O primeiro dever de um jornalista


Pedro Correia,

Andam agora por aí uns teóricos que nunca escreveram uma notícia na vida mas brandem a toda a hora o Estatuto do Jornalista e o código deontológico da profissão, de ares muito sapientes, com o objectivo de espadeirar contra os jornalistas. Sempre em defesa do poder em geral, do Governo em particular e do primeiro-ministro mais especificamente. Essa diligente rapaziada omite o essencial: o primeiro dever de um jornalista é informar. Sem o cumprimento deste dever todos os outros se tornam irrelevantes.

35 comentários em “O primeiro dever de um jornalista”

  1. A pseudo-superioridade moral que se auto-atribui ao falar da “rapaziada” nem merece comentário.
    Mas o estatuto dos jornalistas diz muito (apesar de já quase ninguém lhe ligar).
    Logo no ponto 1 “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exactidão e interpretá-los com honestidade. Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso. A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público”
    E muito mais “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais. “
    E tem ainda um grande final “O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses. “
    Isto já foi tantas vezes atropelado que, olhe, vamos vivendo… depois admiram-se que fechem jornais.

    1. Apenas na utilização do termo “rapaziada”… não se sente ai um género de desprezo por quem defende o Governo? Ou o termo foi utilizado de forma inocente?

  2. Pedro Sousa, se está a falar do Cerejo, devo dizer-lhe que, como leitor, só leio um relatório de factos. Não os vejo serem “interpretados”. Se são sensacionais, a “culpa” parece ser dos próprios factos. Ou acha que o Freeport foi um processo normal? Foi tudo inventado por jornalistas que não gostam de Sócrates a soldo de interesses obscuros do PSD ou de outro partido? Mas quais são os interesses de Cerejo, afinal? Quanto ao facto de os artigos não escutarem os visados, concedo. Mas a pergunta crucial que deve fazer-se é: por que razão o jornalismo de investigação incomoda SEMPRE tanto? É abusivo? Inventa coisas? Quer ser mais do que deve ser? E digo já que não sou jornalista, nem tenho particular adoração pela espécie – mas as perguntas mantêm-se.

      1. Na sua linha de pensamento, Ana: “Jornalismo de Investigação” é tudo o que não se debruça sobre os atrasos das camionetas no Mali (mesmo que alguém tenha tirado fotografias).

          1. Tem razão, Ana… Fiz ironia. Eu definiria “jornalismo de investigação” como todo o tipo de jornalismo que se ocupa de uma determinada matéria que, pelo seu carácter demorado no tempo, e com recurso a métodos explícitos de aquisição de informação, é publicada de forma organizada, de maneira a que reproduza fielmente, na mesma escala temporal em que foi investigada, os factos, os agentes e as circunstâncias que poderão explicar certos factos. Poderão, sublinho. O jornalismo não é uma ciência exacta.

    1. Caro Javali, José António Cerejo escreveu no jornal que a sua intervenção como assistente no processo teve como único objectivo obter informação.
      É preciso dizer mais sobre a forma como este jornalista encara a profissão? No fundo, tornou-se assistente não com o objectivo para que existe essa figura mas para obter informação. Fraude, portanto…

      1. Mas qual fraude? A figura existe – ele disse ao que vinha. Que outro tipo de honestidade quer? Acha que um bom jornalista tem que esperar pela verdade mastigada? Sinceramente acho uma jogada bastante inteligente: utilizar uma figura do Direito para obter informação em cru. A deontologia começa depois, não antes. É Cerejo capaz de divulgar essa informação em bruto de forma apropriada e isenta? O que me parece é que toda a gente está a criticar a forma como acedeu à informação e não como a está a transmitir – sobre a última das quais incide o código deontológico. Sem dúvida, já o disse antes, estará a falhar no aspecto de não confrontar os implicados na informação que divulga. Mas ainda vai a tempo.

  3. Muito gosta a rapaziada de papaguear o código deontológico dos jornalistas sem saber sequer como se escreve uma notícia. Foi isso que escrevi, é isso que repito.
    Percebo-os bem: dói-lhes que todos os dias continuem a sair notícias incómodas para o Governo. Por muitos jornais que fechem, o que parece constituir motivo de gozo para essa rapaziada, haverá sempre outros que persistirão em contar aquilo que o poder político não gostaria que se soubesse.
    Ainda bem que é assim. Se não fosse, isso significaria que não vivíamos num regime democrático e a liberdade era apenas uma flor de retórica.

    Em tempo: o Pedro Sousa, do blogue ‘Ponto por Ponto’, acusa-me aí mais acima de alardear “superioridade moral”. É curioso: não me recordo de o ter visto reagir desse modo quando aqui destaquei o blogue dele, no dia 2 de Março de 2009: delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/240875.html
    Aliás, não me lembro sequer que tenha dito fosse o que fosse.

    Os actos, as palavras, os silêncios e a deselegância ficam com quem os assume. É o caso.

    1. Começa agora o julgamento da pessoa, mais do que o que eu escrevi… pode ser.
      Agradeço-lhe a referência e, realmente, podia ter-lhe agradecido. Diga-me que retribuo com as 7 linkadelas que já fiz para aqui. Mas não estou num concurso.
      Aquilo que defini como espécie de superioridade moral é a utilização do termo “rapaziada”, claramente pejorativo, para com quem defende – na generalidade – o Governo.
      Parece que se considera quem ataque o Governo gente sã e quem o defende “rapaziada” como se não pudesses exercer a opinião de forma livre sem levar etiquetas.

        1. “podia”, “devia” aplica-se somente ao particípio passado. “Ele antes podia” ou “Ele antes devia”. No caso, deveria ser “poderia” ou “deveria”. Está na gramática. Um abraço.

      1. Para a próxima, em vez de rapaziada, escrevo ‘yes men’. Assim, à americana, acha mais giro?
        Registo o facto: 17 meses depois de eu ter feito uma referência ao seu blogue que não justificou uma palavra da sua parte, você desembarca aqui a acusar-me de ‘pseudo-superioridade moral’.
        Um primor de elegância que não deixo de registar.

      2. “Parece que se considera quem ataque o Governo (…)”

        É por causa de frases destas que se utiliza o termo “rapaziada”, Pedro Sousa. Por que razão uma investigação (neste caso sobre o Freeport – e que nem terá começado em Portugal, tanto quanto sei), e no âmbito normal do jornalismo, é considerada como um “ataque” ao Governo? É que quando diz “ataque” está mais a definir como entende a coisa do que a coisa em si vale – o que gera ainda mais suspeição sobre a coisa.

  4. Na minha modesta opinião reina uma grande confusão nesta matéria. O jornalista Cerejo foi aceite como assistente no processo. Fê-lo dentro da maior legalidade. Tem escrito agora sobre o assunto, que já não está no segredo de justiça. Não violou a lei em momento algum.
    Pergunta-se: apesar disso, será o que fez deontologicamente defensável? Como nem todos os valores se equivalem, por ex., matar a mãe não vale o mesmo que matar uma galinha, o jornalista aproveitou a possibilidade, julgo que entendendo que o dever de informar se sobreporia a qualquer dúvida sobre o seu estatuto como assistente (que o coloca, claro, numa situação de vantagem em relação aos outros jornalistas).
    As questões formais são importantes. Formalmente parece que não há nada a apontar. As questões éticas também. Mas há questões e questões. Por exemplo, num filme que não me canso de aconselhar, Justiça para Todos, Al Pacino, advogado de defesa de um juiz corrupto, acaba por denunciá-lo em tribunal, desrespeitando todas as regras do Direito. Naturalmente, podemos concluir que o julgamento é anulado e Al Pacino corrido da profissão. Mas às vezes há valores mais altos que se levantam.
    Quanto ao jornalismo de investigação, foi chão que deu uvas. É demasiado lento e demasiado caro. Ponto. Hoje em dia há tráfico de dicas e contradicas e já é um pau.

  5. Se “o primeiro dever de um jornalista é informar.”, que deve ele fazer relativamente aos direitos inscritos da constituição da Republica Portuguesa? Devem os deveres de uma pessoa sobrepor-se aos direitos de outra?

    1. Não percebo a sua dúvida. Quando há colisão de direitos, numa sociedade democrática e civilizada, recorre-se aos tribunais. Ou seja: quem tiver motivo justificado de queixa contra um jornalista, acciona um processo crime ou cível contra ele.
      Será que confia tão pouco na justiça ao ponto de considerar não ser esta uma boa solução?

      1. Gostei do engodo “confia tão pouco na justiça”, mas o essencial é que os tribunais só devem ser recurso de quem já não consegue ver os seus direitos garantidos por outra via legal.

        (Resista à tentação de responder a este engodo que lhe deito)
        Não está a sugerir que haja um juiz em cada cruzamento de transito.

        1. Seria mais fácil se falasse de uma situação concreta. Assim, tão em abstracto, não percebo onde quer chegar. Ao ‘exame prévio’? À lei da rolha de Berlusconi? À equiparação dos jornalistas a funcionários públicos?

  6. Querem matar o mensageiro, purgá-lo dado o incómodo que lhes causa. Mas essa é uma batalha perdida, Pedro. Temos de recordar-lhes, a essa “rapaziada” bem untada para blaterar argumentário de latão e para dar pauladas nos mensageiros, que ESSA É UMA BATALHA PERDIDA.

    Provavelmente devem andar muito desorientados com a torrente de factos que desmontam os entraves sistémicos ao bom andamento do Free Porc.

    Abraço e parabéns pelo post.

      1. Pode ser uma batalha perdida, mas ainda levam vantagem na guerra. Afinal, não continua José Sócrates no poder? E até o PGR e a Cândida Almeida, não continuam eles a minar, diaria e competentemente, a justiça? Não o escrevo com alegria, mas se o crime não compensa, parece. E só nos resta fazer o que Ana Gomes escrevia há uns dias no seu blogue: não desistir de Portugal. Mas não é fácil.

          1. Quando o comentário lhe cai nas raças, já não há avisos deselegantes em relação a maiúsculas?

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *