Comparado com estes, Pinheiro de Azevedo era um génio
Há um género de automobilistas que é assim: vai uma pessoa na estrada a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off You completamente na boa quando aparece um tipo noutro carro e, por aselhice, desrespeito, incúria ou simples killer instinct, provoca um acidente.
Os dois carros acabam por parar em modo enviesado e após aqueles intermináveis segundos em que se vê a vida andar para trás ou, pelo menos, a não andar para a frente, o condutor que ia numa boa a ouvir e a assobiar Can’t Take My Eyes Off leva demoradamente a mão à maçaneta da porta e lança, algo hesitante, uma perna para o exterior.
É então que à surpresa do choque se acrescenta a surpresa de ver o outro automobilista (repita-se: o que provocou o acidente) já cá fora, bem firme nos membros, vociferante e esbracejando como um pássaro à bolina: “Sua besta! Então não me viu? Aprendeu a conduzir em carrinhos de choque ou quê? Por pouco, ia-nos matando aos dois! Olha-me para isto! Olha-me para isto!” E etc.
Perante o segundo ataque, desta vez tão-só verbal, o condutor inocente tende a sentir-se baralhado. Será que a culpa fora dele? Será que se entusiasmara demasiado naquela parte do I love you, baby/ And if it’s quite alright/ I need you, baby e fizera asneira?
Há quem chame educadamente xico-espertice a esta estratégia de avançar de goela e peito abertos para a vítima invertendo os papéis: o facto é que resulta. Nos dias que correm, em que o pragmatismo é tudo e o que conta são os “resultados por objectivos”, creio tratar-se, aliás, de uma estratégia em ascensão.
O modelo é largamente utilizado pelos políticos, e não apenas portugueses (Sarkozy e Berlusconi também seriam bons exemplos). Por cá, Sócrates e seus acólitos têm contribuído com fibra para a sua implementação no continente (a Madeira daria pano para outro post).
Neste particular, o género terá sido iniciado por Jorge Coelho com a memorável frase “Quem se mete com o PS leva”, continuado por Augusto Santos Silva, o que gosta de malhar, pelo par de cornos de Pinho, sem esquecer, naturalmente, Ricardo Rodrigues que, ultrapassando a alta velocidade a fase verbal-metafórica, passou à “acção directa” e gamou dois gravadores. No meio desta lista (necessariamente incompleta), também é de registar o próprio primeiro-ministro, mão na anca, e o seu “Era o que mais faltava!”, a que teremos de somar o finíssimo “Manso é a tua tia, pá”.
Não me interpretem mal. Não me move qualquer puritanismo linguístico. O que me faz espécie é a boçalidade. Ou seja, a falta de ironia, de wit. Em resumo, a falta de ideias que não sejam apenas caceteiras.
Comparado com estes boys, o Almirante Pinheiro de Azevedo era um génio. Digno continuador de António Silva, a sua entrevista, enquanto primeiro-ministro do VI Governo Provisório, governo que entretanto entrara em greve, é inesquecível:
Pinheiro de Azevedo: Estou farto de brincadeiras, ok? De brincadeiras, hem!?
Jornalista: Está…?
Pinheiro de Azevedo: Estou. Fui sequestrado. Já duas vezes. Já chega. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia, pá.
Como assinala Eric Hobsbawm em livro recentemente traduzido pela Relógio D’Água, Escritos sobre a História (e que aproveito para recomendar), “após uma tendência secular decrescente ao longo de 150 anos, a barbárie tendeu a aumentar durante a maior parte do século XX, não havendo qualquer indício que nos sugira que o seu avanço tenha terminado”, o que é uma forma erudita de dizer aquilo que também foi notado pelo humorista Lewis Black (e que não me canso de citar): “In my lifetime, we’ve gone from Eisenhower to George W. Bush. We’ve gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we’ll be voting for plants”.
Não querendo, porém, parecer demasiado pessimista, concluo com o futuro sabe-se lá. Ou como terá dito Twain: “Prediction is very difficult, especially about the future.”
E muito obrigada pelo convite.
ADENDA: Os recentes desenvolvimentos do inesgotável, e parece que interminável, caso fripór, talvez pudessem servir para um post que, nos antípodas deste, se debruçasse sobre estratégias comunicacionais (aposto que adoras esta palavra, Pedro) não musculadas mas cândidas. E, a propósito de cândidas, alguém sabe da Cândida?



Clap, clap, clap.
Que bem faz, meditar em pastelarias!
Bem-vinda, Ana Cristina.
Então boa-tarde e obrigada! obrigada! obrigada! (como diria a Amália ou mesmo a rainha de Inglaterra …).
Honrada pelo convite, leio-me narcisicamente no Delito e permito-me dois reparos ao meu próprio texto.
1. Vê-se bem que não sou motorizada (ou seja, duvido que nos carros maçaneta seja a palavra exacta), e isto apesar de, sentada no lugar do morto, já ter levado com automobilistas dos de peito aberto
2. Gostaria de deixar um acrescento em forma de adenda (que já não terá chegado a tempo). Cá vai:
ADENDA: Os recentes desenvolvimentos do inesgotável, e parece que interminável, caso fripór, talvez pudessem servir para um post que, nos antípodas deste, se debruçasse sobre estratégias comunicacionais (aposto que adoras esta palavra, Pedro) não musculadas mas cândidas. E, a propósito de cândidas, alguém sabe da Cândida?
E pronto. Abraços e beijinhos e coragem para enfrentar o calor e o resto. May the force be with you .
Muito bom. Para sustentar uma mentira são necessárias outras 30, mas, o mentiroso se apanhar um incauto, facilmente o “come”, e mais, perdoa ao desprevenido/ingénuo o facto de este não o ter desculpado.
Excelente! E bem-vinda, Ana Cristina.
Ana Cristina, Senti a falta do «Habituem-se!», do A. Vitorino.
Talvez “puxador”, Ana Cristina. Mas “maçaneta” tem um certo encanto retro. E o texto está excelente. Tenho de dizer (ou melhor, não tenho mas vou fazê-lo) que tive até hoje dois acidentes envolvendo terceiros (tive mais um em que parti dois postes à EDP mas isso foi um simples exagero de juventude). Fui culpado de um, não tive culpa do outro. No primeiro saí do carro e perguntei: “Alguém se magoou?” (não, e foram todos – uma família de Vila Real a regressar das férias no Algarve – muito simpáticos); no segundo (que por acaso ocorreu primeiro) saí do carro mesmo muito irritado mas a senhora do outro veículo estava quase em estado de choque e acabei a dizer: “Pronto, deixe lá. Consegue assinar a declaração amigável?” Ainda estou para apanhar a minha primeira besta, o que, bem vistas as coisas, me torna um sortudo. Talvez quando houver um evento oficial aqui no Porto e o carro do Director-Geral da Segurança Interna passar um semáforo vermelho, por culpa exclusiva do motorista…
Excelente texto, Ana Cristina. Só confirmou as minhas expectativas. É um prazer ver-te por cá. Foi a primeira vez e – espero bem – não será a última.
“Aprendeu a conduzir em carrinhos de choque”. Ora aqui está um insulto que nunca me tinha ocorrido. E muito bom, por sinal!
Excelente texto, Ana. Como já disse o Pedro, espero vê-la por cá mais vezes.
Vê-se bem que ainda és um “jovem inconciente”, João. Quase todas as mulheres deste país (pelo menos até à minha geração) já ouviram esse piropo e outro igualmente queriducho: “Saíu-te a carta na farinha Amparo?”
Não tenho grande esperança de que saibas o que era a dita “frinha Amparo”…
A deixa da Farinha Amparo conheço, claro, apesar de não ser do tempo da dita farinha (só conheço mesmo a Maizena). Conheço apenas de nome – desvantagens da tal “juventude inconsciente”..! 🙂
Se há coisa de que gosto é da leveza no tratamento das coisas sérias em lugares como este (no sentido amplo). Parabéns, Ana Cristina, porque é um gosto ler isto assim.
Ana Vidal, esse clap, clap, clap soube-me que nem carapaus alimados, um abraço para si
jmvfaria, às vezes nem é preciso um incauto, basta um distraído – a coisa está difícil
Leonor, obrigada
Joana, falhou-me essa…
jaa, apesar do encanto retro faço saber que não sou do tempo do antónio silva…
Pedro, eu é que agradeço mais uma vez o convite
João Campos, obrigada
João Carvalho, tendo não contrariar a insustentável leveza do ser, mas que é às vezes é insustentável lá isso é
Outro para si. Com mais umas uns claps para acompanhar os carapaus, à falta do molho à espanhola e da batatinha cozida… (eu gosto mais dos cá de cima, grelhados)
A Ana Vidal roubou-me os claps … cheguei tarde :)) Vou ali à pastelaria mais próxima meditar num termo correlativo. Enquanto medito e não medito fica aqui o meu… olhe Ana Cristina… clap , clap , clap e se a Ana Vidal se chatear ela que me processe. Se não souber como, que pergunte ao nosso «primeiro» que ele tem prática no assunto.
Um pouco mais a sério… um post destes é um refrigério para o calor que tem feito. Cla. humm … lá ia eu plagiar outra vez !