Admirável mundo nosso
Quem aterrasse no país vindo de um tempo-outro talvez se espantasse com o modo como falamos dos «mercados financeiros». Não me refiro, é claro, à forma como as palavras ocultam uma parte importante da realidade. Como no meio de tantas notícias nos esquecemos de questionar o que são os mercados financeiros, de que forma funcionam e quais os caminhos para que o político deixe de estar tão assustadoramente resgatado pela finança. O que talvez mais espantasse o nosso comparsa do futuro é a forma como antropomorfizamos os tais «mercados financeiros», acreditando que eles têm uma estimulante vida emocional. Ora «nervosos» como um condenado, ora «vigilantes» como um guarda prisional; ora «apreensivos» como um marido ciumento; ora exigindo «sinais» como um apaixonado inseguro. Ora ingratos como um pobrezinho, ora implacáveis como um tirano. É óbvio que esse processo é indissociável da ocultação referida. E é igualmente resultado do estado de debilidade reflexiva no qual o jornalismo está mergulhado. Mas a coisa transcende isso. «Transcende» talvez seja mesmo a palavra. Afinal, também Deus se humanizou para pisar a Terra.


Excelente texto, Miguel. E mais oportuno que nunca. Obrigado pela visita.
Eu é que agradeço o convite, Pedro.
Bem oportuna, esta reflexão. Os meus parabéns ao Miguel Cardina.
Excelente texto.
Humanizamos o que nos transcende talvez para que nos assuste um bocadinho menos, se ficar mais à nossa dimensão. Neste caso, humanizámos tanto que até pusemos a coisa a reproduzir-se: antes dizia-se “o” mercado (e já era suficientemente intimidatório!), mas agora são “os” mercados que nos aterrorizam. Porque dispõem das nossas vidas como deuses.
Brilhante. Agora vamos ver é como é que os mercados financeiros vão reagir a isto.
;o)