Reservado o direito de admissão


Pedro Correia,

 

Sou do Sporting. Mas não sou surdo. E muito menos cego. O Sporting, sou o primeiro a reconhecer, mal tem equipa para disputar este ano o quarto lugar do campeonato. Custa-me concluir isto, mas há que dizer a verdade. Tenho, portanto, torcido pelo Sporting de Braga. Conseguirá manter até ao fim o excelente nível que tem exibido? Espero bem que sim. Entretanto considero vergonhoso que nenhum dos programas televisivos dedicados aos debates “desportivos” (onde o futebol é sempre, e só, a única modalidade desportiva em discussão) tenha incluído até agora, nos seus painéis de comentadores, um representante permanente do Sporting de Braga. Continuam a ser sempre os mesmos três clubes representados nestas intermináveis sessões de bate-boca sobre a bola. Como se não houvesse mais nenhum outro clube em Portugal. Como se o Sporting de Braga não tivesse sido, desde o início do actual campeonato, um claro candidato ao título.

Percebo bem a lógica destes canais de televisão – incluindo o canal público, que devia ter obrigações acrescidas nesta matéria. Há que manter intacto o sistema, há que fazer tudo para continuar a fingir que o futebol português se resume a dois clubes de Lisboa e um clube do Porto.

Como se o resto do País só fosse paisagem.

Como se Braga, apesar do seu clube tão emblemático e tão digno de elogios, não fizesse parte do mapa desportivo português.

D. Branca Ferreira Leite


jmmcc,

Em pleno zapping, passo pela SIC e apanho já em andamento uma série de pessoas conhecidas a opinar sobre a presença de políticos de primeiro plano (não sei se temos políticos de primeiro plano, mas adiante) no programa do Gato Fedorento. De repente, dou com um que diz ter ficado especialmente surpreendido com Manuela Ferreira Leite, pelo sentido de humor que revelou e… pelo «imediatismo» com que reagiu às perguntas.

Lembrei-me das consecutivas brancas da líder laranja naquele programa e parei para pensar. Mas logo concluí que foi verdade: o prolongado silêncio de cada branca foi sempre imediatamente a seguir a cada pergunta.

Televisão: quinze inesquecíveis


Pedro Correia,

 

A Rita desafia-me a indicar quinze programas ou séries de televisão que considero inesquecíveis. Aqui ficam, na medida do possível por ordem cronológica. Podia enumerar muitas outras, de Viver no Campo a 24, passando pelos Inquéritos do Comissário Maigret e os Simpsons, ou A Música e o Silêncio, do maestro António Victorino d’ Almeida. Sem esquecer os momentos inesquecíveis que o futebol me deu, como aquela meia-final Portugal-França do Europeu de 1984. É que eu já vejo TV há muito tempo…

 

Bonanza

All in the Family / Uma Família às Direitas

Columbo

Monty Phyton Flying Circus / Os Malucos do Circo

A Visita da Cornélia

Gabriela

Dallas

O Tal Canal

Yes, Minister / Sim, Sr. Ministro

Roque Santeiro

Moonlighting / Modelo e Detective

Anos Dourados

Twin Peaks

X Files / Ficheiros Secretos

Os Sopranos

 

ADENDA: Tinha-me esquecido de passar a corrente. Aqui vai. À Maria Inês, à Sofia, à Ana Cristina, ao Lourenço, ao Tomás e à Maria João.

O ser e o nada


Pedro Correia,

  

Jade era uma rapariga inculta, sem instrução, nascida e criada numa família desestruturada. O pai drogava-se, a mãe também. Os horizontes dela esgotavam-se num sonho: a fama televisiva. Conquistou-a, num desses concursos que fabricam celebridades como se fossem pudins instantâneos. Jade apareceu na pantalha, sentiu-se realizada. Mostrou-se tal como era a milhões de espectadores: uma jovem inculta, grosseira. Insultou outra concorrente do programa com epítetos racistas, tornou-se a rapariga mais odiada da Grã-Bretanha. Exibindo tudo em directo – a grosseria, os modos suburbanos, a falta de instrução, o analfabetismo funcional. Chamaram-lhe todos os nomes.

Um dia adoeceu. Também em directo. O veredicto médico desenganou-a, ela chorou lágrimas verdadeiras defronte das câmaras que a devassavam. Tornou-se a rapariga mais amada da Grã-Bretanha. Todos sentiram pena dela. Decidiu casar em directo, já com as marcas da doença bem visíveis. Todo o país reparou nela: uns fizeram-lhe elogios, outros também. Um dia destes morreu. Depois de uma agonia também registada quase em directo. O povo chorou lágrimas verdadeiras por ela, até o primeiro-ministro lhe prestou um comovido tributo.

Era uma rapariga inculta, de horizontes estreitos, igual a tantas outras de tantos outros subúrbios de tantos países. Só tinha um sonho: ser famosa. Concretizou esse sonho simplesmente por aparecer na televisão. Em directo, sempre em directo. Nos dias de sorte e também nas horas amargas do infortúnio.

Jade era uma rapariga vulgar. E também um perfeito símbolo do nosso tempo, em que ser é aparecer. Há milhões de Jades por aí. Sonham com a fama instantânea, com a celebridade sem esforço, com o dinheiro caído do céu. Devassadas no ecrã. Amadas e odiadas no ecrã. Vivendo e morrendo no ecrã, para o ecrã, pelo ecrã. E em directo, sempre em directo.