A sociedade gere-se por regras e as mesmas são impostas por uma maioria forte, predominante e, muitas vezes, cingida a uma moral que deriva da religião. Fala-se muito em amor, em vida, direito à vida e ainda outras coisas como a invocação divina. Estamos no século XXI, há coisas que já perderam validade. Ora, em Portugal, alguns partidos políticos elaboraram, ou estão no processo de elaborar, projectos de lei de legalização da eutanásia. Só pecam por ser tão tarde. Sou completamente a favor. Haverá quem seja contra, não tenho a menor dúvida.
Dirão que serão necessárias limites e fronteiras, pois seja. Até porque importa acautelar a possibilidade de familiares demasiado ansiosos por eventuais heranças, ou desejosos de se verem livres do peso daquela pessoa doente, se apressarem a antecipar a sua morte. É, portanto, crucial que a lei seja claríssima e eficazmente explícita quanto aos mecanismos de confirmação inequívoca do desejo do doente. É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. E é para isso que votamos e temos partidos a pesquisar para produzir decretos-lei com pés e cabeça.
O que me importa, contudo, é a possibilidade de ver eliminada esta indignidade que a evolução da medicina permite: estendemos a vida do corpo sem qualquer preocupação com a dignidade individual, com a qualidade de vida de cada um. Há sempre o argumento do instinto de sobrevivência, ninguém quer morrer (ora pois, então!), não sabemos ao que vamos e, mesmo os mais religiosos, com promessas de céu e salvação, virgens e outras coisas, têm grande dificuldade em digerir este momento biologicamente inevitável.
A morte não é simpática, mas a vida faz-se com alegrias e percursos mais árduos, numa presunção de que vamos envelhecendo, mas não ficamos apenas ali num canto a dizer que estamos vivos sem capacidade para nos mexer. Se não quero cá estar, se o corpo me trai, por que será que não posso colocar fim à minha vida?
Em casos de sofrimento, devo dizer que não tenho qualquer reticência. Os fundamentalistas dos movimentos pró-vida, irão invocar argumentos que não tenho como entender: e se um adolescente se quiser matar com assistência? Bom, a adolescência é uma espécie de construção e destruição diária, os adolescentes pensam na morte e os que se querem matar, matam-se, não será para isso que servirá um decreto-lei certamente. Existe sempre também quem veja o aspecto financeiro da coisa. Em tempos, noutra matéria sensível, ouvi um argumento contra o referendo do aborto que era surreal: se matamos as crianças por nascer, não estamos a garantir contribuintes para o futuro, logo estamos a lesar as pensões (sem comentários). Portanto, também teremos quem pergunte porque razão deverá o Estado financiar a morte.
Ora, todos os dias, em todos os hospitais do mundo, existem pessoas que viveram vidas cheias, umas melhores do que outras, não tenho dúvida, e que chegaram ao fim para estar no tal canto que a medicina proporciona, com comprimidos para o coração, para a tensão, para dormir, para ter fome, para o colesterol, para a insuficiência cardíaca, para … e para…. Valerá a pena? Os moderados irão reclamar e bradar aos céus que cada caso é um caso.
No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar. Podemos concordar que discordamos, mas a minha morte é um assunto meu.

Se a sua morte é um assunto da Patrícia, sugiro que ela tenha uma farmacêutica sua amiga que lhe arranje um preparado mortal bem eficaz, tipo cianeto, para que se possa matar quando quiser. É que, sabe, a “eutanásia” (na verdade, suicídio assistido) só poderá ser fornecida a pessoas letalmente doentes… não será para qualquer um!
Não, não será para qualquer um – conforme a Patrícia bem explorou ao longo do texto e resumiu no parágrafo final.
E ainda assim continuará a ser um assunto de cada um.
Subscrevo.
Eu acho que só deve ser aplicada a quem está em sofrimento, e que não há mesmo nada a fazer! E aí será o médico a falar com os familiares mais próximos, e estes darem consentimento! Prq caso contrário, haverá mta morte sem razão! Qto aos adolescentes, mesmo que eles queiram, nem pensar! É trata-los psicologicamente, se necessário interna-los.
Cara Aninhas, a eutanásia, por definição, só é aplicada a quem está em sofrimento. E é decidida pela própria pessoa, não pelo médico ou pelos familiares.
Isto ainda no campo da definição, e independentemente da forma como será regulada…
Já sobre a “morte sem razão” poderia agora dissertar sobre as mortes na estrada, as mortes por falta de vacinação, as mortes por falta de assistência médica quer por falta de meios quer por falta de vontade, as mortes por falta de cuidados higio-sanitários por parte dos próprios, enfim, poderia falar de todos os que morrem sem ser porque atingido o fim da vida útil dos seus órgãos (desculpe este termo tão tecnocrático, mas sinceramente não sei que raio lhe chamarão os defensores da vida a qualquer custo mesmo que o custo seja a dignidade)… mas suponho que não era sobre esta morte sem razão que a Aninhas falava. Desconfio até que a sua “morte sem razão” significa literalmente uma morte sem razão válida para si – e é aqui que, independentemente de definições, regulamentações e crenças, a coisa empeça!!! E por coisa empeçada, leia também coisa empeçonhada – a mania que o Homem tem de tentar ver os outros à sua imagem e semelhança!
Porque a Aninhas não reconhece o direito da Patrícia a escolher como quer morrer, se e quando; apenas lhe reconhece esse direito se o como o se e o quando corresponderem ao seu, da Aninhas, conceito de razoabilidade.
Quanto aos adolescentes, ainda bem que antes dos 18 anos ninguém tem doenças graves, incuráveis e incapacitantes. Mas se, certamente por um enorme erro da gestante, algum nascer com problemas genéticos ou congénitos ou, ainda, se contrair doenças incapacitantes e incuráveis antes desta idade, serão as saudáveis Aninhas deste mundo a ter a dignidade de o manter agarrado a máquinas e a drogas legais, por muito que o desmiolado adolescente sussurre que não aguenta e os pais sofram todos os dias com a angústia de nada poderem fazer.
antes dos 18 anos ninguém tem doenças graves, incuráveis e incapacitantes
Bem, eu tenho um filho que aos 9 anos de idade foi apanhado com um cancro agressivo. Felizmente ainda não morreu (nem parece estar em vias disso), mas podia muito bem já ter morrido… Não é uma doença incurável nem incapacitante, mas pode crer que é grave…
Saiba a Sarin que, não somente há crianças com cancro, como também há cancros que praticamente só aparecem em crianças. Veja por exemplo na wikipedia o “sarcoma de Ewing”, que foi o que o meu filho teve.
Oh, senhor, leia o comentário todo e repare que foi resposta a um comentário de alguém que acha que os adolescentes só têm necessidade de psicólogo!
Eu leio o comentário todo mas também leio cada uma das suas partes. E numa dessas partes a Sarin dizia que “antes dos 18 anos ninguém tem doenças graves”, o que, infelizmente, é um disparate.
É preciso ter atenção aos detalhes e não apenas ao comentário na sua totalidade.
E sim, há crianças e adolescentes com cancro que sabem que vão morrer e que talvez quisessem ter acesso ao suicídio assistido.
Já outros o têm dito antes, estava a tentar evitá-lo, mas o Luís não me dá alternativa:
Disparate é a sua análise de cada uma das partes quando já lhe disse que o contexto é tudo.
Disparate é não perceber que o detalhe é a figura de estilo Ironia.
Disparate é, em última análise, insistir em explicar-lhe o que escrevo.
Gostei de ler. Gostava de concordar, porque também penso que cada caso é um caso.
Não sei o que o futuro me reserva e pode ser que um dia decida que tenho o direito a ” morrer com dignidade”.
Cada caso é um caso, a ser resolvido pelo próprio, não por terceiros.
“É um caso em que não podemos permitir que a lei tenha zonas cinzentas? Absolutamente. “
Isso é impossível.. Terá sempre zonas cinzentas pela natureza do que é.
O Pai ou a Mãe que não quer ser um empecilho aos filhos, a pressão política-social, etc…
Se existir eutanásia construir-se-ão hábitos e práticas. E essas vão impor-se a quem não quer.Tal como hoje é preciso optar fora da doação de orgãos e há sempre alguém muito necessitado de orgãos.
Mais tarde será preciso optar fora da eutanásia porque será a política seguida.
A natureza do tempo que corre é o Estado reclamar a Pessoa como sua propriedade.
“A natureza do tempo que corre é o Estado reclamar a Pessoa como sua “
Na eutanásia não vejo nada disso. Vejo o Estado permitir que cada um opte sobre aquilo que é mais seu. A nossa vida. O nosso corpo. E na maneira de se morrer, a nossa honra.
Quanto aos órgãos não entendi. Ninguém é obrigado a doá-los embora seja um acto de altruísmo maior ser doador. Tal como aquele que existe nos dadores de sangue.
É invadido se disser nada.
http://www.nytimes.com/2005/12/04/magazi ne/illness-as-more-than-metaphor.html
“These doctors seem inspired by a public-health model based on better health outcomes for communities rather than individuals, viewing it as the most moral and the only cost-effective way of practicing medicine. This view, often associated with the work of the medical ethicist Daniel Callahan, is increasingly influential.”
http://thepsychreport.com/essays-discuss ion/nudge-review-cass-sunsteins-why-nudg e/
“The point of the book is that people are often not the best judges of what will serve their interests, and that institutions, including government, can help people do better for themselves (and the rest of us) with small changes—nudges—in the structure of the choices people face.”
Deixo-te pesquisar sobre Cass Sustein e a influência com outros na construção do https://en.wikipedia.org/wiki/Managerial _state
Por cá começa com bolinhos. Mas isso é só o começo.
Será sempre muito complicado legislar essa matéria. Tendo em conta que somos pródigos em produzir muita legislação, sendo ela na maioria das vezes intrincada, acabando por se martelar um pouco a interpretação que o legislador tinha em mente (para o que nos seja mais conveniente). Temo que, inicialmente, porque é um tema do caraças, até se consiga aprovar o suicídio assistido. Pois haverá exemplos extremos que serão apresentados pelos defensores da eutanásia que serão extremamente difíceis de rebater por quem esteja contra (o grupo no qual me insiro). Mas, é a ideologia por de trás disto que me preocupa. É o pé na porta que se abre e já não fecha mais. Agora vamos com uma coisa soft (em termos legais), daqui a meia dúzia de anos, quando a eutanásia for mais “standard”, propomos umas coisas mais radicais. Aliás, à segurança social (e caixa de aposentações) dará imenso jeito que uns quantos “idosos”, que ainda por cima consomem imensos recursos (hospitais, tratamentos, fisioterapias, cuidados paliativos e etc., isto para além da reforma) optem por este passaporte para o jardim das tabuletas. É que as contas não são nada favoráveis para o futuro.
Os movimentos revolucionários acabam sempre a destruir o povo:
https://reason.com/blog/2018/02/08/22-ye ar-old-woman-facing-sexual-assault
“…Despite the fact that the age difference between the two is just three years, the relationship consensual—the victim initiated it, according to the arrest warrant—and neither party is a minor, this is considered a crime because Boncal held a position of authority at the school…”
É a “ideologia por trás disto”que o preocupa? Qual ideologia, a de que cada um pode decidir como viver e morrer?
É que a mim preocupam-me os argumentos que usam as dificuldades económicos como potenciadores da eutanásia, veja lá… Sabe, quem se quiser matar e se puder matar pode fazê-lo, não precisa da legalização da eutanásia para tal: um penhasco, raticida, ondas da Nazaré, águas do Tejo, enfim, a escolha é múltipla. Mas não vi os suicídios aumentarem com a crise. Nem os homicídios perpetrados por familiares, já agora… Como se coadunará tal ausência de aumento com o seu argumento?
Já passaram mais de meia-dúzia de anos sobre a legalização do aborto e ainda não vi ser aprovada uma lei que permita às famílias desfazerem-se das criancinhas que estão a pesar no orçamento familiar. Talvez porque, sendo tenrinhas, saibam bem ao pequeno-almoço e ninguém dê pelo sumiço?
Porque quem se quer e pode matar, fá-lo independentemente da lei. Tal como quem queria abortar e podia pagar o fazia antes da legalização do aborto.
Mas quem se quer matar e não pode está proibido de pedir ajuda, a menos que tenha dinheiro para uma viagem à Suiça. A “ideologia por trás disto” apenas visa reverter o “isto”.
“Já passaram mais de meia-dúzia de anos sobre a legalização do aborto e ainda não vi ser aprovada uma lei que permita às famílias desfazerem-se das criancinhas que estão a pesar no orçamento familiar.”
Mas se já estiverem na barrigada mãe já podem.
Se investigar as penas às mães que matam os filhos verá que as crianças valem pouco mais nada.
Se estiverem nas barrigas das mães são embriões ou fetos, não crianças, e as mães podem abortar até às 10 semanas sem riscos nem justificações, sim e felizmente.
As penas no filicídio são iguais às penas do matricídio do parricídio do fratricídio em situações semelhantes. Mas se julga o valor de alguém pela pena atribuída à ofensa a esse alguém, é questão sobre a qual nem adianta tentar diálogo: é um conceito tão nos antípodas da valorização da vida e da dignidade humana que apenas a inversão da rotação terrestre permitiria a aproximação do argumento.
Já se (e conhecendo-lhe a retórica é bem provável que seja esse o intuito) pretende dizer que aborto é assassínio, deixo-o a espumar as suas moralidades pseudo-religiosas e vou ali contestar a pena de morte que tantos pró-vida defendem.
São crianças
Sim obviamente que estamos nos antípoda, você não tem problema nenhuma em matar alguém simplesmente porque não se pode defender.
Moralidadades pseudo religiosas demonstra como você é formatado pelo lugar comum . Contra o aborto não tem nada que ver com religião.
Tem que ver que para matar é preciso uma razão válida. E simplesmente querer não é razão válida.
Lugar-comum é chamar criança a um embrião ou negar a influência judaico-cristã nesta apreciação da matéria. Porque a nega lhe chamo pseudo-religiosa – há quem
Um nado-vivo com menos de 24 semanas é considerado inviável pela ciência – exactamente porque toda a tecnologia existente ainda não garante o desenvolvimento de tecidos, logo de órgãos, autonomamente.
Muito gostaria eu de lhe ouvir a definição de VIDA fora da influência pseudo-religiosa… mas sinceramente não me apetece vê-lo engasgar-se no lugar comum que é este blog.
A herança judaico-cristã nada me envergonha, antes pelo contrário: Meu P. no leito de morte, vegetativo e incapaz de comunicar com os seus, nunca perdeu a sua dignidade. Nem tampouco a nossa.
A. C. Leo
Não é matéria para envergonhar ou deixar de envergonhar seja quem for. Faz parte da nossa herança cultural, sejamos crentes ou não.
A minha frase, como poderá verificar se reler, refere-se ao argumento: o significado divino da vida a obstar a legislação sobre matérias de consciência. Nada contra quem acredita na sacralização da vida – desde que não me tentem doutrinar e muito menos definir como devo encarar o meu corpo, a minha vida e a minha morte.
Tem a ideia que em alguns Países será (ou já é) possível as pessoas de idade, sem qualquer problema de saúde, pedirem eutanásia. Assim como já existem casos de terceiros a pedirem a morte de um familiar (casos de demencia). Tudo normal nesta europa. Se eu dou um pontapé no cão vou preso, se eu der veneno ao idoso fiz-lhe um favor, se eu matar o bebé na barriga da mãe estou a fazer o melhor para o futuro dele (qual futuro?)
Tudo depende do ponto de vista. A Islândia não tem crianças com down. Têm praticamente 100% de taxa de aborto quando se acha que o bebe poderá ter down. Isto é visto como uma coisa boa ou má? Eugenia? A história está cheia disso. Aliás, agora temos uma Polónia que quer alterar uma parte da história.
A questão económica foi mais uma provocação, ainda que, mesmo que ninguém o diga, dá-va imenso jeito.
Sobre o aborto, qual é a diferença entre matar um bebé na barriga ou uma criança de 3 anos? E quando é que se deixa de se chamar feto para se chamar bebé? Está definido em portaria?
Ideologia, qual ideologia….
Deixa de ser feto quando nasce.
“Pessoas sem qualquer problema” podem sofrer o problema do cansaço de viver e preferirem morrer sentados do que tentarem um suicídio que poderá tornar-se meio-suicídio e os deixará dependentes ou um suicídio que fará com que os encontrem impegnados em fluídos em vez de cheios de dignidade.
“Terceiros a pedir a morte de familiares por demência”
Há muitas demências, e as resultantes de doenças degenerativas são incuráveis, aglutinadoras de problemas de saúde vários onde a falência de órgãos é antecipada, e traduzidas numa perda de dignidade crescente e rápida.
Como disse, demências há muitas, tal como há muito quem goste de as considerar uma só para efeitos de argumento.
“Eugenia”
No dia em que o Anónimo educar, alimentar e acarinhar os meus filhos, os levar pela mão e os acompanhar nas adversidades evitando-lhes sofrimentos adicionais, eu darei à luz tantos filhos quantos gerar, e até deixarei de usar métodos contraceptivos (que, como sabe, não são infalíveis)
Até chegar esse dia, cabe-me a mim decidir que diferenças aceito e que desvantagens estou disposta a legar aos filhos que parirei. A mim, mãe, não à sociedade.
Gostaria de dizer “a mim e ao meu companheiro, progenitores” mas a sociedade não me agradece o contributo, o suportar alterações hormonais durante quase 3 anos por cada gestação – antes me penaliza e acha que eu ficar em casa é um direito meu e não também da criança gerada dentro de mim com o meu sangue e com as minhas hormonas; por isso, e apesar da feliz existência de companheiros que são ouvidos e achados na matéria, continuo a dizer “A mim, mãe”.
“A questão económica foi mais uma provocação”: queria, ou não fosse o reforço final “ainda que ninguém o diga, dava imenso jeito”!
Sim, de ideologia está o Anónimo prenhe.
Em primeiro lugar não considero a eutanásia uma opção de morte colocada à disposição de quem assim o decida usando o argumento de que a sua morte lhe pertence. Sobretudo porque, só em casos muito raros a morte pertence apenas ao próprio, não vivemos sozinhos. Se é irrevogável que cada um tem de sofrer a sua morte, isso não significa que a mesma se esgote nessa exclusividade (os outros também a vivem e nela se enredam – de outra forma é certo).
Concordo com a eutanásia em casos de sofrimento sem remédio, doenças incuráveis e letais que retiram a dignidade pessoal e roubam tudo, deixando cada um à mercê da dor e da boa vontade de outrém. Casos desta natureza provocam sofrimento no próprio e nos que o amam e o rodeiam.
A vida, Patrícia, não é apenas o que cada um quer. E a morte, sendo ainda relacionada com ela, porque a fecha e encerra, também não. Mas, em alguns casos, pode ser humanizada e menos atroz. E só nesses poderá ser usada a eutanásia, a pedido do próprio. A questão de familiares a decidirem por alguém parece-me perigosa.
E sempre lhe vou dizendo que, quando não possa apreciar a música e nem possa ou queira ler ou sair à rua, talvez já não tenha poder de decisão. Ou tem-no ainda mas não quer morrer e prefere a carrada de medicação que a ajuda a estar viva. Porquê? Ora, Patrícia, porque, ao longo da vida, a gente muda muito e vai ajustando as expectativas ao possível. O que a Patrícia deseja aos 50 não é o mesmo desejo dos 80.
Espero que a legislação sobre o tema seja prudente mas clara. Que vingue. Deixemos que os defensores da vida a qualquer preço se escandalizem à vontade. Se só se utiliza em casos extremos e por decisão do próprio, por que carga de água se sentem assim ofendidos esses espíritos?!
Aquilo que Patrícia fala é suicídio.
Cada um de nós manda na sua morte, somos livres para nos suicidarmos.
A suposta eutanásia é mais um “rame-rame” de pessoas que passam pala vida sem coragem para decidir nada e até a morte a morte tem de ser decidida por outros. Com a corajosa máscara do: “eu dou autorização para o sr. dr. me suicidar”.
Se quer matar-se; mate-se. (não é necessária lei para isso)
Mas é necessária autonomia, qualidade que falta a quem, por exemplo, está imobilizado numa cama.
Caramba, que facilidade em julgar os outros! Cobardia da ponderação em aparecer na discussão, talvez?
Veja o “Mar Adentro” está lá tudo.
Para isto:
«No dia em que a minha vida for exclusivamente uma visão de caixas de comprimidos, sem trabalho, sem capacidade de leitura, de apreciar música, de sair à rua, pois não quero cá estar.» há remédio.
O suicídio.
“Há remédio. O suicídio.”
Se a sua condição física lho permitir. Estando imobilizado dentro do seu próprio corpo só lhe resta o suicídio assistido.
“Há remédio. O suicídio.”
E quem o viu definhar em si mesmo que lhe limpe o sangue a espuma a merda em que afundará o seu último suspiro em vez de se despedir, em vez de o ver partir placidamente.
“Há remédio. O suicídio.”
E quem fica que fique com as dúvidas, com as suspeitas.
Há remédio: só quero poder escolher qual.
Minha cara, acho que expliquei bem, só para que esteja em sofrimento, e não se possa fazer mais nada! Qto a ser a própria pessoa a decidir, depende como o paciente está, se está consciente ou não! Como vi meu cunhado a vegetar e sem noção de nada, neste caso teria que ser a mulher e o filho a autorizar! Qto aos adolescentes, a mesma situação! Mas quem percebe aqui do assunto é você. PARABÉNS. E vá de porrada nos analfabetos.
Explicou muito bem, “aos adolescentes é dar-lhes apoio psicológico e até interná-los”.
As suas experiências são suas, e lamento-as tanto como lamento as minhas e dos meus ou de outros.
Mas também lamento que a Aninhas imponha “razão válida” a matéria que apenas respeita ao próprio, por muito que afecte outros.
Porque é neste validar de razões que a Aninhas não apenas não é clara como ainda retira a cada indivíduo o poder de decisão: quem define o nível de sofrimento? Quem o julga razão válida? Como e onde se estabelece o limite de dignidade admissível – ou a perda de dignidade não constitui sofrimento?
O meu comentário para si, ambos aliás, não têm a ver com sabedoria ou desconhecimento – têm a ver com a Aninhas achar que tem o direito de decidir por mim. Não tem.
Como diz a Patrícia, a minha morte é um assunto meu.
Minha senhora, pela minha parte está autorizada a matar-lhe logo que lhe dê na real gana.