Como dar xeque-mate ao lugar-comum


Pedro Correia,

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O lugar-comum é um dos maiores inimigos do jornalismo. Infelizmente, as campanhas eleitorais costumam ser férteis nisto: por estes dias, multiplicam-se os chavões semânticos, com valor jornalístico nulo. E que apenas revelam preguiça mental e um olhar desatento à realidade.

Uma dessas bengalas verbais de que se usa e abusa é “campanha morna”. Eufemismo para evitar dizer-se que quase ninguém acorreu ao encontro do candidato. Ou candidata, como a líder do PAN, que optou por visitar esquilos e cegonhas no Parque Biológico de Gaia. Mesmo sabendo que ali não recolhia votos.

As eleições são autárquicas, mas a cobertura televisiva é feita por jornalistas que andam atrás dos líderes nacionais dos partidos. Que aqui parecem protagonistas do filme errado.

 

A verdade é que muitas acções de campanha não teriam ninguém nas ruas sem a presença tentacular dos repórteres de imagem. De eleição para eleição, os planos vão ficando cada vez mais apertados, evidenciando que arruadas ou comícios pertencem ao passado. Em tempos, um ilustre pensador confessou ter o sonho de ver Portugal transformado na Suíça, onde o desinteresse pela política chega ao ponto de poucos ali saberem quem exerce a função presidencial – sinal inequívoco de que as coisas funcionam, sejam quem forem os protagonistas. Aos poucos, vamo-nos aproximando do cenário suíço. Infelizmente, apenas nisto.

Nenhum repórter que cubra uma campanha eleitoral precisa de dizer que anda morna. Basta exibir as imagens. Foi o que fez a RTP, limitando-se a alargar o plano numa acção promovida pelo PSD no Alto Minho: Rui Rio prometia comparecer mas nem isso parece ter atraído os militantes. Era possível contá-los pelos dedos.

Jornalismo? Claro. Com poucas ou nenhumas palavras. Em televisão, sobretudo, menos é mais.

 

Por vezes não basta mostrar: é preciso interpretar. A SIC soube fazê-lo seguindo António Costa em campanha eleitoral. O secretário-geral socialista deslocou-se a Celorico de Basto, terra adoptiva de Marcelo Rebelo de Sousa. «Temos, mesmo aqui, de entrar num novo ciclo de mudança», disse Costa. Parecia uma declaração banal, mas fazia toda a diferença por estar em território marcelista, onde o PS nunca ganhou. E de não haver memória de por ali ter passado um secretário-geral do partido da rosa.

Despique Belém-São Bento transferido para terras de Basto: eis um confronto nada morno em perspectiva.

 

A história interessante está sempre lá: basta ter olho para vislumbrá-la e arte para narrá-la. Além da indispensável vontade de pôr em prática tais virtudes. Por vezes detecto-a mais nos repórteres veteranos do que em alguns recém-chegados à profissão, que já exibem um ar muito enfastiado.

Um dos veteranos que fazem a diferença para melhor é José Manuel Mestre, da SIC. Acompanhando a caravana socialista, teve este apontamento de reportagem: «António Costa é uma espécie de primo rico que vem de Lisboa com os bolsos cheios.»

Tudo dito numa frase. Sem rodriguinhos nem eufemismos. Dando xeque-mate ao lugar-comum.

 

Texto publicado no semanário Novo

32 comentários em “Como dar xeque-mate ao lugar-comum”

  1. Concelho e conselhos de Marcelo
    Autárquicas: votar amanhã “é um redobrado dever de consciência”, diz Marcelo.
    Com esta lei eleitoral é um redobrado dever de vos mandar aquela parte, digo eu.

      1. Apenas um exemplo respeitante as autárquicas, os partidos enviam cabeças de cartaz para localidades em que os paraquedistas escolhidos não tem qualquer ligação de raiz familiar, onde não trabalham, e não se regista qualquer outra ligação que o justifique. Saltam de galho em galho como de Sintra para Cascais ou de Faro para para Braga.
        No que respeita às legislativas só uma entre outras referências possíveis, antes de o primeiro voto ser depositado nas urnas, já os caciques partidários escolheram antecipadamente os nossos supostos representantes pela colocação em lugares elegíveis nas listas onde os fidelíssimos tem eleição garantida.

  2. Todos somadinhos, líders e militantes dos partidos, não devem chegar a um total de 100 mil cidadãos eleitores. A minoria de uma minoria.
    Tentam aparecer, no entanto, como o grupo social indispensável, o mais importante, em eleições autárquicas. Em eleições Legislativas, graças a uma deturpadora, doentia exclusividade, conseguem-no.
    Em eleições autárquicas o fenómeno político “os Partidos” como os donos disto tudo, desaparece por muito que a desprestigiada, penhorada, comunicação social tente ajudar. Este Rei vai mesmo nú.

  3. Nenhum repórter que cubra uma campanha eleitoral precisa de dizer que anda morna. Basta exibir as imagens. Foi o que fez a RTP, limitando-se a alargar o plano numa acção promovida pelo PSD no Alto Minho

    Mas é bem claro que se fosse um partido de esquerda ou os seus patrões do PS, não teriam passado as cadeiras vazias.

    Quanto aos lugares-comuns… A meu ver o quotidiano não tem espessura suficiente para que se diga outra coisa dele a não ser banalidades.

      1. Na minha cabeça é um partido situacionista e falsamente liberal; na cabeça dos meninos da Lusa, que passam ao povo as instruções do Saruman-Louçã, é um partido neo-liberal e de direita.

      2. Direita, direita fofinha, direita neoliberal, direita responsável, direitas há muitas. O psd do Rio encaixará num desses rótulos

          1. O psd não é de direita, o Bloco é social-democrata… como cantavam os Mamonas, é uma suruba que ninguém se entende.

  4. ‘bora dizer que houve uma grande roubalheira de votos.
    ‘bora assaltar a CNE para os votos serem contados tantas vezes que for preciso.

      1. ’tá ver, esta interessou-lhe para responder com ar sério a uma paródia.
        As outras aplica a azulada e a lei da rolha.

  5. Manuel Antunes
    99,9% dos votantes não conhece nem sabe em quem vota.
    Campanhas repetitivas, chatas, sem imaginação, sem interesse a roçar o patético de uma maneira geral e a falar única e exclusivamente de partidos,partidos e mais partidos.
    E os votantes votam nos partidos.
    As eleições são autarquicas, caramba.
    manuel antunes

  6. Misto de torna viagem “brasileiro”, que conseguindo baronia ou comenda, deitanndo benemerências impactante, passa a arranchar serventuários eleitores, com cacique de musa variável
    Mais aprumado, vivido e matuto, que o, Sr Joãozinho das Perdizes Morgado de Pinchões, mas abastado em centos de contos fracos, vastos territórios rústicos, não empenhados ou em demandas – que englobam paróquias beneficiadas.

  7. acabei de chegar do blog em destaque ao lado deste, e onde disse acreditar que aqui ia aprender (mais) sobre lugares comuns.
    como já sao 20h e começam as projeçoes, estou bloqueado para esse aspeto (lugares-comuns), mas tambem nao é nada que tenha de ser jjá.

    Nestes dias, é só o terceiro blog que vejo destacado pelo sapo, sobre estas eleiçoes.
    E tenho dito que o futuro será sempre futuro, quaisquer que sejam os eleitos.

    Portanto, quando aqui vejo o Pedro escrever que na suiça a populaçao é indiferente, mas o país funciona, é isso mesmo, ainda melhor dito.

    Verdade verdadinha, realmente nao escolhemos nada, sim pessoas. E, como escrevi no primeiro blog, merecemos a romaria eleitoral.

      1. e isso…tranquilos.
        Lá, mas tambem cá.

        E amanha será á mesma segunda feira.

        E aqui a 4 anos volta a mesma romaria .

          1. como assim ?

            Mau, o Pedro está a contradizer o que escreveu no post.

            Neste momento, no que sao os grandes jogos (clubes) , continua a falar-se (tambem estou a ouvir) em empates.

            Repito, o Pedro está contradizer-se. Lisboa , assim ou assado, com um ou com outro, continuara a ser lisboa. O Porto nao vai construir nem outra torre dos clerigos, nem a pontes vai passar para debaixo do rio.

          2. O que eu escrevi foi isto:
            «A história interessante está sempre lá: basta ter olho para vislumbrá-la e arte para narrá-la.»
            E reafirmo. É uma noite longa e cheia de histórias.

          3. O Pedro está , outra vez, a materializar o que sao alucinaçoes.
            Tou a brincar. È lógico que o Pedro tem uma visao digamos jornalista, portanto outra forma de estar e ver o que os mais nao topam.
            Eu meramente cidadao eleitor, e passada mais uma horita, nao vejo noite longa com os prognosticos , os enredos, que o Pedro imagina ou quer á força que se realizem.

  8. e já que estamos a falar de autarquias, trago para aqui este exemplo recentissimo :

    Senhor Presidente

    O fontenario de rua… continua seco.

    Se sabe que vai ser removido ( o fontenario), nada me disse.

    Se sabe que nao vai ser removido, entao tem de agir já, pois como expliquei no mail anterior, a agua terá sido propositadamente desviada, talvez para o saneamento, , na intervençao publica na rua … , por certo desconhecendo que aquela agua seguia para um fontenario. .

    Se nao reclamar já, seguir-se-ao anos de seca, entre reunioes, pareceres, vistos, cabimentos e tudo isso que sabe melhor que o cidadao comum.
    ====================================
    e a explicaçao : mail dia 20, e no dia 22 setembro 2021 o presidente mandou afixar na fonte informaçao de que a fonte está em obras.
    E seca, continua no dia de hoje 26 setembro.
    Bem a proposito uma noticia com anos, talvez o Pedro lembre. Ali para Alcoentre, seria uma buraco na estrada, e a camara da zona colocou lá um cartaz a responsabilizar a JAE pela reparaçao da estrada. A JAE enviou lá uma equipa nao para tapar o buraco, mas para remover a placar informativa da camara. .

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