Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA


Pedro Correia,

 

Um ditador para mim, outro para ti… 

 

A NATO foi criada em 1949, como organização militar defensiva, visando proteger o mundo livre da delirante ameaça de Josef Stalin, que sonhava colorir o mundo a vermelho após derrotar Hitler. Ficou aliás bem patente a ameaça comunista que pairava sobre a liberdade dos europeus, na questão de Trieste, valendo então aos habitantes da cidade italiana a presença das tropas britânicas e norte-americanas. Mais tarde foram os berlinenses a beneficiar do efeito dissuasor da aliança, permanecendo em paz após a retirada forçada do exército vermelho para lá da cortina de ferro. Após a queda do império do mal, o desmantelamento do Pacto de Varsóvia e a derrota do sistema político que constituía a ameaça, também a NATO deveria ter sido extinta, mesmo que tivesse surgido uma organização de cariz diferente, sob o patrocínio da ONU – sem prejuízo de um eventual reforço das estruturas militares na União Europeia ou acordos de cooperação bi ou multilateral, visando objectivos concretos, como a primeira guerra do Golfo ou até mesmo na Bósnia.

Já sobre o Kosovo tenho uma posição diferente. Gostaria que alguém fosse um dia capaz de me explicar objectivamente a razão por que aquele pedaço de território deve ser independente, ao contrário por exemplo do País Basco ou do Tibete, ou das mais esquecidas regiões do Cáucaso. Mas a hipocrisia internacional não conhece limites. Se foi inquestionavelmente legítima a intervenção norte-americana no Afeganistão, atacada pela Al-Qaeda com a cobertura do regime talibã, é estranho que se invoquem razões humanitárias para invadir o Iraque ou a Líbia. Para não parecer muito mal, neste momento a comunidade internacional também parece finalmente acordar para a Costa do Marfim, onde um presidente derrotado nas urnas usurpou efectivamente o poder.

Se quisermos recuar um pouco no tempo, Uganda, Ruanda, Somália entre outros, não beneficiaram da determinação dos governos ocidentais em libertar os povos e estabelecer regimes democráticos. Tenho aliás sérias dúvidas que os revolucionários da Tunísia ou do Egipto, como os rebeldes da Líbia, queiram instituir uma verdadeira liberdade, implantando regimes democráticos. Até porque se pensarmos na trapalhada que foram as eleições no Afeganistão, dá que pensar se vale a pena impor democracia e liberdade a quem não partilha desses valores. Mas para alguns governos ocidentais, há que fazer ultimatos à Síria, procurando isolar o mais possível o Irão. Já o execrável regime da Arábia Saudita beneficia de toda a complacência e simpatia do Ocidente, trocando influência por petróleo. Rússia e China não estão obviamente alheias. Quando lhes convém, bloqueiam todas as decisões na ONU, segurando também elas ditadores muito pouco recomendáveis. A Birmânia será um dos exemplos mais flagrantes. Todos têm o seu ditador no quintal para brincar como marioneta enquanto já jeito, mas que deixam cair quando perde utilidade…

 

António de Almeida

 

 

10 comentários em “Convidado: ANTÓNIO DE ALMEIDA”

  1. O Kosovo pode ser ou não independente conforme os habitante queiram. Ou como justifica independência de qualquer território? Por exemplo se os habitantes do bairro de Campo de Ourique quiserem ser independentes têm todo o Direito.
    O voto a favor da ONU essa Organização Imoral Legitimadora de Ditaduras ainda é mais bizarra.

  2. Há já muito tempo que não o lia(mos).
    É bom constatar que não lhe perdeu o jeito. 😉
    O mundo evolui depressa mas as humanas intenções permanecem as mesmas, infelizmente.
    Um abraço.

  3. Também concordo que os motivos que levam a NATO a intervir em determinados países e não noutros deviam ser clarificados para que não ficassem dúvidas no ar, quase sempre pouco abonatórias para quem toma as decisões. As questões relacionadas com a segurança, mesmo que sejam válidas, não podem servir de desculpa para tantos dados ocultados.

  4. Se quisermos recuar um pouco no tempo, Uganda, Ruanda, Somália entre outros, não beneficiaram da determinação dos governos ocidentais em libertar os povos e estabelecer regimes democráticos”

    Na Somália houve intervençãom de forças da ONU, mas a violência dos grupos armados e das milícias e as imagens de soldados arrastados no pó era tanta que acabaram por retirar, por pressão da opinião pública.

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