Convidado: SAMUEL FILIPE


Pedro Correia,

 

Perder a memória

 

Acertámos o encontro para o final da tarde. Enquanto caminhámos nas ruas do centro da cidade José J. manteve-se no mais escrupuloso silêncio. Dirigimo-nos à zona ribeirinha, onde podíamos conversar tranquilamente passeando entre os contentores e o rio. Era o melhor amigo de José J. e ele queria deixar-me ao corrente dos planos que tinha para os anos vindouros, os últimos anos de vida, aqueles em que já não era indispensável trabalhar. O projecto de fundo pareceu-me desde logo assombroso. Tencionava perder a memória.

 

De imediato, e perante a minha incredulidade, acrescentou que estava na plena posse das suas faculdades e como eu próprio podia atestar não tinha razões nenhumas para sofrer depressões ou inquietações. Não pretendia esquecer determinadas épocas do passado nem necessitava anular certos episódios menos felizes. Procurava apagar directamente a memória, qualquer que ela fosse. A de ontem, do mês passado, de há vinte anos. Baralhar o continuum temporal. Obscurecer progressivamente as recordações, misturando-as e adensando-as para na fase seguinte decompô-las em substratos. Condensar ínfimas partes, alcançando uma mistura pictórica, tal como pode ser apreciada nas pinturas de Gustav Klimt, embora alterando a percepção corpórea. Estariam delimitados o tronco e os membros, funcionais, perceptíveis através de linhas suaves, encimados por uma cabeça difusa, alargada e alongada, composta por um número ilimitado de partículas elementares. O método para alcançar o objectivo estava traçado. Dependia de um conjunto de exercícios mentais formulados por um investigador alemão em neuropsiquiatria a quem se ofereceu como sujeito experimental. Para que se produzissem alterações corticais os exercícios deviam ser rigorosamente adoptados e colocados em prática diariamente ao longo de dois anos. Pretendia-se reduzir ao mínimo quaisquer efeitos secundários e por isso estavam completamente fora de questão os electrochoques ou a ingestão de fármacos. Esse era um procedimento que recusava. Não queria perder a capacidade de se emocionar. Queria inclusivamente melhorá-la, provê-la de crescente espontaneidade. Queria chorar e rir. Acções apenas fruto do instante; tentava-se que a aprendizagem voltasse a estar reduzida ao mínimo, que um momento não envolvesse uma ligação com o anterior. Não queria perder a capacidade de entusiasmo, e se possível regressar a um estado anterior ao conhecimento, do tipo tábua rasa, uma certa pureza de espírito. E queria continuar a beber álcool (porque também facilitava estados amnésicos). Para atingir o enfraquecimento do córtex, naturalmente, algumas decisões definitivas marcariam o processo. Devia abandonar por completo a leitura. Um homem corrigido, sem passado, que apenas mantivesse as habilidades motoras intactas. Perguntei-me se um doente de Alzheimer conseguia andar de bicicleta.

 

O meu amigo mostrava-se bastante seguro do que explicava: a memória constituía a base da identidade mas ele tinha perdido o interesse em aferrar-se à sua. E não queria fingir que não se lembrava. Queria primeiro suspender e depois suprimir o armazenamento de experiência. Dizia-me que o exercício do poder, a traição ou a negação da realidade, quando sistemáticos, eram os melhores exemplos da falta de memória mas eram caminhos impraticáveis para quem, como ele, tentava resgatar, ao mesmo tempo, sentimentos genuínos. Viver somente o dia presente e experimentar fugazes dividendos narcisistas que, segundo ele, seriam intensos e impulsionadores de renovados desaparecimentos de largas porções de memória. As coisas comuns são debatidas e catalogadas até à exaustão – continuava o discurso – a raridade não atravessa a barreira ora do surpreendente ora do preocupante. Vemos a vontade de adivinhar o passo, o lamento da fala que não correspondeu ao prognóstico doutoral, a bruxa adivinha. O controlo, uma certa aflição por prever, instala-se com maior solidez à medida que os anos vão passando. O homem inseguro é o que repete várias vezes o mesmo gesto, não por alguma dedicação especial, mas porque é apaziguador. Despertei para a leviandade dos últimos anos e a melhor forma de seguir vários caminhos ao mesmo tempo e não escolher nenhum é perder para sempre a memória. Podia poupar-me a todo este longo processo – ao ver a minha cara de espanto o meu amigo tentava aligeirar o ambiente – se agora mesmo tropeçasse e batesse com a cabeça. Mas a zona do córtex afectada teria que ser forçosamente o hipocampo e isso é impossível de controlar num simples acidente.

 

Fiquei meio atordoado com a descrição de todos aqueles propósitos e, instintivamente, olhei à volta procurando pedras ou depressões no chão. O piso perfeitamente plano anulava todas as hipóteses de queda e foi o único momento desde o início do encontro em que respirei com alívio.

 

Samuel Filipe

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