Debater com cassetes


Adolfo Mesquita Nunes,

 

Escrevo na blogosfera desde 2004, quase sempre sobre política. E sou filiado no CDS desde 1997. Serve este contexto, que nunca escondi, para dizer que conheço bem a circunstância de escrever diariamente, ou quase diariamente, sobre a paisagem política portuguesa de que o partido a que pertenço é parte integrante.

 

Conheço, por isso, a circunstância de lidar com críticas e elogios à actuação do CDS e dos seus dirigentes e deputados. Conheço, também por isso, a circunstância de me ver confrontado com posições do CDS com que concordo muito, concordo assim-assim, concordo pouco ou concordo nada. E conheço, claro está, a circunstância de ser interpelado sobre essas concordâncias ou discordâncias.

 

Optei, desde que comecei a escrever na blogosfera, e com a anunciada excepção da Rua Direita, por não comentar nunca a actuação política e partidária (já não o posicionamento ideológico e estratégico) do CDS, independentemente da Direcção vigente. Por duas razões: a primeira, porque tenho a consciência de que, por mais objectivo que ache que seja relativamente à actuação do meu partido, seria legítimo que quem me lesse duvidasse dessa objectividade e pretendesse ver nas minhas análises qualquer outra coisa, ao estilo de propaganda ou ao estilo de campanha interna; a segunda, porque havendo muita coisa com que discordo, sinto que devo colocar tais questões nos sítios certos antes de as escrever na blogosfera.

 

Tenho por isso muita dificuldade em encontrar, pela blogosfera fora, quem faça da sua militância partidária a absoluta alienação da capacidade de pensar por si próprio. Como é possível que, legitimamente optando por escrever sobre o partido a que pertencem ou sobre o Governo que suportam, não se lhes conheça uma crítica, pequena que seja, um "algo está mal", uma paragem pela berma, uma dúvida, um receio, uma divergência: nada que não seja a defesa cega da coisa.

 

Estão essas pessoas no seu direito, não questiono. E saberão de si e da imagem que gostam de passar, não duvido. Mas não consigo debater com pessoas assim: não estamos num debate; estamos na utilização da blogosfera para a passagem de uma cassete. E não debato com, nem respondo a, cassetes.  (também aqui)   

4 comentários em “Debater com cassetes”

  1. Muitíssimo bem visto. É realmente uma pena que muita gente não saiba guardar uma ‘distância de segurança’ em relação àquilo em que está envolvido ou de que está próximo e tenha uma inevitável leitura míope do que as envolve. Saber ver de um plano superior e de uma forma desapaixonada esses acontecimentos é, infelizmente, algo que apenas poucos tentam fazer. E isso tem, como todos bem sabemos, conduzido a nossa vida política ao lugar onde actualmente se encontra.

  2. Não sei como me escapou este teu post, Adolfo. Só agora o leio e dou-te os parabéns pela inteligência, isenção e lucidez da tua posição. Nunca confiei em rebanhos acéfalos e essa prática, para mim aberrante, sempre me impediu de aderir a um qualquer partido. Mas o que leio aqui não é nada que não esperasse de ti. Assim pensassem todos os filiados (em partidos, facções ou quaisquer outros grupos políticos) e a nossa democracia seria muito mais saudável. E muito mais madura.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *