Convidada: MARIA N.


Pedro Correia,

 

Diana

 

Entrou por fim no casarão onde uma estátua da deusa Diana se debruçava do terraço sobre a rua. Anos antes, quando Diana ameaçara suicidar-se, prenderam-na com cordas de ferro ao chão poupando a vida do formigueiro da rua e a solidão dos cães azul-marinho que a ladeavam. Remendos de cimento foram aplicados no pedestal para conter o esboroamento das argamassas antigas, sujando-lhe a fímbria do vestido, e a fenda que o trepava foi interrompida por um abraço de ferro que depressa enferrujou na cintura estrangulada. O parapeito branco ao qual a estátua estava encostada, de frente para os telhados da cidade e de costas para a casa, parecia ceder sob a vertigem que sentia ao espreitar a rua. Benvinda aproximou-se dele para estudar o perfil de Diana. Logo recuou no terraço com o coração aflito.

Havia muitas crianças e adolescentes na casa, para além do irmão mais velho já adulto, explicara Teresa à Benvinda quando trepavam a imensa escadaria. A família de Teresa, grande à moda antiga, ocupava o rés-do-chão e os três andares. No último situava-se a cozinha e a sala de jantar ligadas por um corredor premiado com a luz de uma clarabóia imponente. A sala comunicava com o terraço separado desta por uma fila de janelas que preenchia toda a parede.

Quando recomeçou a chover Benvinda abandonou o terraço e regressou à sala. Os contornos de Diana esbatiam-se sob a chuva diluindo o seu desenho de mármore nas vidraças. A irmã, imediatamente a seguir à Teresa, fazia os trabalhos da escola esfarelando a borracha contra os cadernos que enchia de formigas brancas. Os livros expandiam-se pela mesa, entre eles a enciclopédia onde iriam procurar Diana. Sem vontade, mas não querendo que se notasse, Benvinda concordou com a ideia de fazerem pequenas bonecas com vestidos cónicos de cartolina e cabeças de pingue-pongue onde colariam fios de seda branca ornamentados com uma lua crescente feita com meio botão de madrepérola.

Recortou o lado direito da base do cone da sua deusa para simular um pé boto. Igual ao dela. Incomodava-a o interesse das amigas na deusa Diana, tão concentradas no adorno das bonecas, pintando o contorno dos olhos, pestanas oblíquas e lábios vermelhos nas bolas de pingue-pongue. Arcos e flechas de papel colados nos cones.

Pressentia ali uma ameaça. Os ícones de pau-preto que vieram de África embrulhados com ela em papel de jornal, que ela usava para as encher de terror e inventar rituais que deveriam cumprir para se protegerem, estavam a perder o seu poder. Já não estavam interessadas neles nem na aparição que ela inventara sobre um penedo, exigindo-lhes que comessem o chão. Era óbvio que já tinham esquecido o sabor da relva que evitava apocalipses. Substituíam-no por uma caçadora e agora o seu pé boto iria comer-lhe a carne pela perna acima e depois o tronco e os braços. Iria triturar a ossatura de passarinho, consumindo até os dentes, tomando por fim o seu lugar.

Por um momento pareceu-lhe que se precipitava sobre um parapeito que cedia. Carecia de um abraço de ferro que lhe estrangulasse a cintura, um tremeluzir no cabelo, uma argamassa de ternura.

Maria N.

14 comentários em “Convidada: MARIA N.”

  1. Esta manhã quando vi o anúncio, rejubilei: ena, ena, ena! (3 enas!) Hoje, com o patrocínio do delito, vamos ter um extra. A (para nós, seus fiéis leitores) demasiado silenciosa Maria N. ia dar-nos um belo post a ler no DO.
    Eh voilà! Um suculentíssimo naco daquilo que bem poderia ser um extraordinário à suivre.
    Muito, muito bom, Maria. Muito, muito obrigada. A si e também ao DO.
    E oxalá tardem os dias em que almejemos um abraço de ferro que nos estrangule (ainda que) a cintura.

    1. Agradeço muito o convite, Pedro. É um prazer ver um texto meu no Delito ao lado de outros convidados que já conhecia, e que leio com muito gosto, e outros que não conhecia e passaram a fazer parte das minhas leituras.
      Abraços para todos 🙂

  2. Que saudades de famílias «à moda antiga», com livros espalhados pelas mesas… E meninas a fazer bonecos…
    Um texto bonito que me fez recordar velhos tempos.

  3. Adorei…Os teus textos são sempre muito agradáveis de ler.
    E o abraço de ferro(…) trouxe uma argamassa de ternura que … (?)
    Não podes deixar que Benvinda continue a pressentir uma ameaça.
    A qualidade, e beleza, da tua escrita poderá oferecer-lhe a segurança e os “adornos” necessários para que continue a (re)construir o seu mundo, a sua fantasia, os seus ídolos e ícones.

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