Cepa torta


Ana Vidal,

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Engraçado, não nos livramos da hipocrisia nem à bala. Nem da incoerência, já agora: as mesmas pessoas que aplaudem entusiasticamente o facto de o movimento “metoo”, denunciando casos de assédio e abuso sexual, tenha tido uma projecção mediática estratosférica, tenha explodido numa cerimónia pública e sido encabeçado por figuras conhecidíssimas, vêm agora condenar prontamente a denúncia de Lobo Antunes contando o seu próprio caso de abuso, portanto sobre o mesmíssimo tema, e igualmente numa cerimónia pública. Por causa disso já lhe ouvi chamar gagá, inconveniente, incontinente mental, ofensivo, exibicionista, etc.  

E pasmo. Será por ser homem? Será por ser uma figura tão amada como odiada no meio literário, mas seguramente invejada pela liberdade de dizer tudo o que pensa e sente, doa a quem doer? Será por ter sido perante uma plateia de crianças, como se não fossem precisamente essas que devem ser alertadas para estes perigos? Será por ter “embaraçado” o Presidente da República, ingrato, depois de este lhe ter chamado Genial? Não entendo. Ou entendo bem demais, no fundo. É a velha fórmula que nos faz ser pequeninos desde sempre: tudo o que se passa “lá fora” é bom, mas se alguém se atreve a fazer o mesmo dentro de portas, agitando as águas e incomodando os brandos costumes, aqui d’el rei que devia era estar calado.

22 comentários em “Cepa torta”

  1. A natureza do Socialismo-Corporativismo Português.
    Este blogue provavelmente não existiria se depende-se só dos portugueses. Haveria milhentas regras para cumprir só ao alcance da elite.
    E daí como como o blogue pertence à elite – e pertença à elite é definida por ser-se ouvido – talvez não.

    1. Tem tudo que ver, o que você escreve aqui: “É a velha fórmula que nos faz ser pequeninos desde sempre: tudo o que se passa “lá fora” é bom, mas se alguém se atreve a fazer o mesmo dentro de portas, agitando as águas e incomodando os brandos costumes, aqui d’el rei que devia era estar calado.”

      A internet nunca poderia ter aparecido em Portugal como aconteceu, haveria um coro de gente a dizer que deveria ser controlada ao mais ínfimo pormenor. Haveria um registo para cada blog onde o preço de entrada seria substancial.
      Era o que teria acontecido se nós fossemos deixados à nossa natureza.

      Mas como lá fora foi liberal já passou a ser ok.

      1. Bem, não é preciso ser sobredotado para nos apercebermos da parvoíce de outrem. E houve pessoas no passado que hoje são consideradas génios e que fizeram ou disseram parvoíces, e das grandes. Não podemos aceitar tudo de Lobo Antunes só porque ele escreve livros. Ou aceitamos tudo que Saramago dizia e fazia? Se assim fosse seríamos todos comunistas.

        1. Não é uma questão de aceitar tudo, é uma questão de aceitar isto que ele fez agora. É parvo porque contou uma história de abuso que se passou com ele quando era criança? Porquê?

      2. não percebo a relação, Ana.
        ainda que seja considerado, por alguns, “génio”, isso não o impede de ser parvo. não são atributos de coexistência impossível, lamento.

        1. São de coexistência difícil, na minha opinião. Uma coisa é não concordarmos com atitudes de alguém que é consensualmente inteligente, outra é chamarmos-lhe parvo porque não concordamos com elas. Há muitos outros adjectivos à escolha, esse parece-me só mal escolhido.

          1. Sabe, respondendo à pergunta : sempre fui muito brincalhão, mas sem perder o respeito às pessoas, ainda não percebi o que é assédio. Também acho que algumas pessoas que se dizem vitimas do assédio estão a fazer propaganda.
            Se já fui assediado? Pelo meu género, não lhes dava a minima hipótese, pelo sexo feminino talvez, mas ficou como uma recordação bonita, ate não chamo a isso assédio, mas disponibilidade.

          2. A prova de que não percebeu ainda muito bem o que é o assédio é essa frase “Pelo meu género, não lhes dava a minima hipótese”. Porque o assédio não precisa que lhe dêem hipótese, é exactamente o contrário disso: uma abordagem abusiva, sem o consentimento nem qualquer manifestação de interesse da outra parte. A teoria de que acontece a quem “se põe a jeito” só serve para baralhar ainda mais. Se alguém “se põe a jeito” não é assédio, é um jogo recíproco de sedução. Ou, como diz e muito bem, disponibilidade.
            Quanto aos casos tornados públicos, deve haver de tudo como em tudo o resto na vida: os verdadeiros, os que aproveitam a onda, os que não foram assédio, etc. O que não invalida em nada que o assédio exista.

  2. Porque é que O Toninho Lobo Antunes não se levantou então e deu um grito? Nem percebo bem como é que o dito “professor” lhe chegava às pernitas… da forma como ele agora descreve quase como ao jeito de um Henry Miller… Porque é que fez questão de dizer só agora que foi “assediado” por um professor “de Moral”? Porque é que só agora falou disso e diante de alunos de uma escola salesiana? Será que então, tanto ele como o dito “professor” deram ao caso a importância que ele lhe dá agora? Eu não digo que ele é parvo, porque não é. Mas nós também não somos. Ele é, sim, oportunista.
    Quanto ao proclamado “assédio sexual”: Noutros tempos era uma forma de “abrir” portas; e já era condenável. Mas todos sabemos quantos e quantas entraram por elas… no mundo da arte, do trabalho, da política… Não entrariam nunca de outra forma. Agora é assédio sexual e são vítimas, coitadas…

    1. Sempre apreciei muito quem se apresenta valentemente como anónimo para instilar veneno ou criticar alguém.
      Respondo-lhe só porque parece desconhecer a história, apesar de ter tantas opiniões: Lobo Antunes denunciou o professor, sim, no próprio dia em que isto aconteceu, e o professor foi suspenso.
      Satisfeito?

      1. Foi por engano que o meu comentário ficou anónimo (mas não seria o único…); uso sempre neste blog a mesma assinatura JAB que são as iniciais do meu nome e o administrador pode ver ainda mais pelo endereço, mas não vejo em que é que eu “instilei veneno”… Não sou, por isso, assim tão valente.
        Relativamente à história mais completa, poderia o mesmo LA ter dito isso. Ajudava mais quem o escutava do que lançar a questão para o ar sem mais. Por outro lado nenhum dos comentadores deste seu “post” referiu o facto de LA ter denunciado o professor e este ter sido suspenso. Agradeço a informação. Mesmo assim não retiro nenhuma das minhas “opiniões” que aliás se fundamentam em factos que não descrevo aqui, nem o que disse sobre a intervenção despropositada de LA aproveitando um palco especial em que estava para falar de literatura.

        1. Sim, ele contou a história com todos os pormenores numa das suas crónicas da Visão, há já algum tempo. Terá de procurá-la se a quiser ler, porque não o encontrei o link para lhe deixar aqui,

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