A República celebrou 100 anos. Os poderes instituídos festejaram a data da forma habitual. Os discursos da praxe, umas quantas páginas nos jornais, documentários, filmes e debates nas rádios e televisões, mais algumas cerimónias de norte a sul.
Em Macau, um tolo qualquer entrou pelo Consulado adentro, pela calada da noite, como parece ser timbre de alguns pretensos monárquicos, e içou um pedaço de pano que tinha sido arreado há cem anos. Certamente que ficou satisfeito, como outros também ficaram quando há uns meses tiveram idêntica iniciativa entre nós. Espero, pelo menos, que aquele que teve esse gesto em Macau não tenha sido um curioso adepto da causa monárquica que aqui há uns anos era mais conhecido pelas bebedeiras que apanhava e pelas surras que dava na mulher do que pelas ideias que amiúde defendia.
Uma bandeira é um pedaço de pano. E sendo um símbolo nunca será mais do que isso.
Hoje, a República retomou o seu caminho e a mim não me interessa discutir se a monarquia é melhor ou pior do que a república. Essa é uma questão menor.
Para alguns pode parecer tonto que se celebre uma data, mas a mim também parece perfeitamente imbecil que se declare acefalamente fidelidade a um tipo qualquer de bigodes sem que ele revele um mínimo de categoria, trabalho ou serviço prestado à nação, nem que fosse em qualquer ramo do conhecimento ou do saber, que justifique merecer tamanha jura.
Uma data também não passa de um ponto no calendário. De um rabisco na nossa memória.
Há quem aponte as debilidades e fraquezas da República para obviar às comemorações e se aproveite disso para questionar o seu significado e legítimo poder político do Estado republicano. Daí não virá mal ao mundo, em especial se isso for feito com alguma sensatez e argumentação inteligível e racional. O tempo dos dogmas já lá vai. Mas à semelhança do que acontece com cada um de nós, que algumas vezes encontramos razões para festejar aniversários natalícios e de outras vezes não, o mesmo sucede com as comunidades e com as nações com as datas que para si têm algum significado histórico.
A maior ou menor pompa das comemorações pode dizer-nos alguma coisa sobre o estado do país, ou do caos, ou sobre as preocupações do regime, sem nunca dizer tudo. Muitas vezes não nos apetece celebrar as datas que nos dizem alguma coisa. Ou que podem dizer alguma coisa. Haverá sempre alguém que apesar disso queira celebrar a data por nós e faça questão de dizer-no-lo.
O que se passa connosco passa-se também com qualquer agremiação. Será que um clube desportivo por ocasião do seu centenário deixa de celebrar a data se nesse ano e nos imediatamente anteriores não tiver obtido bons resultados desportivos?
A celebração de uma data, ainda que em momentos de acentuada crise, pode funcionar como um catalisador, como um exercício retrospectivo que nos obrigue a olhar para o passado e a projectar o futuro. Olhar o passado vendo nele o futuro. O sonho do Quinto Império, de Vieira ou de Pessoa, também passou por aí.
A nação constrói-se com tudo isso. E com doses equilibradas de realismo, de optimismo e de dúvidas para as quais somos obrigados a encontrar respostas se um dia quisermos aspirar a ser futuro. A ser um pouco mais do que a simples matéria de que são feitos os sonhos. Dos pobres e dos ricos, que nisso somos todos iguais.
O 5 de Outubro de 2010 foi na sua essência igual ao 5 de Outubro de 2009. Ou ao de 1910. Uma data no calendário.
As datas nos calendários só são importantes se adquirirem significado, se forem capazes de se emancipar e de serem merecedoras de um estatuto. Não é um rei que lhes dá estatuto. Não é um presidente da República que lhes atribui dimensão.
Talvez por isso é que algumas afirmações sejam capazes de sublinhar aquilo que merece ser sublinhado sem grandes floreados, de um modo singelo, objectivo, compreensível para todos.
Discutir em 5 de Outubro a justeza do ideal monárquico ou as razões de ser republicano não tem muito a ver com a vida de todos os dias, com aquilo que são os interesses da Nação.
Quando se diz num dia 5 de Outubro que “os portugueses estão fartos de fazer sacrifícios sem ver resultados“, está-se a dizer muito mais do que aquilo que a celebração de uma data poderá alguma vez significar. Não é preciso ser monárquico nem republicano para compreender o significado desta frase.
A legitimidade do regime não é algo que se estabilize no tempo e aí permaneça per sæcula sæculorum. É preciso cortar a direito. É preciso fazer rolar cabeças. Muitas. À direita e à esquerda. Monárquicas e republicanas.

per saecula saeculorum
Tive dúvidas. Ainda bem que reparou. Obrigado.
A Pau sempre a pau. Eheh…
Já agora, creio que ainda faço melhor: per sæcula sæculorum. Corrija-me quem souber, que não tenho a certeza.
Certíssimo. Só que o meu teclado não dá para isso. Eheheh…
Nem o meu dá. Tive de ir a outro lado e fazer um ‘copy-paste’. Eheh…
«Os portugueses estão fartos de fazer sacrifícios sem ver resultados.» Esta frase simples e directa (forma cada vez mais em desuso na política) de António José Seguro talvez tenha sido a que mais objectivamente pôde calar fundo em quem ontem esteve atento ao muito que se disse.
Ainda há dois dias escrevi aqui, após a vitória de Tomás Gómez em Madrid, que o pós-socratismo estava prestes a começar, tal como no PSOE já começou o pós-zapaterismo. Esta intervenção de AJS já diz tudo quanto a isso.
Também acho. Escrevi aqui sobre o futuro de AJS no PS há uns meses.