Já li, de virologistas, epidemiologistas, matemáticos, estatísticos, economistas e outras dezanove variedades de istas, para cima de 345 pareceres; e de tudólogos, opinólogos e leigos já perdi a conta.
Nem por isso tenho as ideias muito claras. Vejamos o que se pode entrever no nevoeiro espesso das opiniões:
Há, esquematicamente, três maneiras de lidar com o Covid19: a chinesa, a inglesa e a reactiva (que é a nossa, particularmente tosca). E, diz quem sabe, as respostas de Singapura, Taiwan e Coreia têm muito que as recomenda. No fim, saberemos qual era a melhor. Só no fim.
Da China sabe-se pouco mais do que as autoridades permitem que se saiba. O que é líquido é que, sem estados de alma, as autoridades impuseram o confinamento a milhões de cidadãos e com isso sustaram a expansão da epidemia, que parece estar em recessão. Com que custo humano foi isso feito, e qual a verdade por trás da propaganda, saberemos um dia. Mas, aparentemente, resultou.
Resultou mas a Europa, ou os EUA, não são a China; e a ideia de isolar cidades por tempo indeterminado, adoptar uma economia de guerra e leis marciais, para lidar com o problema, nunca poderia contar com obediência dos súbditos que os ocidentais não são, e os chineses sim. Excepto se a situação se degradar: a tolerância em relação a compressões de liberdades básicas, como a de circulação, é directamente proporcional ao medo.
Boris Johnson é, como os outros decisores nos outros países, aconselhado por cientistas. Infelizmente, a pandemia não pode ser compreendida, nem analisada, por apenas uma especialidade; as três competências principais envolvidas (virologistas, epidemiologistas e matemáticos) não dizem exactamente a mesma coisa, nem sequer dentro de cada uma delas, nem fazem exactamente os mesmos prognósticos, nem recomendam exactamente as mesmas medidas. O Reino Unido, aparentemente, optou por tentar isolar os grupos de risco (velhos, essencialmente) e deixar que o resto da população se torne imune, por ter sido infectada e ter sobrevivido, criando assim muros à propagação mais eficientes do que o retardar de novos casos (para dar tempo à descoberta de medicamentos eficazes ou vacinas e permitir que os hospitais não sejam submergidos com doentes além da sua capacidade de tratamento). Parece que a rigidez deste modelo já está a ser abrandada por pressão da opinião pública, e a evoluir em direcção a abordagens mais convencionais. Na sua pureza, a economia ficaria muito menos penalizada, se funcionasse. E neste passo cabe dizer que, no estado de perturbação em que os poderes públicos se encontram entre nós, este aspecto está a ser subvalorizado. Já lá vamos.
O nosso Governo acordou tarde e mal para o problema, como era de esperar: a ideia que os socialistas locais têm do bem público é a de contentarem a maior parte possível do eleitorado, dependurando-o no Estado; administrar o conjunto com uma vasta floresta de dependentes do Poder, associando se possível pequenos próceres da oposição, para diminuir a conflitualidade; manter uma comunicação social obsequiosa e servil, a qual, aliás, aterrorizada com o espectro da falência, tende a querer mais e não menos socialismo; e contar com a esmola da União Europeia para assegurar um módico de investimento e sustentar cáfilas de consultores e parasitas sortidos.
Neste ambiente, o pessoal político é recrutado pelo seu grau de fidelidade ao chefe, que é o celebrado Costa, engenheiro destas andanças. E a flor no bolo é Marcelo, o implausível chefe de Estado, uma espécie de galo de Barcelos em massapão, ou de bandeira da República içada ao contrário, que descobriu a receita de meter o leitor ao bolso oferecendo-lhe abraços, beijos, selfies e polirina para o ego nacional.
Do que tem sido a resposta do Governo socialista Helena Matos, ou Alberto Gonçalves, entre muitos outros, têm feito a radiografia. Mas não vale a pena aborrecermo-nos, nem esperar que o bando de deploráveis que nos pastoreia encontre com o Covid19 o seu momento da verdade, por ficar exposto o desastre, presente e sobretudo pretérito, da governação socialista. Pelo contrário: é provável que a quarta falência seja apresentada como uma consequência colateral da pandemia, e o Destino arque com as culpas, que bem pode.
A quarta falência virá ou não, dependendo de a União poder e querer evitá-la. O que seria possível e desejável seria poupar a hecatombe das pequenas e médias empresas. Porque a maior parte de nós vai adquirir com o tempo imunidade ao Covid; mas preferiria ser imune à doença mas também ao desemprego.
Isto não está a ser assegurado, e percebe-se porquê, mesmo para além da característica inépcia da governação socialista. É que a esmagadora maioria do nosso pessoal político, seja da Oposição, seja das franjas, é constituída por funcionários públicos, advogados, economistas e aparelhistas.
Funcionários e pensionistas? O ordenado está garantido. E de solidariedade com desempregados nicles, conforme se viu nos tempos da troica: as manifestações foram sempre um berreiro indignado contra cortes. Os sindicalistas da CGTP gritavam contra o desemprego, mas ofereciam o que oferecem sempre: destruição da empresa privada e sociedades cubanas ou norte-coreanas.
Advogados? O advogado de grande sucesso é quase sempre traficante de influências, está longe dos problemas do cidadão comum; todos vivem de conflitos, e a maior parte mal porque o país é pobre e há demasiados (advogados, não conflitos); muitos intuem que as pequenas empresas é que garantem o emprego à maioria, mas não veem a ligação entre isso e o seu bem-estar, porque não são trabalhadores por conta de outrem.
Economistas? São uma classe deletéria para a saúde da economia: não há desastre económico, em lado nenhum, que não siga a orientação de algum professor de economia, e não tenha o apoio de uma extensa falange de académicos; apresentam-se como cientistas, mas dizem o contrário uns dos outros; ministram sábios conselhos sobre como se administram empresas, mas raramente as fundam; quando trabalham na pequena empresa, têm com frequência alma de guarda-livros e inveja do patrão; falam com suficiência sobre escolhas políticas, ilustrando as teses com abundância de gráficos e demonstrações, mas carecem com frequência de senso comum; e, os mais prestigiados, encontram abrigos em grandes empresas e bancos, onde a diluição das responsabilidades, a abundância de meios e a impossibilidade de falir obscurecem a sua fundamental inépcia. Não, não se pode contar senão com muito poucos economistas.
Aparelhistas, dos quais os mais acabados exemplos se encontram no PCP? Ora, é um milagre que alguns compreendam a utilidade da pequena e média empresa, e o seu papel insubstituível. A maior parte vive ensimesmada com a carreira, e os seus desaires e triunfos ꟷ as empresas são uma coisa longínqua e vagamente suja.
Esta mistura entre socialistas, ausência de um único líder com clarividência, opinião pública condicionada por décadas de estatismo, comunicação social acéfala e sistema de representação do empresariado que não representa coisa alguma cria o caldo para um desastre.
Ontem o líder da CIP veio dizer umas irrelevâncias untuosas sobre as medidinhas que o Governo já tomou, que consistem na tentativa de cura de um cancro com pensos band-aid. E até mesmo num blogue de esquerda se demole o novo regime do lay-off simplificado, uma ostensiva vigarice – faz que ajuda mas não ajuda.
Há dias, meio a brincar, redigi uma lei da Assembleia da República. A ideia não era tratar coisas complicadas como se fossem simples, era dizer que para grandes males são precisos grandes remédios.
Grandes remédios, aparentemente, não vai haver porque curandeiros não tratam doenças sérias. E, portanto, saúde haveremos de ter alguma. Emprego é que não. E riqueza ainda menos.
- Foram hoje anunciadas medidas de ajuda à economia, por conferência conjunta dos ministros das Finanças e da Economia. Uma moxinifada: segmentação por sectores da economia (como se houvesse compartimentos estanques), insuficiência (adiamento do pagamento de dois terços na TSU), complicações burocráticas, dependência de decisões de funcionários, perdões de juros (um incentivo a que quem pode pagar não pague), etc. Daquelas luras (um vigarista, se não criminoso, que ajudou a comprar votos de funcionários reduzindo-lhes os horários e acelerando as reversões ao mesmo tempo que estrangulava o SNS, e um carreirista que ainda sabe menos de empresas que eu dos carros de combate dos Hititas) não é provável que saiam bons coelhos. Voltarei a isto, quando o monstro propagandista e inepto se desentranhar numa floresta de instrumentos legislativos herméticos.

O que seria possível e desejável seria poupar a hecatombe das pequenas e médias empresas.
Não vejo como é que isso seria possível, e provavelmente o José Meireles Graça sabe-o tão pouco como eu.
Eu hoje almocei num pequeno restaurante, uma pequena empresa familiar. Almoçaram lá duas pessoas, eu e mais outro. O proprietário estava chateado porque contava que lé fossem mais duas ou três pessoas, tinha preparado comida para elas, mas elas roeram a corda.
Este é o panorama atual das pequenas empresas: uma queda brutal da procura. As pessoas já nem almoçar vão, como dantes sempre faziam em grande número. As pessoas atualmente dão todo o seu dinheiro ao Continente e ao Pingo Doce, em troca de papel higiénico e de leite, e não fica nada para as pequenas empresas. Nada.
E, José Meireles Graça, eu não acredito que qualquer governo pudesse dar a volta a isto. As pessoas gastam o seu dinheiro naquilo que querem, e aquilo que elas neste momento querem é papel higiénico e conservas. O consumidor é soberano.
Eu não sei tudo, mas posso sugerir. Algumas medidas importantes para minorar o problema das pequenas e médias em empresas, comerciais, de serviços e industriais.
Mantendo-as a funcionar em sistema laboral rotativo, de acordo com o número de funcionários, e o estado custear temporariamente, através de isenção de irs, tsu e iva, para que os serviços e vendas destes possam chegar aos consumidores através de distribuidores ou já existentes ou contratados. No passado também se distribuía pão, leite, manteiga e sardinhas porta-a-porta.
Adicionalmente o pagamento dos valores em dívida de impostos deviam ser postecipados para datas após levantamento desta situação de emergência, em tranches até 1 ano e 1/2.
Nos valores de crédito ao consumo até ao momento contraídos por uso de cartão de crédito, ou levantamento, deviam cessar as taxas de juro bem como a taxa cobrada, e cobrar somente o dízimo do valor total retomando o ciclo6 meses após o levantamento da situação de emergência.
Outra questão que gostaria de apontar, caso se decrete o estado de emergência, é o facto de os reformados, pensionistas e outros mais que recebem os seus valores através de cheque dos CTT não os poderem levantar por encerramento dos postos.
Execelente, JMG. Nunca esquecendo que tudo isto que descreve é impecavelmente lídimo, seguramente contitucional.
Não há ponta de inconstitucionalidade neste desastre há muito anunciado.
Meio século de progressos vários.
Parabéns Srs. constitucionalistas, autores e aprovadores, nos quais se inclui muito boa gente, como se sabe.
“esperar que o bando de deploráveis que nos pastoreia ” Mas não foram eleitos? Deviam ter sido outros?
O eleitorado elegeu deploráveis. São portanto deploráveis com legitimidade.
O eleitorado, só por o ser, não se revela de bondosíssima infalibilidade. Ao longo desta república, tem demonstrado exuberantemente que é em generosa maioria (uso um eufemismo) deplorável. Ou dado a ceder a deploráveis promessas e dependências. É gigantesco entre nós o partido do estado. E assim ternamente mantido. É triste, mas é assim.
Há um desnorte enorme, salvamo-nos nós os dois que temos a solução.
Eu, pela minha parte não digo a ninguém. Talvez seja bom partilhar a sua.
Não sabia que ‘O Insurgente’ é um blogue de esquerda!?
Tem razão, confundi com o Aventar. As minhas desculpas.
O Aventar também não é um blogue de esquerda. Boa parte dos seus blogueiros são-no, mas alguns são de direita.
Realmente, o que as empresas mais precisam agora é crédito.
Lembra os bons tempos da usura.
Relembrar que a restauração (que vai levar coice valente, sem dúvida) foi dos primeiros premiados del gran juego de la geringoncia, com a descida do seu IVA.
E que os FP continuam a bulir menos 5 horas por semana que o privilegiado do privado.
Entretanto, carrega na conta da luz (mais 23% de iva, incha!!), nas despesas bancárias, e em tudo o mais em que o zé paga.
Em modo off, um cumprimento aos camelos que foram passear para o estrangeiro, em férias, nos últimos dias. Querem ajuda para voltar? Ah pois…
E para quem quizer saber sobre uma curiosa história perto de nós, que tem a ver com um já famoso V-Chines (enquanto esta ligação não estiver numa gaveta do algoritmo g***le, aqui vai a ligação hipertexto. e-images/Secret-History-of-Coronavirus.j pg?itok=oJIQL3Ub
https://www.zerohedge.com/s3/files/inlin
“…é provável que a quarta falência seja apresentada como uma consequência colateral da pandemia…”.
Afinal quem dá 2 bem pode dar 3. E quem dá 3 bem que pode dar a quarta.
o justo seria o Estado assumir o pagamento dos salários de todos os trabalhadores , estipulando um máximo , até pode ser um salário mínimo. isto de ser guerra e as balas só atingirem alguns não pode ser.
O senhor insere-se no grupo dos achólogos, tudólogos ou gosta de escrever coisas?
Uma quarentena de escrita era capaz de lhe fazer bem. A si e aos que vêm aqui ao blog.
comece por si, makievel. não só na vinda para a leitura do blog como para escrever no blog. Depois venha dizer-nos o que resultou de sua reflexão durante a quarentena.
Os meus comentários são insignificantes. Basta fazer uma contagem de palavras, já para não falar que não têm destaque no Sapo.
Não sou eu que venho zurzir nos achólogos, tudólogos e demais polianalfabetos para depois me assumir como o rei deles.
O autor deste postal, como tudólogo que se revelou, entrou em modo auto-flagelação.
(É ‘Makiavel’ que se escreve)
makiavel, você esta desesperado com a quarentena. Fique aqui porque você parece ser boa companhia, isto é, não está infectado. Se estiver, não comente com algumas pessoas que por aqui postam. 😉
Mas deixe-me dizer-lhe: as últimas notícias revelam que o governo, ao inverter as medidas, começa a trabalhar muito bem. Estou certo que o JMG acompanhará a situação e opinará.
Finalmente alguém a dizer alguma coisa com bom senso
o bando dos virulentos escolheu um vírus que não escolhe quem matar, para destilar ódio a facções, ao PR e ao PM…
Que TRISTEZA TAMANHA! mas é o nosso fado…
Qualquer ataque à comunidade só se combate com Responsabilidade, Sabedoria,UNIÃO…AMOR e Sacrificio. Os passadistas dos passos andam sempre à procura do diabo…
Lavem os vossos focinhos virtuais com agua de rosas para não propagaram mais a VOSSA…virulência!
James