Crónicas sobre esta estreita faixa de terreno (2)


Paulo Sousa,

Hoje vou falar-vos de oliveiras. As galinhas podem esperar.

As oliveiras aqui do sopé da Serra dos Candeeiros são maioritariamente da variedade galega. Tradicionalmente estas árvores eram de grande porte, com cinco ou seis metros de altura e oito ou dez de diâmetro. Noutros tempos, em que a mão de obra era jovem e abundante, subir a essas alturas não era um problema, mas com o passar dos anos, e com a mudança etária que o mundo rural sofreu, os acidentes na apanha da azeitona começaram a ser um tema incontornável. Todos os anos pelo menos uma pessoa conhecida sofria um acidente grave ao cair de uma oliveira e, pouco a pouco, as árvores foram sendo ‘derrotadas’ com podas mais curtas tornando-se mais baixas e, por vezes, até desproporcionalmente largas.

Além da questão da segurança, a oliveira tem de ser podada para não ficar com o seu interior muito cerrado. A planta esforça-se muito mais para manter toda aquela vegetação e isso reduz a sua produção. Além disso, uma oliveira muito fechada complica muito a apanha da azeitona. O ano que se segue a uma destas podas é sempre menos produtivo, mas a prazo é uma boa opção.

As ovelhas entregam-se com afinco às sobras destas podas e rapidamente fazem desaparecer todas as folhas. É um ciclo perfeito. O excesso aparentemente inútil das oliveiras transforma-se em alimento. Sobram ainda os ramos que, agora despidos de folhas, servem para atear o forno, e até que esse dia chegue são um poiso muito apreciado pelas galinhas para pernoita.

A apanha da azeitona é naturalmente um momento especial para os olivicultores. É o inicio da última fase de vários meses de trabalho, e que só termina quando se vai buscar o azeite ao lagar.

O minifúndio, que aqui é maioritário, permite que em poucos dias se resolva o assunto e, mesmo para os menos idosos que ainda trabalham, é vulgar guardarem-se uns dias de férias para esta altura do ano.

Não conheço por aqui quem subsista exclusivamente da produção de azeite. Esporadicamente poderá ser um complemento de rendimento, mas na maioria das vezes é apenas uma forma de ter azeite caseiro suficiente para gastar todo o ano e para dar à família e amigos. É também uma forma de pagamento a quem, que não sendo da família, tenha ajudado na apanha.

Normalmente a colheita é também o motivo, não menos importante, para reunir a família. Existe uma forte vertente pessoal e familiar em tudo isto. A relação com o olival é alimentada por uma mistura de posse do território com homenagem a quem o planeou e concretizou. Manter um olival é manter um espaço, as suas plantas e o propósito que foi concretizado há muitas décadas atrás pelos pais ou avós.

Mesmo que não conscientemente, quando se planta um olival, se cuida dele com a ajuda dos filhos, irmãos e outros familiares está-se também a passar uma mensagem e a consubstanciar uma intenção.

O azeite produzido desta forma tradicional e tão pessoal fica muito mais dispendioso do que o que se consegue com métodos intensivos e muito mais profissionais. Tem havido diversas mudanças no enquadramento legal de toda esta actividade e no geral todas têm reforçado as vantagens do efeito de escala conseguido pelas explorações intensivas.

Em abstracto os subsídios agrícolas irritam-me, mas o maior subsídio que se poderia dar a este tipo de agricultura era não lhe complicar mais a vida. Um olival tradicional pode durar muitos mais anos que a idade do actual regime político somada à do anterior. Mas mesmo assim há sempre mais uma norma emanada pelo ministro de turno, porque agora é que se vão resolver os problemas e enriquecer os agricultores. Nisto sinto-me especialmente liberal. Não mudem mais regras porque isso é, demasiadas vezes, o melhor que um governo pode dar ao seu país.

Apesar de tudo isto ainda vai havendo quem insista em manter esta tradição, e este ano adivinha-se mais produção que no ano passado.

20 comentários em “Crónicas sobre esta estreita faixa de terreno (2)”

  1. Já vai na quarta geração de olivicultores. Este ano plantei 150 oliveiras …só daqui a 3 ou 4 anos é que poderei oferecer azeite aos amigos. É só esperar e aprender.

    1. Pois eu já há uns 3 ou 4 anos transplantei uma oliveira que nasceu no meu quintal (não foi plantada, simplesmente nasceu de algum caroço que lá foi parar), ela cresceu, está agora com 4 metros de altura, mas ainda não deu uma única azeitona. Não sei que se passa com ela…

      1. Para ter uma oliveira para plantar retira-se um lançamento novo de uma árvore adulta, mantendo um bocadinho de pé, ou seja da base de onde esse ramo cresceu. Coloca-se essa nova ponta em terra que se deve manter húmida. Em poucas semanas esta estaca ganha raízes. Algum tempo depois quando ganhar rama pode ser plantada.
        A árvore de que fala pode vir a produzir mas o método mais habitual aqui na zona é o que descrevi.

      2. Possívelmente não é uma oliveira. Se a folha fôr mais miúda é um zambujo, que é um óptimo “cavalo” para receber um enxerto de oliveira. É só escolher a qualidade pretendida e em Fevereiro/Março mãos à obra.

        1. O que o Paulo está a dizer é que a oliveira se reproduz por clonagem. Eu, que não sou da terra das oliveiras, comprei uma que tenho tratado com cuidado mas que, apesar de ter uns anos, nunca me deu uma azeitona. Será que quem me vendeu a árvore, ainda jovem, me enganou? Será que a variedade não se dá na minha zona?
          Seja como for, parabéns pelo seu postal.

          1. A sua oliveira está envasada ou foi plantada na terra? Se estiver a fazer decoração rodeada por piso pavimentado, não ter azeitonas é bom porque quando estas começam a cair sujam o chão com nódoas difíceis de tirar.
            Já agora, é habitual florirem no final da Primavera? Pode precisar de outras oliveiras nas proximidades e dos insectos auxiliares para ajudar os vingamentos das flores. Quando caem as pétalas e não surgem os frutos, às vezes por haver muita chuva ou frio fora de época, diz-se que a flor moeu. O ano passado isso foi a causa da escassez.

          2. Muito obrigado pelo seu cuidado.
            A minha oliveira está num jardim, com relva à volta. E muito sozinha, sim senhor.
            Nas redondezas não conheço outra.
            Por mais que tenha espreitado, só uma vez vi uma flor e só dessa vez deu fruto, único, que não apanhei – ou caiu sem eu ver ou foi roubado pelos pássaros que, por aqui, há muitos.
            Mas não se preocupe mais com isso. A meu comentário tinha apenas a finalidade de lhe dizer que gostei do seu escrito. Continue.

  2. É, as ovelhas pelam-se pelas folhas de oliveira. Melhor, só as de castanheiro.

    Eu vejo-me desgraçado é para podar os ladrões. Com que força e em que quantidade eles brotam! As costas é que se lixam.

    Já agora, um pequenino desabafo: do fundo do meu coração, um valente badamerda aos filhos da grande prostituta que nos obrigaram a fechar e destruir centenas de lagares de azeite, a pretexto de PAC’s e ASAE’s e o camandro.

    Por fim: e não tem dado para guardar algumas dessas azeitonas para curtir? Um punhado delas em cima do puré tostado no forno e uma pessoa até chora de felicidade.

    1. Sabe que vivemos em cima de uma montanha de conhecimento, que confundimos com sabedoria. Lidamos com as práticas tradicionais como se tivessem sido inventadas por gente atrasada e incapaz.
      Andamos há séculos a comportar-se como uns eternos adolescentes, embora aos optimistas como eu já vai havendo alguma amadurecimento enquanto espécie, mas idade adulta ainda está distante.
      As azeitonas para por em água são uma opção gastronómica bem interessante. Quando numa tigela, começamos por escolher as melhores, e no fim comem-se todas na mesma.

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