entre sexos e religiosa. Sem dúvida. Mas, desde logo, foi um regime muito mais apreciado pela população do que a democracia nominal que o precedeu (aliás, é essa a explicação para os 48 anos que durou). E, concordando-se – como eu concordo, a 100% – com a última frase, interessa não a ter como um dado adquirido (tirando, obviamente, em Inglaterra), pois, no dia em que acabar o dinheiro europeu (e o eleitor holandês, alemão ou escandinavo não vai ter muito mais paciência para a ladaínha de Sanchez e Conte), aí é que será testada a robustez da nossa democracia.
O anterior regime ter sido mais apreciado pela população do que a democracia porque durou 48 anos parece – me bastante questionável… A URSS durou 69 anos, gostariam os russos assim tanto do comunismo?
Bem, nós não tivemos uma guerra civil que causasse um milhão e meio de mortos (e mais meio milhão de “kulaks”), seguida de uma fome que causasse 5 a 7 milhões de mortos, seguida de uma purga partidária que causasse mais um milhão de mortos, seguida de uma invasão que causasse cerca de 26 milhões de mortos, seguida da deportação de várias nacionalidades que causasse mais outro milhão de mortos, o que, creio, interfere, nas contas, desde logo porque a quase totalidade das pessoas que tinham uma recordação positiva do regime russo anterior ou a 1917 (que já não seriam muitas à partida), ou negativa do soviético, tenderia a estar morta ou exilada (o que, creio, não foi o caso português, em que muitos conhecidos oposicionistas – republicanos, monárquicos, maçons, integralistas, ou seja, todos excepto os comunistas – levaram, durante décadas, vidas calmas e confortáveis).
No plano doméstico, as presidenciais de 1958, também tornam questionável a empatia dos portugueses pelo regime de então e pela figura paternal de Oliveira Salazar… A celebre frase “obviamente demito-o” terá valido a Humberto Delgado uma enorme popularidade e a adesão á sua candidatura de todos aqueles que não se reviam no regime e que não seriam assim tão poucos quanto isso.
“A convicção de muitos opositores dessa época de que, sem fraude, Delgado teria vencido as presidenciais de 1958 baseia-se provavelmente na dimensão das manifestações de apoio durante a campanha eleitoral. Segundo estimativas apresentadas numa publicação das edições “Avante” posterior ao 25 de abril, só as manifestações do Porto e de Lisboa terão tido em conjunto 500.000 participantes. Ora os resultados oficiais das eleições atribuíram apenas 234.026 votos (23%) ao general contra 750.733 (75%) para o almirante Américo Tomás, candidato do Governo. Como seria possível que os apoiantes de Humberto Delgado tivessem “desaparecido” no dia das eleições?”
Tratando-se o regime anterior de uma ditadura, obviamente não se acredita nos resultados dessa eleição (nem nas de 49, nem nas de 69). Todavia, confiro igual credibilidade a publicações das edições “Avante” – em especial em matéria de afluência a “manifs”, em que ainda hoje o PCP e os seus sicários nas redacções mentem sem pejo nenhum. Certo é que em 1958 o regime salazarista (perfeitamente enquadrável na normalidade europeia nos anos 30) já era um colossal anacronismo, e ainda assim, e mesmo com a perda de Goa, Damão e Diu, e as guerras de África a partir de 61, ainda prosseguiu, sem sobressaltos relevantes, até ao fim físico do ditador, e 5 anos para além deste.
As eleições para a Assembleia Constituinte em 1975, foram as primeiras eleições livres com sufrágio universal realizadas no país, cenário ideal para aferir quais as preferências dos portugueses.
O vencedor foi o PS com 37,87% dos votos, o PPD, que tinha nos seus fundadores (Magalhães Mota, Sá Carneiro e Pinto Balsemão) antigos deputados da anterior Assembleia Nacional, foi segundo com 26,39% dos votos, o PCP terceiro com 12,46% dos votos e o CDS quarto com 7,61% dos votos.
A existir uma grande empatia entre os portugueses e o regime anterior, a mesma não se teria esbatido em apenas um ano, pelo que seria natural que os resultados fossem diferentes.
Bom dia. Creio não fazer sentido que a “empatia” entre a população e um regime que começou em 1926 se possa aferir em 1974, ano em que este ruiu (quanto mais em 1975), com o ditador morto e enterrado e o regime cada vez mais anacrónico e contraditório com os próprios costumes sociais (é ver as excelentes resenhas de revistas da época do Porta da Loja, um excelente blog, mesmo para quem não concorda com as ideias do autor). Aliás, a minha lógica é precisamente a inversa – a de que o que viabilizou o 25 de Abril foi o facto de já poucos se lembrarem do desastre que foi a Primeira República. Acresce que o golpe de estado de 25 de Abril, iniciou, de facto, um período revolucionário, abortado (ou muito mitigado) em 25 de Novembro de 1975. No contexto dessa revolução, a vitória das forças que refere foi, de facto, uma vitória (inesperada, aliás) da contra-revolução, sendo que muito do voto do PS proveio (como ainda, essencialmente provém), da classe média ligada ao Estado, conservadora por natureza, e que se conforma com qualquer regime, desde que lhe seja garantida a protecção dos seus bens e a certeza dos seus rendimentos.
Concordo que são as forças conservadoras, não em exclusivo mas essencialmente funcionalismo público, que mais têm a ganhar em manter o status quo. São avessas à mudança por benefício próprio e por convicção. Se lhe perguntarmos o que entendem por solidariedade para com os 20% de portugueses que vivem na pobreza, eles irão responder que quem tem falta de solidariedade são os holandeses.
Meu caro,
Terei então que aguardar, no mínimo 3 anos, partindo do principio que, entretanto, não acontecerá nada de mais anormal do que aquilo que está a acontecer, para então refutar a sua argumentação, com o seu argumento… (…”foi um regime muito mais apreciado pela população do que a democracia nominal que o precedeu (aliás, é essa a explicação para os 48 anos que durou”).
Foi um prazer argumentar consigo, e que por cá estejamos todos, de boa saúde, para celebrar o 25 de Abril de 2023.
Faço minhas as suas palavras e esperemos que seja assim, de facto. Até porque, ao contrário do anterior, este regime não está “orgulhosamente só” – e, enquanto se mantiver em boa companhia, dificilmente sairá do bom caminho. Saúde!
Não concordando com tudo que está no post inicial. Gostei e estou a gostar das várias maneiras de ver o tema, ou seja, as várias vertentes que o post suscitou. E isto que precisamos, sem tocar em extremos, saber ver as vertentes imensas de uma sociedade plural e o mais tolerante possível, tolerante sem ser lambedor de botas. Só seremos bons nisto se não tivermos tabus, sem esquecer os recuos valorizar as vitórias. Agora as pandemias são acidentes de percurso. Gosto da vida, saúde a todos.
Amigo Aurélio,
É um prazer ter-te aqui.
Também gosto da vida, da liberdade e da tua amizade.
Sei do teu apego ao espírito do golpe de estado (se fosses uma beata ficavas danado que eu chamasse isto à revolução) mas também sei da tua tolerância para com a rebeldia que me permite dizê-lo. As beatas são umas cinzentonas e fazem por ignorar a imensidão de portugueses na pobreza, simplesmente porque estão bem acomodadas.
Um abraço
E no entanto, meia dúzia de anos depois, o ex combatente era maltratado, menosprezado, desvalorizado, criminoso e assassino. 40 anos depois lá acabam por lhe dar uma ninharia, para compensar o que passou. Goste-se ou não, concorde-se ou não, e a maior parte não concordava, o ex combatente serviu a pátria, mesmo com o sacrifício da própria vida. E em todos estes anos depois, o ex combatente continua a ser visto como uma vergonha, o polícia é desrespeitado, agredido diariamente na sua condição de polícia, por todos os quadrantes, social, político, legal, e o militar continua a ser visto como um chulo inútil.
“Se servistes à pátria, que vos foi ingrata, vós fizestes o que devíeis, ela o que costuma.”
Padre António Vieira
Aquele que dava os ventiladores aos novos também vai?
Não sei, mas veja aqui uma boa que recebi por email.
https://www.jn.pt/politica/mario-so ares-ausente-das-cerimonias-do-25-de-abr il-3808719.html
Estive na guerra, em Angola. Ter medo é natural, o que não é natural é que não vejam o salto qualificativo, que o país conseguiu, com a democracia. Em 1974 só tínhamos estudos superiores em três cidades, trinta ou quarenta por cento eram analfabetos, meia dúzia de quilómetros de autoestrada, etc….
A guerra não tinha solução, consumia o que precisávamos, para modernizar o país. Infelizmente, hoje, há políticos corruptos, e os da ditadura eram todos sérios?
Concordo e subscrevo.
Mas 46 anos depois falta-nos futuro. Existem demasiados desequilíbrios à nossa volta para que aceitemos cegamente o actual situação sem que se possa aspirar por mais.
Em 1985, 11 anos após a data, continuávamos a ter meia dúzia de quilómetros de autoestrada e ainda eramos analfabetos em demasiada percentagem. Não foi o 25 de abril que alterou isso, foi a CEE. O 25 de abril alterou muita coisa, mas não alterou isso. Quanto aos corruptos, com certeza que os havia, mas em muito menor quantidade, pois a consequências eram severas, ou noutra perspetiva, adequadas. Havia honra, havia a salvaguarda do bom nome. E o mais triste de tudo isto, é que se não fossemos sôfregos na ânsia de virar a 180 graus, sem olhar a consequências, podiamos ter tudo isso… mas em liberdade.
A minha preocupação é com o futuro.
“Quanto aos corruptos, com certeza que os havia, mas em muito menor quantidade, pois a consequências eram severas”
Diga-me Um, Um, Um exemplo de um caso de alta corrupção, levado a julgamento, no Estado Novo? Não o encontrará, sabe porquê? Porque quando o caso começava a ser falado Salazar demitia – o, não por um qualquer critério associado a ética (muitos corruptos permaneceram no Governo, com o conhecimento de Salazar) mas porque o escândalo assumia tamanho tom que nem a censura conseguia calar as bocas. E Salazar demitia, mais tarde, com a condição prévia de não haver julgamento porque isso significava enfraquecer o regime.
Também havia menos corrupção por outro motivo. A maioria era analfabeta e pobre. A corrupção era assim oligárquica, limitada ao Estado e à Indústria/Empresas.
Caro Vorph,
Concordo. O que aqui diz está documentado e não é matéria de opinião.
Mas entenda que criticar o que temos não elogiar o que o antecedeu.
Tem toda a razão. Isso nem se discute. O que se discute é a forma como chegamos a isto que temos. Como maus alunos que fomos, não aprendemos com o passado. E aprender também tem a haver com ter a capacidade de em vez de mudar radicalmente, adaptar, analisar e alterar. Não foi o que fizemos. O que outrora era uma desonra, agora é banal. O que outrora era vergonha, agora é despudor. Quem outrora falhava e era riscado de toda e qualquer função pública, agora é transferido… mantendo as mesmas, ou melhores mordomias. E foi nisso que falhamos. Apagamos, e bem, muitas coisas, infelizmente não adaptamos outras. E digo adaptar, nunca copiar, não vá alguém chamar-me de facho.
Chamar facho é o mesmo que usar o Ctrl+Alt+Del nos PC’s antigos, quando já não se sabia o que fazer, neste caso dizer. É uma escapatória ao debate.
Não foi o 25 de Abril, que nos permitiu entrar na CCE.!
“11 anos após” poderia ter sido no dia seguinte!
“Consequências eram severas”, sem imprensa livre, sem escrutínio, sem podermos abrir a boca.
Marques Mendes esta noite”O 25 de Abril não tem lepra”!👏👏👏👏👏👏👏
https://www.jn.pt/politica/mario-so ares-ausente-das-cerimonias-do-25-de-abr il-3808719.html
Onde é que eu assino?

Como anónimo não vale a pena
Onde é que eu assino?

* repito o comentário porque, por engano, comentei de forma anónima.
Felizmente ainda há quem olhe para a nossa história com lucidez. Somos e seremos sempre apelidados de reaccionários pela corja clientelar que cravou os dentes neste miserável país, e pelo seu séquito de acomodados.
Parabéns pelo texto, numa era em que é cada vez mais penoso discordar das “verdades oficiais”.
José de Bêtum
O ponto do texto é o futuro e não o passado. Estes 130 jarretas representam o passado e nós precisamos é de futuro.
A comemoração do 25 de Abril hoje, é apenas uma triste tentativa de legitimar a obsessão com o desenterrar do ditador. Se não chegamos ao lunatismo espanhol, não é por falta de vontade da clique de dementes que se apoderou das nossas instituições.
Farto, farto de ver tentarem justificar o estado de corrupção actual e de falta de ética com o bordão “No tempo da ditadura era muito pior!” Como se ninguém soubesse que a precisa razão que levou a ditadura a instalar-se foi o estado de corrupção e de imoralidade cívica dos exactos avós da corja que hoje nos governa.
Querem festejar por nos terem salvo de uma ditadura quando estão inexoravelmente a arrastar-nos para outra. Cabrões.
O regime precisa de reformas. Trouxe-nos uma evolução positiva mas a actualidade não nos permite evoluir com as regras escritas nos anos 70.
A prova da grandeza do 25 de Abril de 1974 e do humanismo e generosidade daqueles que o fizeram, foi a criação de uma sociedade plural, capaz de albergar tudo e todos, até os fascistas mais ou menos reciclados.
Apesar dessa liberdade que é saudável, continua a haver quem prefira mandar bocas anonimamente. Até esses cabem dentro da grande grandeza.
Mas atenção que agora tem de se dizer todes ou tod@s. Chegamos a um ponto em que até as beatas já são corrigidas pelas beatas das beatas. Ou beat@s, ou lá o que é.
Num off, já estão a acordar para a farsa que são as linhas de crédito covidianas…
Segundo o principio da dualidade contabilística, a um crédito corresponde sempre um débito. Algum bolso está sempre do outro lado para desembolsar. De quem será o bolso?
Uma no cravo. Outra na ferradura. Que mereciam nos quatro cascos solípedes. 🥀
‘…foi um golpe de estado da tropa’
Então, porque não dizer ‘…foi um movimento revolucionário feito pela tropa’.
Então, depois de 48 anos de partido único, policia politica, censura prévia a todas as edições escritas, filmadas ou teatrais, força para-militar repressiva e organização de juventude fascista, repressão e prisão sem julgamento de opositores, estado policial e quarteis militares em todas as cidades e em muitas vilas do país, campo de concentração para opositores e guerra nas colónias há 13 anos sem solução, com uma elevada taxa de analfabetismo, mortalidade infantil e milhões de emigrantes, então um Movimento de Capitães resolveu acabar com tudo isto revoltando-se para DEMOCRATIZAR, DESCOLONIZAR E DESENVOLVER.
O 25 de Abril de 1974 foi um movimento revolucionário feito por militares. Extraordinário, feito por militares apenas com uma rajada de tiros contra a parede do Quartel do Carmo.
Existe uma fotografia tirada a um soldado deitado no chão, na Calçada do Sacramento, apontando uma metralhadora com três putos sentados a seu lado, que ilustra bem não se ter tratado de ‘…um golpe de estado da tropa’.
Mas este meu post carece de um outro que terei de escrever dirigido às beatas do golpe de estado. Criticar o que temos não é defender a obsoleta situação anterior, mas sim uma resposta para a imensidão de portugueses que continua na pobreza. Claro que eles não têm voz, nem o sindicato dos pobres faz parte de nenhuma central sindical, mas eles existem e são a prova de que o que temos só satisfaz os que estão bem posicionados na pirâmide.
‘..imensidão de portugueses que vive na pobreza’, grande frase para um cartaz eleitoral.
Mas, só pode ser agora. Caso fosse antes do covid, como havia uma baixa taxa de desemprego o patronato não achava graça pensando que queria dizer que pagava pouco aos trabalhadores.
«porque tinham armas e estavam treinados para as usar».
Mentira. O que queriam eram mais benesses do que os milicianos que andavam no mato.
Eles tinham anunciado 300pessoas na semana passada,no mesmo sítio e,como o 25Abril foi bastante polémico,hoje nas notícias da TVI pelas 13h,já deram a notícia de que o ajuntamento na assembleia da república era apenas de 95pessoas,mas,mesmo assim,eu acho isso uma falta de respeito para aqueles que estão fechados em casa em quarentena obrigatória,pelo menos,é a minha opinião sobre o assunto!!