Clara Gema do Ovo (3) – A Transição


Maria Dulce Fernandes,

O Demis-Live-Puppet foi um sucesso. A Clara trazia-o com ela para o liceu tantas vezes quantas as colegas que deixava entrar no seu inner circle e cujo ritual de passagem era ver e saber guardar o segredo debaixo da túnica. Não eram assim tantas como isso, mas a presença do mono era sempre um acontecimento e um divertimento do qual até as próprias professoras, cientes dos arrebatamentos musicais e amorosos da Clara, participavam animadas mas sem consciência “do que estava por baixo”, o que era emocionante e divertido para a população estudantil  daquela turma.
Tínhamos quinze anos e era Primavera. Trazíamos os livros, as alegrias, as tristezas e muitas paixões na mochila. Éramos alegres e despreocupadas. Era Primavera e o nosso espírito vicejante bulia por debaixo da bata azul que nos uniformizava.

Aquele dia amanheceu nublado e rotineiro como de costume. A primeira aula era Inglês, às 8:30h, com a Dra. Rosário Ferro que não admitia atrasos. Muitas de nós chegaram ao liceu às 8:00h. Duas contínuas à porta faziam-nos entrar rapidamente e orientavam-nos para as salas de aulas, onde deveríamos permanecer sentadas até que alguém viesse falar connosco. Na sala com duas filas de carteiras duplas já havia uma meia dúzia de alunas sentadas, mas nem sombra da Rosarinho. Entretanto entra a Francisca que diz que alguém fala nas notícias que houve um golpe de estado. O que é isso? Sei lá. É coisa de terroristas. É da tropa!
Estávamos para ali fechadas e apavoradas e não havia uma alminha que fosse, capaz de nos sossegar. De vez em quando uma contínua assomava à porta da sala, chamava uma aluna pelo nome e levava-a sem dizer mais nada. Olhávamos umas para as outras em silêncio e só podíamos conjecturar coisas más.
Quando chamaram o meu nome, não soube se era para rir ou para chorar, porque não tinha como saber ao que ia. Olhei para as colegas, para a Clara, acenei com a mão e acompanhei a contínua até à grande porta da entrada. Estava lá o guitarrista Fernando Pinto, o vizinho do primeiro andar. Anda Dulcinha, anda, vamos para casa que a tua mãe está doente de aflição.

original.jpeg.jpgNo caminho de casa vimos passar os Chaimites de Cavalaria 7. Falava-se em revolução e o medo pairava no ar. Todas as revoluções que conhecíamos, algumas das notícias mas a maior parte da história e dos livros, acabavam com mortos, feridos e sangue a rodos. O amanhã afigurava-se mesmo nada tranquilizador.

A minha mãe estava na varanda a ouvir a telefonia. Pairámos lá por casa sem qualquer informação que não o que ia passando na rádio em nome do Movimento das Forças Armadas e que exortava as pessoas a permanecer tranquilas em suas casas. O meu pai só chegou pelas 18 horas e pouco mais tarde o Fernando Balsinha e o Fialho Gouveia apresentavam uma edição especial do Telejornal sobre o golpe de estado levado a cabo pelo MFA, cuja reportagem de rua com imagens, em particular as dos momentos cruciais e de grande tensão no Largo do Carmo naquele final de tarde primaveril que aqueceu ao rubro as emoções, misturada com a ideia carmesim dos cravos cinzentos no ecrã, projectados dos canos das armas mudas, fez transbordar o tumulto do peito, soltou o nó da garganta e as lágrimas correram como rios turbulentos.

Até à data, só tinha visto o meu pai chorar quando nasceram os filhos.

5 comentários em “Clara Gema do Ovo (3) – A Transição”

  1. Os pais choram quando nascem os filhos, e também choram quando sabem que os filhos que nascem já não vão pra guerra.
    Na imagem aparece um Tanque (lagartas) e não um Chaimite (rodas)

  2. Mais uma bela crónica.

    Não tive tanta sorte no dia 25 de Abril de 1974. Andava na 3ª classe. A aula começou normalmente, mas a professora, depois de ter sido chamada para falar com a directora, tornou a surgir, muito aflita, e mandou-nos para casa. Não deu grandes explicações, mas ouvimos qualquer coisa como “isto até pode dar em guerra”. Ficámos apavoradas, mas mais ninguém se preocupou connosco, nem nos vieram buscar. Tínhamos oito anos!
    Chegada a casa, não estava lá ninguém e fartei-me de chorar, apavorada. Até que a minha mãe chegou, surpreendeu-se com a minha presença e perguntou-me porque não estava na escola. Depois de lhe explicar o que acontecera e de a professora ter falado numa confusão que podia «dar em guerra», a minha mãe olhou para o tecto, como quem reflecte, e disse: “Ouvi qualquer coisa no autocarro”. Ao vê-la dizer aquilo, como um ar de quem reflecte sobre o que há-de cozinhar para o almoço, todo o meu receio se esfumou.

    Entrei para o liceu em 1977, já sem PREC, mas ainda com muita balbúrdia. Por isso, não sei o que é andar no liceu de bata, valha-me ao menos isso.

    1. O meu pai também esteve a trabalhar até às 17h. Foi aí que alguém falou alguma coisa e ligaram uma telefonia, que ia repetindo a informação do MFA. Não estando no centro da cidade, pouco ou nenhum conhecimento do desenrolar da situação nos chegava e as linhas telefónicas estavam congestionadas. Creio que a maior parte da população que estava em casa sem saber ao certo o que se passava, teve muito medo.
      Devo abordar as balbúrdias nos próximos capítulos, Cristina

      1. Fico à espera, Dulce

        Tenho muito interesse por essa época. Afinal, assistimos a um dos períodos mais importantes da nossa História ao vivo! Admira-me haver relativamente pouca literatura e poucos filmes sobre isso. Há, com certeza, muito para contar (estou a falar de experiências pessoais, como esta que nos conta aqui).

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