Não há desculpa


Sérgio de Almeida Correia,

Não é por estarmos em tempo de eleições ou haver hoje um jogo de futebol igual a tantos outros que a odisseia do cidadão Jorge Nascimento pode passar despercebida e ser remetida para as páginas interiores de um jornal, mesmo que esse jornal se chame Público. E, ao contrário do que afirma o porta-voz da companhia aérea, não se tratou de um caso de simples falta de sensibilidade ou de incapacidade para resolver o problema. Situações como aquela que aconteceu com aquele cidadão são infelizmente recorrentes com a TAP. Recordo que ainda há relativamente pouco tempo tive conhecimento do que sucedeu com um cego que ficou durante horas num aeroporto da Alemanha e impedido de regressar num voo da TAP porque quem estava de serviço entendia não deixar embarcar o passageiro com o seu cão-guia. O caso só se resolveu depois de uns quantos telefonemas que obrigaram à intervenção de um gabinete ministerial e perante a vergonha nacional desse cidadão ter de regressar no voo de uma outra companhia. O que o Público relata é um reflexo da forma como a todos os níveis se continua a tratar cidadãos que tiveram um azar na vida. E o que acontece com estes acontece a outros níveis com os velhos e as crianças. Mas o que mais me entristece e revolta é saber que amanhã ou depois isto vai voltar a acontecer sem que entretanto haja um levantamento colectivo e um responsável dê um murro na mesa, assuma todas as responsabilidades por estes casos que a todos nos envergonham, pedindo desculpa ao cidadão e ao País, e meta esta cambada na ordem, accionando para futuro os competentes mecanismos disciplinares sempre que isto se repita contra as suas instruções e a política da companhia.

 

Não podemos continuar a contemporizar com a vergonha. A vergonha não pode continuar a ser disfarçada. Ela tem de ser enfrentada e combatida se quisermos, bem entendido, ter uma sociedade com padrões de decência aceitáveis.

5 comentários em “Não há desculpa”

  1. Excelente e, infelizmente, necessária chamada de atenção, caro Sérgio A. Correia. São situaçoes indecentes e vergonhosas.

    A referência a “um jogo de futebol igual a tantos outros” é que parece revelar alguma azia…

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