Quem quer ser Fábio Paim?
Quando se fala em jovens talentos formados na Academia do Sporting, lembramo-nos imediatamente de jogadores como Cristiano Ronaldo, Nani, Quaresma, João Moutinho ou Miguel Veloso. Já ninguém se lembra de Fábio Paim, que chegou a ser descrito pelo principal prospector sportinguista, Aurélio Pereira, como um jogador que tinha tudo para ser bastante melhor que Ronaldo. Que é feito então de Fábio Paim? Actualmente joga no Torreense, ganha 1000 euros por mês e tem casa e carro providenciados pelo clube. Crescido num bairro problemático, o jovem cedo teve o mundo aos seus pés. Ainda nos escalões de formação leoninos, recebeu telefonemas de Mourinho aliciando-o a rumar ao Chelsea, enquanto a Federação Francesa de Futebol o convidava a trocar de nacionalidade, oferecendo tudo o que fosse necessário. No entanto, apesar do indiscutível talento, Fábio Paim nunca lidou bem com as regras da Academia de Alcochete. Aos maus resultados escolares somaram-se as dificuldades em cumprir horários e obrigações. Os problemas tornaram-se incontornáveis quando passou ao escalão profissional. O tempo dos contratos milionários já lá vai. O jovem jogador nunca conseguiu afirmar-se e é hoje um tema tabu em Alvalade. Faltou em trabalho e disciplina o que sobrou em despesas. Fábio Paim é o primeiro a admitir que estourou todo o dinheiro que ganhou em carros, viagens, mulheres e luxos. Fábio Paim é o outro lado da moeda das grandes promessas do futebol. Alguém que tinha tudo para triunfar e ser hoje um dos melhores do mundo, mas que viu o futuro ruir como um castelo de cartas. É o exemplo de que o talento sem responsabilidade não leva a lado algum. O percurso de Fábio Paim é no fundo uma lição de tudo o que não se deve fazer na vida. Amparado por Paulo Torres, antigo jogador do Sporting e actual treinador do Torreense, Fábio Paim parece determinado em relançar a sua carreira. Será que, depois deste percurso, o jogador conseguirá ainda encontrar a redenção?
PS: Confesso que fiquei surpreendido com o convite do Pedro Correia para escrever um texto no Delito de Opinião, um blogue que sigo com regularidade há muito tempo. Não esperava, mas agradeço a oportunidade, esperando estar à altura do desafio.


É de mim, ou este percurso tem semelhanças assustadoras com o do Ministro das Finanças? Grandes receitas, descontrolo da despesa… Reparem bem: “viu o futuro ruir como um castelo de cartas”. Não vos faz lembrar nenhum acontecimento dos últimos dias? É arrepiante, não é? E Também FTS, há dias, nos prometeu reabilitar-se. Mas, nestas coisas, o grande problema são as más companhias. E FTS ainda não cortou com José Sócrates. Acho que o Paim tem muito mais hipóteses de redenção!
Gostei, Miguel.
E penso que está à altura :)) O Pedro confirmará…ou não
Eu confirmo que achei óptimo. Excelente reflexão sobre um caso do futebol mas que pode também constituir um exemplo para outras situações da nossa vida em geral. Um abraço, Miguel.
Pertinente reflexão, caro Miguel. Parabéns.
Excelente texto.
Há uns meses passou na TV um programa sobre a “geração de ouro” do futebol português, sobre os membros da equipa que ganhou o mundial de juniores, salvo erro na Arábia Saudita, sob o comando de Carlos Queiroz. O programa era brutal – mais de metade desses excelentes jogadores estava em muito má posição. Um estava a trabalhar nas obras, outro tinha emigrado para o Luxemburgo, o Peixe abandonou a carreira, etc etc etc. Praticamente, de toda a brilhante equipa, só um ou dois acabaram tendo verdadeiro sucesso.
O mundo do futebol e, em geral, o mundo do espetáculo, é um mundo de “the winner takes it all”, ou seja, é um mundo em que, aos muito poucos que ganham balúrdios, corresponde uma enorme multitude que mal ganha para comer. Basicamente, milhares de pequenos artistas trabalham na quase miséria, com o sonho de serem uma daquelas pouquíssimas individualidades que fazem uma enorme fortuna.
É o que eu digo sempre e V. nunca concorda: saber Português é essencial.
Veja só aquila parte em que V. diz «ou seja». Para que saiba, “the winner takes it all” não se traduz por «aos muito poucos que ganham balúrdios, corresponde uma enorme multitude que mal ganha para comer»…
Bem visto. Creio queninguém (ou nenhum jovem) quer. Mas há muitos “Pains” por este país fora.
Aproveito para agradecer, mais uma vez, o simpático convite do Pedro. Agradeço também os comentários a este postal. Espero ter estado à altura do desafio. É uma grande honra poder deixar a minha marca neste espaço que sigo há tanto tempo, e que ainda por cima é um dos grandes blogues portugueses. Realmente, é uma iniciativa louvável dar a voz a outros bloguistas. Essa era uma dinâmica característica da explosão inicial dos blogues (e uma das suas grandes mais-valias), mas perdeu-se um pouco com o tempo.
Mais um exemplo a provar que talento, sem juízo, vale muito pouco.
Hoje em dia já se fala pouco dele.
Tinha uma técnica fantástica, um pé esquerdo fabuloso.
Mas gostava de borga e de gajas – Danny.
Podia ter sido um génio, foi um flop.