Ainda assim


Sérgio de Almeida Correia,

"Parece que a política degenerou num caso de polícia. Mas sobre o principal responsável pela situação do país, nem uma palavra. Falo, como é óbvio, do PSD. O apodrecimento do PSD, desde que o dr. Cavaco o abandonou por conveniência pessoal ou simplesmente por orgulho, não comove ninguém. A história de quase 15 anos em que o PSD se foi pouco a pouco desfazendo não deixou vestígio na memória dos portugueses" – Vasco Pulido Valente, aqui

 

O resto da história, uma vez mais exemplarmente resumida pelo articulista, é de todos conhecida.

Mas, enfim, não sejamos socráticos. Partir dessa pergunta para a descoberta da verdade não nos garante o conhecimento, ainda que nos permita extrair algumas conclusões.

Estou por isso bem mais de acordo com o que o André Freire dizia esta manhã na SIC, referindo-se à golden share do Estado na PT.

O problema não está efectivamente na golden share. O problema está em colocar como representantes do Estado em empresas como a PT, mas também nalguns serviços e em determinados lugares da Administração Central, acrescento eu, os apparatchiks mais desqualificados (para a função, naturalmente) dos partidos. 

E como o André dizia e eu há anos batalho, tudo radica num único ponto: os métodos de recrutamento e selecção do pessoal político.

Se eles funcionassem nem sequer Cavaco Silva teria aparecido. Como não funcionam, para além do actual Presidente da República também tivemos Menezes, Mendes e Ferreira Leite, como também temos Sócrates e alguns mais antes dele, e amanhã teremos um Passos Coelho ou um Rangel.

Para além de nenhum destes nos dar qualquer garantia de que amanhã as coisas serão diferentes, e que não correremos o risco de ter mais administradores nas empresas do Estado sem currículo ou estatuto, atirar a culpa para cima do PSD não resolve nem o problema deles nem o nosso. É dentro dos partidos que reside a chave do problema e a sua solução. Para mudar seria necessário que eles quisessem. Isto é, que os seus militantes começassem a ver um pouco mais longe do que o cartão do partido e as eleições seguintes para a concelhia ou a distrital.

3 comentários em “Ainda assim”

  1. Isto é muito muito à frente, Sérgio…, bem que queria ver o VPV hoje nas televisões nos telejornais das 8, às sicn rtpn and so on para comentar este desassombrado artigo. Infelizmente ele teve azar, quando lhe meteram um microfone à frente foi para participar num circo de 3ª categoria. Um desperdício para uma cabeça como a dele. Mas hoje receio que no meio de tantas cavalgaduras, ainda o mandassem internar.

  2. Não concordo com este post. Para mim, o problema está efetivamente na golden share. A questão é muito simples: o Estado deve estar, tanto quanto possível, fora do aparelho empresarial e económico. Estando dentro, inevitavelmente influenciá-lo-á (para que está o Estado dentro se não, precisamente, para influenciar?), criando inevitavelmente suspeitas. E se não forem as atividades da PT a levantar suspeitas, serão as atividades da RTP, ou da TAP, ou da REFER, ou de qualquer outra das empresas dominadas ou influenciadas pelo Estado.

    Mesmo que os administradores nomeados pelo Estado fossem pessoas maravilhosamente honestas, cairia sempre a desconfiança sobre o que o Estado estaria, ou deixaria de estar, a fazer através dessas empresas. Sobre as influências que estaria a exercer, ou a deixar de exercer. Sobre a atividade política que estaria a ter, ou a não ter.

    Não se trata de uma questão de os administradores nomeados pelo Estado serem boys. Trata-se de uma desconfiança legítima em relação àquilo que o Estado pretende fazer, ou pelo menos pode fazer, através dessas empresas.

    1. Embora entenda o que quer dizer, chamo a sua atenção para o facto de nem toda a gente ter a mesma opinião sobre as ‘golden shares’, Luís.

      Pode ser (repito: pode ser) que esse tipo de participações especiais do Estado (que envolvem um capital simbólico, mas mantêm influência por vezes decisiva) seja útil em sectores considerados estratégicos (como é hoje o caso das comunicações).

      Há quem defenda, por exemplo, que impedem a entrada de capitais estrangeiros acima do desejável ou até a aquisição da totalidade por investidores estrangeiros, o que significa a perda inevitável das já poucas empresas e grupos que temos em sectores-chave.

      O que importa (isso, sim) é que as ‘golden shares’ não sejam usadas para esquemas inconfessáveis. No fundo, trata-se da ética, seriedade e transparência de processos por parte dos executivos que actuam em nome do Estado.

      Parece que é esta a diferença em relação ao que V. refere e que temos de exigir: fazer em nome dos interesses do Estado e não fazer em nome de interesses próprios só por ser possível aproveitar a oportunidade.

      À falta de melhor e mais eficaz, apenas não entendo por que é que as administrações das empresas em que há ‘golden shares’ não são as primeiras a vir a público denunciar intervenções abusivas por parte do poder político. Porque admito que se pode “encornar” um presidente ou um administrador sobre uma operação obscura, mas é impossível “encornar” uma administração inteira.

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