Jade era uma rapariga inculta, sem instrução, nascida e criada numa família desestruturada. O pai drogava-se, a mãe também. Os horizontes dela esgotavam-se num sonho: a fama televisiva. Conquistou-a, num desses concursos que fabricam celebridades como se fossem pudins instantâneos. Jade apareceu na pantalha, sentiu-se realizada. Mostrou-se tal como era a milhões de espectadores: uma jovem inculta, grosseira. Insultou outra concorrente do programa com epítetos racistas, tornou-se a rapariga mais odiada da Grã-Bretanha. Exibindo tudo em directo – a grosseria, os modos suburbanos, a falta de instrução, o analfabetismo funcional. Chamaram-lhe todos os nomes.
Um dia adoeceu. Também em directo. O veredicto médico desenganou-a, ela chorou lágrimas verdadeiras defronte das câmaras que a devassavam. Tornou-se a rapariga mais amada da Grã-Bretanha. Todos sentiram pena dela. Decidiu casar em directo, já com as marcas da doença bem visíveis. Todo o país reparou nela: uns fizeram-lhe elogios, outros também. Um dia destes morreu. Depois de uma agonia também registada quase em directo. O povo chorou lágrimas verdadeiras por ela, até o primeiro-ministro lhe prestou um comovido tributo.
Era uma rapariga inculta, de horizontes estreitos, igual a tantas outras de tantos outros subúrbios de tantos países. Só tinha um sonho: ser famosa. Concretizou esse sonho simplesmente por aparecer na televisão. Em directo, sempre em directo. Nos dias de sorte e também nas horas amargas do infortúnio.
Jade era uma rapariga vulgar. E também um perfeito símbolo do nosso tempo, em que ser é aparecer. Há milhões de Jades por aí. Sonham com a fama instantânea, com a celebridade sem esforço, com o dinheiro caído do céu. Devassadas no ecrã. Amadas e odiadas no ecrã. Vivendo e morrendo no ecrã, para o ecrã, pelo ecrã. E em directo, sempre em directo.


É mesmo assim, Pedro.
Um abraço
Infelizmente assim é, Fátima.
(Gosto de a ver por cá.)
Triste, muito triste, mas é mesmo como escreveste.
Excelente texto.
É uma espécie de demência colectiva em que se vive, esta obsessão pela fama e pelos famosos e pela imagem e pelo sucesso.
É, Teresa. E a culpa é também do público, sempre sofregamente à espera de novas devassas da vida alheia. E de todos nós, que não nos indignamos suficientemente com isto.
Este seu óptimo post, Pedro, sintetiza bem o que é o desequilibrio, a desorientação e a fragilidade emocional das actuais sociedades, ditas da «informação». O que ainda ontem era odiado, amanhã é já idolatrado, o que na semana passada era óptimo, hoje já não tem qualquer valor. A volatilidade de sentimentos e a superficialidade das convicções são confrangedoras. Tudo é sacrificado a um fugaz minuto de fama em que, tal como diz, «o aparecer é ser», nem que seja para não se ser coisa nenhuma…
Sinais dos tempos.
Sinais dos tempos, sem dúvida. Obrigado, Luís.
Certíssimo, Pedro. E tristíssimo, também.
Tristíssimo sem dúvida, Ana.
angustiante, sem duvida!..
gostei muito de ler a sua análise.
Obrigado, Júlia.
Absolutamente, caro Pedro. É um caso verdadeiramente arquetípico de uma “certa modernidade” onde se é famoso porque se aparece, e onde se aparece porque se é famoso. Gostei também que destacasse o próprio paradoxo da vida da senhora, odiada e amada sem que existissem motivos para cada um desses comportamentos extremados – o que nos reenvia para a sociedade instantânea, “irreflexiva” e imediatista em que vivemos, onde não há pensamento, mas apenas opiniões, onde não há análise, só emoções. Um abraço!
Ser é aparecer, meu caro. Cada vez mais.
Abraço
É a arena transformada em ondas electromagnéticas e pixéis . É a mesma sede de um povo infeliz que quer julgar e ver sofrimento, para se sentir um pouco melhor com o seu vazio. É alguém que manipula, pois um povo entretido não reclama.
Diz bem, Helena: um povo entretido não reclama. Pão e circo, pão e circo…
Absolutamente real este teu texto Pedro. Em directo.
Infelizmente, o virtual é cada vez mais real, Once.
Excelente post, Pedro. Hoje em dia, uma pessoa só existe se “aparece”, mas de um momento para o outro passa de desprezível a heroína, ou vice-versa. Efeitos de uma sociedade excessivamente mediática, que realça contardições e incoerências. Não fosse alguém “aproveitar-se” da sua doença, talvez o resultado final tivesse sido outro.
Como jornalista, não há dia nenhum em que não pense que também somos responsáveis por este tipo de comportamentos, se não respeitarmos a profissão.
Tens toda a razão, Carlos: como jornalistas, temos o dever acrescido de criticarmos esta comunidade de ‘voyeurs’ que está a crescer à nossa volta, à boleia de tantos ‘media’.
Obrigado pelas tuas palavras.
Abraço