Com a ortografia eu não brinco.


Luís Menezes Leitão,

Parece que hoje é o dia em que tencionam tornar obrigatória a utilização do inenarrável “acordês”, que um grupo de ignorantes, que se julgam iluminados, quis impor à força aos portugueses. Pela minha parte tenciono exercer o meu direito de resistência e continuarei a escrever até à morte no português que os meus saudosos professores me ensinaram desde criança. Porque o resultado desta imbecilidade está à vista neste anúncio. O grupo Optivisão agora acha-se “o maior grupo ótico português“. Talvez o referido “grupo ótico” devesse saber que, em português, “ótico“, como qualquer dicionário lhe pode informar, é respeitante ao ouvido. Se se quiser falar da visão, diz-se antes “óptico“. Ora, parece-me que qualquer empresa deveria saber, antes de tudo, a actividade a que se dedica, e não anunciar disparates. De facto, há coisas com que não se brinca.

0 comentários em “Com a ortografia eu não brinco.”

  1. Ou então eles que sejam coerentes e mudem o nome da empresa para Otivisão.
    Parece-me que estão a ser triplamente burros, posso estar enganado, mas mesmo com o novo AO, em Portugal continua a ser óptico e no Brasil continua a ser ótico (que dá para olhos e ouvidos na grafia local).

    1. “[…] Talvez o referido “grupo ótico” devesse saber que, em português, “ótico”, como qualquer dicionário lhe pode informar, é respeitante ao ouvido. Se se quiser falar da visão, diz-se antes “óptico”. Ora, parece-me que qualquer empresa deveria saber, antes de tudo, a actividade a que se dedica, e não anunciar disparates. […] “

      As mudanças do acordo ortográfico podem desagradar-lhe mas, neste caso, a Optivisão utiliza o termo correcto para designar “estabelecimento onde se vendem óculos, lentes de contacto e outros produtos relacionados”.

      Como este dicionário “qualquer ” da Porto Editora lhe poderá informar: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/%C3%B3tica

      miguel

      1. Falei em dicionários de português, não de acordês. Na 6ª edição do meu Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora diz-se expressamente que ótico é relativo ao ouvido. Terá a expressão entretanto mudado de sentido em português?

  2. E “optivisão” não cola. “Óptimo” acabou para dar lugar a “ótimo”. Ah, e também não cola o cabelinho de antes do NOA do personagem a quem se acabou a graça.

      1. A TV Cabo não passou a Zon nem a Nos, ficou sempre TV Cabo.
        E o Diário de Notícias nunca passou de Diario de Notícias a Diário de Notícias. Vá-se curar, se tiver cura.

        1. Há que distinguir entre os nomes das empresas e as marcas.
          E claro, sim, os nomes das empresas também mudam – mas mais raramente. Porque para mudar o nome da empresa precisa de voltar a registá-la, o que dá trabalho e despesa.

      2. O seu apreço pelo “Acordo” Ortográfico (singular “acordo” este, que só um país aplica), conforta-me. É, também, uma questão de coerência. Coerência no quê, deixo-o adivinhar.

      3. Estive a confirmar e a designação do DN, como facilmente se pode constatar através de pesquisa do Google era, (por exemplo) em 1974, Diario de Noticias. É só aceder às imagens e colocar os óculos (ou será “o óculos”, como diz aqui um colega de caixa de comentários?).

  3. Permita-me que deixa a crónica do português João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo.
    Começa a ser penoso para mim ler a imprensa portuguesa. Não falo da qualidade dos textos. Falo da ortografia deles. Que português é esse?
    Quem tomou de assalto a língua portuguesa (de Portugal) e a transformou numa versão abastardada da língua portuguesa (do Brasil)?
    A sensação que tenho é que estive em coma profundo durante meses, ou anos. E, quando acordei, habitava já um planeta novo, onde as regras ortográficas que aprendi na escola foram destroçadas por vândalos extraterrestres que decidiram unilateralmente como devem escrever os portugueses.
    Eis o Acordo Ortográfico, plenamente em vigor.
    Não aderi a ele: nesta Folha, entendo que a ortografia deve obedecer aos critérios do Brasil. Sou um convidado da casa e nenhum convidado começa a dar ordens aos seus anfitriões sobre o lugar das pratas e a moldura dos quadros.
    Questão de educação.
    Em Portugal é outra história. E não deixa de ser hilariante a quantidade de articulistas que, no final dos seus textos, fazem uma declaração de princípios: «Por decisão do autor, o texto está escrito de acordo com a antiga ortografia».
    A esquizofrenia é total, e os jornais são hoje mantas de retalhos. Há notícias, entrevistas ou reportagens escritas de acordo com as novas regras. As crônicas e os textos de opinião, na sua maioria, seguem as regras antigas. E depois existem zonas cinzentas, onde já ninguém sabe como escrever e mistura tudo: a nova ortografia com a velha e até, em certos casos, uma ortografia imaginária.
    A intenção dos pais do Acordo Ortográfico era unificar a língua.
    Resultado: é o desacordo total com todo mundo a disparar para todos os lados. Como foi isso possível?
    Foi possível por uma mistura de arrogância e analfabetismo. O Acordo Ortográfico começa como um típico produto da mentalidade racionalista, que sempre acreditou no poder de um decreto para alterar uma experiência histórica particular.
    Acontece que a língua não se muda por decreto; ela é a decorrência de uma evolução cultural que confere aos seus falantes uma identidade própria e, mais importante, reconhecível para terceiros.
    Respeito a grafia brasileira e a forma como o Brasil apagou as consoantes mudas de certas palavras (“ação”, “ótimo” etc.). E respeito porque gosto de as ler assim: quando encontro essas palavras, sinto o prazer cosmopolita de saber que a língua portuguesa navegou pelo Atlântico até chegar ao outro lado do mundo, onde vestiu bermuda e se apaixonou pela garota de Ipanema.
    Não respeito quem me obriga a apagar essas consoantes porque acredita que a ortografia deve ser uma mera transcrição fonética. Isso não é apenas teoricamente discutível; é, sobretudo, uma aberração prática.
    Tal como escrevi várias vezes, citando o poeta português Vasco Graça Moura, que tem estudado atentamente o problema, as consoantes mudas, para os portugueses, são uma pegada etimológica importante. Mas elas transportam também informação fonética, abrindo as vogais que as antecedem. O “c” de “acção” e o “p” de “óptimo” sinalizam uma correta pronúncia.
    A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxônicos, pela partilha da sua diversidade. E a melhor forma de partilhar uma língua passa pela sua literatura.
    Não conheço nenhum brasileiro alfabetizado que sinta «desconforto» ao ler Fernando Pessoa na ortografia portuguesa. E também não conheço nenhum português alfabetizado que sinta «desconforto» ao ler Nelson Rodrigues na ortografia brasileira.
    Infelizmente, conheço vários brasileiros e vários portugueses alfabetizados que sentem «desconforto» por não poderem comprar, em São Paulo ou em Lisboa, as edições correntes da literatura dos dois países a preços civilizados.
    Aliás, se dúvidas houvesse sobre a falta de inteligência estratégica que persiste dos dois lados do Atlântico, onde não existe um mercado livreiro comum, bastaria citar o encerramento anunciado da livraria Camões, no Rio, que durante anos vendeu livros portugueses a leitores brasileiros.
    De que servem acordos ortográficos delirantes e autoritários quando a língua naufraga sempre no meio do oceano?

  4. [Y]

    Entre todas as imbecilidades, esta é das mais despudoradas e reveladoras.
    A pressa com que as “Ópticas” passaram a “Óticas”, mudando do Olho para o Ouvido, sem questionar a confusão, mostra como é importante o ouvido para o negócio, e especialmente a obediência às ordens fraternas.

    Os brasileiros também explicam por que usam “óptico” e não “ótico”:
    http://duvidas.dicio.com.br/optica-optico-otica-ou-otico/

    Se um “exame ótico” enviar o paciente para sector diferente do hospital, podem ir-lhe ao olho por causa deste zumbido nas orelhas.

    Misturar uma ciência com outra, mostra bem o cuidado científico presente nos trogloditas.

    Tal como em Pára, Recepção ou Decepção, a sua passagem para “para”, “receção” ou “deceção”, não vigora no Brasil.
    É mera inspiração acordionista, que decidiu que consoantes se ouviam ou não ouviam, e que depois se viam ou não viam na escrita.
    Um problema de ótica transformado em problema de óptica.
    Aconselha-se tratamento ótico e óptico.

  5. No Brasil, diz-se (por exemplo) “Cadê o meu óculos?” — será que a – com licença -caca do novo acordo ortográfico não exigirá que copiemos?

  6. um grupo de ignorantes quis impor à força aos portugueses

    Ouvi no outro dia na rádio um dos filologistas que arquitetou o Acordo. O homem era um professor catedrático da Faculdade de Letras. Ignorante não era, certamente.

    O Luís M. L. pode não estar de acordo com a nova ortografia, mas é incorreto chamar “ignorantes” aos que a arquitetaram. Eles percebem bem mais da matéria do que o Luís.

    1. É ignorante quem ignora a importância da etimologia das palavras para a ortografia, querendo usar exclusivamente a pronúncia. Mostra não saber o que é de facto a ortografia. E só em Portugal é que isto seria possível. Nenhum outro país aceitaria andar a suprimir consoantes apenas porque não surgem na pronúncia. Os ingleses continuam a escrever “doubt” apesar de não pronunciarem o “b”. E os canadianos escrevem “Toronto” apesar de dizerem “Torono”. E os franceses quase nunca pronunciam as consoantes finais das suas palavras. “Dupont” e “Dupond” só se distinguem na escrita. Cairia o Carmo e a Trindade desses países se alguém se lembrasse de propor a abolição das consoantes mudas. Só em Portugal, como bem diz o Sérgio Almeida Correia, é que somos absolutamente servis. Inclusivamente ao disparate e à ignorância.

      1. O seu mal é que, como línguas estrangeiras, só conhece o inglês e o francês. Se conhecesse outras – o castelhano, o italiano, o alemão, o polaco – veria que em todas elas, sem exceção, as palavras se lêem como se escrevem e não há letras mudas.
        O inglês e o francês são exceções, não são regras.

        1. Ignora totalmente que, só para dar um exemplo, em inglês, há palavras em que o agá (escrevo assim para ver se compreende) não se pronuncia, enquanto noutras isso acontece. Procure e aprenda, se é que nhurro velho aprende línguas.

        2. Tem razão. Só a minha ignorância é que não me permitiu ver que são excepções. Experimente escrever “óptico” em castelhano “óptico”, em italiano “ottico”, em alemão “optisch”, em polaco “optyczny”. Só o acordês é que usa o “ótico”. Chamar a isto uma regra é um sério problema de óptica.

        3. O Alemão poderá ter uma grafia mais próxima da fonética, mas nem por isso deixa de ter as suas particularidades. Na palavra Wald, por exemplo, o d é pronunciado como t, mas no plural (Wälder) já é pronunciado como d. No caso de Buch, o ch corresponde a um r gutural, mas no plural (Bücher) o ch corresponde a um som ch suave não existente na nossa língua. O ch tem ainda outras diferentes formas de pronunciar, o que torna a língua também difícil de aprender para o estudante estrangeiro. Há ainda a existência de ditongos escritos de forma diferente mas com pronúncias iguais, nomeadamente eu/äu e ei/ai. O h no início das palavras é pronunciado, mas “isolado” no meio da palavra tem uma função mais ou menos diacrítica. Trata-se, mais precisamente, de um Dehnungszeichen (Drohung, ziehen, etc.), destinado a alongar a combinação anterior (ie). Já sozinho no fim das palavras não é pronunciado (por exemplo, Vieh, nah, roh, etc.). Já palavras com consoantes duplas não distintivas são o pão nosso de cada dia em Alemão e poderiam ser simplificadas. Em vez disso, a reforma levada a cabo nos anos 90 optou por voltar a introduzir lógica (!) em palavras onde antes faltava. Assim, palavras compostas, em que o primeiro membro aglutinado terminava em ff (Schiff) e o segundo começava por f (Fahrt) ou ss (Fluss) e o segundo por s (Spannung), viram a sua grafia ser alterada de Schiffahrt para Schifffahrt e Flusspannung para Flussspannung, respectivamente. Curiosamente, naquilo que seria mais fácil mexer, ou seja, a grafia dos substantivos e verbos substantivados com minúscula em vez de maiúscula, não se mexeu. A polémica foi tal que finalmente 10 anos depois da entrada em vigor da dita reforma, vários aspectos da reforma foram anulados na sequência do parecer elaborado por um conselho criado para analisar a situação da língua, formado por pessoas, que incluíam, entre outros, linguistas, escritores, professores e pais. Pena que, por cá, não se aprenda com os erros dos outros.

          1. Não necessita de me ensinar alemão, que é língua que conheço. Os exemplos que referiu (Buch, Buecher, Wald, Waelder, etc) obedecem todos eles a regras simples e claras de leitura. São regras, não são exceções – que o alemão também as tem, e não são poucas.
            Repito que em alemão não há consoantes mudas nem letras que não se sabe se são para ler se não são, como na grafia antiga do português (em que o c não se lê em “tecto” mas já se lê em “pacto”, o p não se lê em “assímptota” mas já se lê em “captar”).

          2. Relembro as suas palavras:
            O seu mal é que, como línguas estrangeiras, só conhece o inglês e o francês. Se conhecesse outras – o castelhano, o italiano, o alemão, o polaco – veria que em todas elas, sem exceção, as palavras se lêem como se escrevem e não há letras mudas.

            Como mencionado no meu comentário anterior, no Alemão há letras mudas, como é o exemplo do h final junto a uma vogal. Disse, e muito bem, que essa é uma regra, mas o facto é que não é pronunciado nem em roh, nem em nah, nem em sah, nem em Känguruh, cujo h desapareceu com a reforma. Não há qualquer razão para a existência de h isolado no final das palavras. A única razão para a sua manutenção é que ele volta a ter uma função no plural, tratando-se de substantivos, ou nas declinações, tratando-se de adjectivos.

            Não entendo é porque é que aceita as regras da gramática alemã, mas custa-lhe aceitar as regras da gramática portuguesa. Se há uma razão para a presença do h em Drohung, embora este seja praticamente imperceptível, da mesma forma existe uma razão para a presença do c em tecto. Segundo Malaca Casteleiro, isso não corresponde à verdade, mas o que é certo é que andamos há décadas a aprender que sim…

            O Português europeu tem tendência natural para o emudecimento. Prova disso é a variante brasileira da língua, que na pronúncia é muito semelhante à forma como se falava em Portugal no séc. XVI. E ao eliminarmos consoantes mudas que estão nas palavras por alguma razão, estamos a contribuir ainda mais para esse emudecimento.

      2. É ignorante quem ignora a importância da etimologia das palavras para a ortografia

        Disparate. Na generalidade das línguas a ortografia das palavras altera-se. A etimologia, essa, mantem-se sempre. A etimologia é, por definição, estática. A ortografia, tal como a pronúncia, são dinâmicas, mudam.

        Vá ensinar os filólogos castelhanos e italianos que “Federico” se deveria escrever “Frederico” para estar de acordo com a etimologia (alemã: Friedrich).

    2. Magister dixit.
      A doutrina medieval em tempos modernos.

      Por muito que isso o deixe em maus lençóis, Lavoura, a competência não é decretada, tem que ser provada.

  7. “Estomatologia” também se refere à medicina dos dentes e não do estômago.
    Não vejo qual é a novidade de “ótico” ter dois significados distintos. Há muitas palavras que têm significados distintos e até confusos – tal como “estomatologia”.

    1. Luís, é confrangedor o teu analfabetismo funcional.

      “Estomatologia” tem dois significados distintos?
      Um estomatologista trata do estômago?
      A que propósito?
      Podes também inventar que
      “es-tomato-logia”
      trata dos tomates, pela igual semelhança de várias sílabas.

      O problema é que nem tiveste piada, e do teu lado só vejo uma contínua tristeza.

  8. Caro Luiz Lavora
    Explica-me como se eu fosse uma criança de 6 anos: porque razão os brasileiros, aplicando o ao90, continuam a escrever «aspecto», «concepção», «confecções», «excepcionais», «facções», «infecciosas», «percepção», «perspectiva», «recepção», «receptiva», «receptividade», «receptor», «respectivamente», «ruptura» e um português tem de voltar a escrever estas palavras da forma como eram escritas entre 1911 e 1945?
    Boas pedaladas.

    1. Caro iletrado:
      É para uniformizar a ortografia.
      Não foi esse o objectivo do Aborto Ortográfico?
      Percebeu agora?
      Criaram-se mais de 2000 formas diferentes e grafar palavras que antes tinham apenas uma grafia para uniformizar.
      Mas o Lavoura é assim, que se há-de fazer?
      Quem feio ama bonito lhe parece, diz o ditado popular.

    1. Um dicionário de “acordês” que assume a confusão das palavras criada pelo acordo ortográfico. Uma inteligência elementar, ao ver isso, mandaria escrever o dicionário antes no bom velho português.

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