Achismo


Pedro Correia,

Não sei se convosco se passa o mesmo. Deixei de ter paciência para ouvir qualquer frase que comece pela muleta verbal «eu acho que». Não há outra tão estafada e repetida até à náusea nos ecrãs televisivos.

Esta gente que está sempre a “achar” seja o que for errou a vocação. Em vez de exercer o comentário, devia dedicar-se à resolução de enigmas policiais. Se alguém se tornou especialista em achar alguma coisa, foram os detectives. Sherlock, Poirot, Maigret e Columbo: eis quatro célebres cultores do achismo em versão literal. Mas estes não se limitaram a mandar bitaites: encontraram mesmo o que tinha sido furtado ou estava oculto.

90 comentários em “Achismo”

  1. Eu acho que me irritam muito mais frases começadas com a bengala ‘É assim…’ e as que acabam em ponto final. Prefiro achismos às certezas absolutas em voga em cada momento.

    O ‘eu acho’ pode ser tão só uma forma de respeito pelo interlocutor e um convite à opinião contrária.

    1. Eu acho que… detesto ainda mais frases sem pontos finais. Cada vez mais frequentes, aliás. Incluindo no discurso oral. Há até comentadores encartados que se especializaram na TV a nunca pôr a porcaria dum ponto final numa frase. Nem sei como têm fôlego para encher tanto chouriço.

      1. Não me referia a por ponto final ou não nas frases. Hábito que sempre tive. Mas a usar a expressão ‘ponto final’ para rematar uma conversa. Acho, aliás, uma má-criação.

          1. detesto o “é assim”, que me parece (aliás, acho que) se espalhou por influência televisiva na primeira década de XXI. E impregna-se, raisparta, que já me apanhei a dizê-la … Já a do “ponto final parágrafo” estou em desacordo. Pode ser rude mas serve muito bem para calar patetas.

          2. O grave, caro jpt, é que sempre ouvi mais o ‘ponto final’ aos patetas do que aos que querem calar patetas.

            E sim, estas coisas colam-se aos dedos e boca; não só já me apanhei a dizer ‘é assim…’ como não juro a pés juntos que nunca tenha dito ‘ponto final’. 🙂

  2. Realmente é assombroso como os “comentadeiros” televisivos portugueses não creem em nada, mas acham muita coisa.

    1. Eu acho que… é uma forma de se desresponsabilizarem pelas opiniões que emitem. Muito à portuguesa: nada de afirmações categóricas, tudo arredondado, com florzinha na lapela. O Presidente da República tornou-se especialista neste discurso oblíquo, nos últimos dias cada vez mais patente.

          1. Outra bengala que vai medrando: “ao dia de hoje”. Quatro palavras para significar uma só: hoje.
            Complicar o que é simples.
            Um começa, outros logo imitam. De repente muitos (e muitas) passaram a falar deste modo pedante.
            Parece tradução literal do “aujourd’hui” francês. Acho.

  3. Recordo-me duma crónica de Vasco Pulido Valente, em que, por erro burocrático, um dossiê sobre a zona exclusiva de pescas foi enviado para apreciação a um agrónomo da zona agrária de Beja. O agrónomo percebeu que aquilo não era com ele e respondeu que não tinha as competências necessárias para analisar o dossiê. Mas, não podendo deixar, apesar de tudo, de tecer algumas considerações, anexou mais de 300 páginas das ditas considerações.
    Se me perguntarem onde faz mais frio, em Saturno ou Neptuno, do alto da minha ignorância, vou achar que é num deles. Se me perguntarem onde fica a Rua da Eufosina provavelmente direi que nunca ouvi falar dessa rua, mas acho que deve ficar ali para os lados da igreja.
    Por um lado é exasperante, por outro é cómico. Há uma recusa nacional em dizer não sei.
    Cada um tem as suas aversões de estimação. Eu páro de ler um texto assim que aparece a “espuma dos dias”.

        1. Espuma dos dias é uma expressão muito elegante, que me recorda um excelente filme – The Remains Of The Day. O problema é o excesso de uso. Banaliza-a. Retira-lhe todo o poder evocativo.

      1. Embora desconheça a origem, refere-se certamente ao mar. Como o mar está minado de microplásticos, talvez “os microplásticos dos dias” seja uma alternativa.

      1. Tenho aversão a que me caia um solitário e gelado pingo de chuva entre a gola da camisa e o pescoço. Ou a areia nas amêijoas. Coisas simples.

          1. Não sei se aversão será a palavra adequada para pingos de solda no canto do olho. Acho que costelas partidas, dedos esmagados, queimaduras, fracturas expostas, estão num escalão diferente de areia na comida. Aversão, decerto, mas mais que isso. Receio, talvez. Talvez mesmo medo.
            E como é que apanhou um pingo de solda no olho? Não me diga que estava a soldar por baixo sem ao menos uns óculos de protecção. Podia ter ficado cego.

  4. Já vi que você não gosta do Marques Mendes o campeão do achismo.
    Mas o problema é que ele não acha nada, o achismo dele deriva das achas que ele manda para a fogueira todos os domingos.

      1. ” Não se combate o achismo e o fulanismo com o bota-abaixismo e com o negativismo de quem quer dizer mal de tudo “.
        Nem de propósito.

          1. Coitada essa foi confinada à força.
            O autor da frase está na Ericeira acho eu.

  5. O Sherlock não praticava o achismo, mas sim o método dedutivo, que ao contrário do primeiro, assenta em métodos científicos. Daí que os achistas não sirvam para a função.
    Agora preciso de achar as chaves de casa, não consigo deduzir onde as coloquei.

  6. Entre o acho que e notícias baseadas na forma verbal condicional, não sei o que será pior.
    Abrir um noticiário com um “poderá acontecer” ou “pode ter sido isto que aconteceu” é…

        1. Só acho que nada acho
          (já dizia o filósofo)

          Na minha actividade profissional o “acho que” (ou os derivados “pode ser disto” ou “penso que seja isto) é usado para ganhar tempo ou mandar embora gajos chatos, e assume-se como demonstração de ignorância e/ou falta de vontade.

          1. Outra expressão trava-chatos é o “já agora”. O rei dos pleonasmos, como dizia aquele escritor célebre. Acho que era o Saramago.

  7. O Achismo é a chinchada do pensamento. Mas se tirares o sorriso à questão verás que de achismo está a imprensa (rádio, tv disco e cassete pirata), que doutores achistas não faltam, e mui respeitados seguem, acho eu de que …

    1. Outra expressão que tem vindo a alastrar como papoilas saltitantes é “com o devido respeito”. Não há cão nem gato que não abuse hoje dela. E ninguém a utiliza com ironia: é mesmo a sério. Acho eu.

  8. Pá, tudo é irritante. O universo, a Bosta Antiquíssima e primitiva que está para lá e para cá dele e até aquela linha fininha que divide os dois.

    Acho eu.

  9. Com tanto crítico literário se calhar é melhor eu passar a comentar em linguagem gestual 🖐🤌🤏👍.

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