Perante a crescente impossibilidade de apresentar um candidato viável a Belém, alguma Esquerda tenderá a recorrer cada vez mais à “política do medo” para combater Cavaco. Nesta arte da mistificação, repetir-se-á vezes sem conta que Cavaco pretende subverter a Constituição, destruir o sistema parlamentar e iniciar um regime ditatorial de índole conservadora. Fernanda Câncio dá o mote: “Desde 2006 que sabemos isto: Cavaco tem a intenção de fazer um segundo mandato. E é inevitável que o seu pessoalíssimo projecto de poder implique que nessa segunda estada em Belém tente explorar todas as virtualidades da indefinição que a Constituição portuguesa prescreve para a função […]”.
Trata-se de um discurso tolo, já utilizado em 2006 e desmentido taxativamente pela realidade: não se vislumbrou, nem por uma vez sequer, a intenção de Cavaco em “explorar as indefinições da Constituição” e/ou chefiar o que quer que fosse a partir de Belém. Na verdade, Cavaco tem pecado justamente pelo contrário do que sugere Câncio: o seu consulado é até agora pouco mais que pífio – Cavaco não bloqueou nenhum projecto fundamental do PS, não condicionou nenhuma política essencial do Governo e com a péssima gestão do “caso das escutas” prejudicou até severamente o PSD nas legislativas.
Por que combaterá então alguma Esquerda (e particularmente a Esquerda socrática-chique) a reeleição de Cavaco? Não por recear verdadeiramente “um golpe de Estado constitucional”, nem tampouco por ver nela um escolho à governação socialista. Nada disso. Tal oposição surgirá porque a Esquerda socrática-chique opera como uma claque de futebol, orientando-se por “emoções” e espírito vingativo, e não por cálculo político ou análise racional. Basta ler algumas reacções na polémica do “casamento gay” para o perceber (do género “tomem, ganhámos!” ou “ficaram com azia?”, como aqui ou aqui). Odeiam Cavaco, logo combatem Cavaco. Mesmo que a sua reeleição venha a ter efeitos nulos relativamente às pretensões socialistas.

É um protesto de «pro forma» que esconde um agradecimento (que seria embaraçoso em público) ao presidente que nada fez e lhes deu tudo. O direito de família português ficou irreconhecível em 4 anos.
Um agradecimento. É exactamente isso.
“Desde 2006 que sabemos isto: Cavaco tem a intenção de fazer um segundo mandato.”
Quando foi do segundo mandato do Jorge Sampaio, como é que foi ? Recordam-se ? E do segundo mandato do Mário Soares ? Também se lembram ?
Nada mais a acrescentar e grato pela vossa paciência!
Só os candidatos de Esquerda têm o direito a se recandidatarem…
http://devaneiosaoriente.blogspot.com/20 10/05/o-ps-de-socrates-apoia-alegre-o-ps-d e.html
Excelente análise!
Tristemente de acordo.