pega na bicicleta e vai


Patrícia Reis,

2015-05-29-Bicicleta-1junho[1].jpg

Gemuce pensou na instalação como um organismo vivo, em movimento. Como uma bicicleta. O artista moçambicano não queria apenas explorar a ideia do selim, desse banco portável que nos leva em cima de duas rodas. Queria um pouco mais e a instalação foi crescendo. É uma metáfora da vida que não precisa de explicação. A vida não precisa de orientações específicas, vive-se. Pega-se na bicicleta e vai-se.

o álcool que a lei deixa


Patrícia Reis,

2015-05-22-O-alcool-que-a-lei-nao-deixa[1].jpg

A miúda não entende a razão para não beber shots. A idade parece-lhe ser a apropriada. A lei diz que não. Tentou no primeiro bar. Depois decidiu tentar a sorte com uma amiga que parece mais velha. Nada. Sentada no lambril do passeio, as unhas dos pés pintadas de preto exibem-se com orgulho nas sandálias compensadas. Um rapaz com um sorriso torto mostra-lhe uma garrafa de litro de vinho e pergunta:

 “Queres?”

É sexta-feira à noite. É a noite. Só precisa de estar em casa às duas da manhã. Fica a olhar para o rapaz mais velho. É uma pena não gostar de vinho.

livros insuportáveis


Patrícia Reis,

A insónia tinha várias origens e a mulher contabilizava as ralações enquanto passava os olhos por um livro. Fazia questão de trazer um livro consigo, para matar o tempo, para não ter de falar com ninguém. É conveniente. As pessoas respeitam e, ao mesmo tempo, acha ela, confere um certo estatuto. Pelas noites, os livros são apenas objectos nervosos que não a acalmam, as letras a pularem umas nas outras, como quem joga num trampolim, a mulher incapaz de se concentrar numa única frase. Insiste. Não quer pensar no futuro, na decisão que terá de anunciar aos filhos no fim de semana. É melhor voltar ao princípio do livro. Ir para um lar não é nada de extraordinário. Talvez extraordinário seja o facto de ser ela, aos oitenta e dois anos, a decidir que vai sem pedir opinião. Terão biblioteca no lar? Ou será que lhe chamam casa de repouso? A insónia permanecerá. Não consegue dizer o nome do personagem principal do livro que tem nas mãos, mas sabe de cor o horário das visitas do lar.

 

vende-se vinho


Patrícia Reis,

O Senhor Adriano tem poucas coisas. Diz ele. Vende o vinho que faz lá atrás, num anexo que não tem nome, não é adega, nem lagar, nem casa de arrumos, serve para o que for. Depende da altura do ano. O Senhor Adriano gosta de conversar, em especial com o Pirolas, o cão minúsculo e nervoso que anda sempre a rondar. Diz-me

 “Sabe, o Pirolas também gosta de uma pinga de vinho. Quer experimentar?”

O homem, vizinho por circunstâncias especiais, estadia que se prevê de curta duração, sorri e encolhe os ombros. É o mesmo que dizer

 “Vamos lá a isso.”

2015-05-22-Beba-beba[2].jpg

 

brilha apesar da maldade dos outros


Patrícia Reis,

 

Fictiongram

 

Deixa-te vestir de escuridão apenas para fora e ninguém verá que brilhas, podes tudo, pensa devagar, pensa depressa. Faz por dentro e mantém os gestos banais que te garantem o lugar no grupo, na dinâmica de grupo que brada pelo direito à diferença, mas que não tolera o que é impossível de descodificar. Constrói em ti sem ninguém ver. Aprende o sabor das palavras, uma a uma, cada letra com o seu sabor e, antes de dizeres em concordância com o mundo o que é suposto, ou apenas político e correto, invade-te com a verdade que ninguém entenderá. Importa pouco o que o mundo quer que sejas, sê para ti e tudo se tornará mais fácil. Brilha por dentro. Cá fora faz frio. Acredita em mim.

 

2015-05-15-Brilha-por-dentro-para-26-maio[1].jpg

 

Só sinto asco por si


Patrícia Reis,

A senhora irrita-me, nem penso em si como uma senhora, tudo me enerva: o que faz, o que acha que pode fazer, a vergonha de a deixarem fazer. E a senhora faz e eu, todos os dias, vou ver se a senhora continua a fazer o que me irrita e não posso deixar de partilhar com os meus amigos, de comentar a desgraça deste país que dá espaço a pessoas como a senhora, a senhora com o seu tom de voz arrepiante, as suas palavras ocas. Não tenho qualquer pretensão em fazer o que faz, não pense, nada disso, custa-me a sua existência e perco o meu tempo consigo por saber que ficarei de novo renovado na minha irritação. Não resisto a vê-la todos os dias, a gastar tempo a pensar no que podia ser e não é. A senhora não sabe quem eu sou e ignora este meu desvelo consigo, um desvelo que nada deve ao romantismo, apenas ao asco. Eu não podia imaginar que o asco dava tanto trabalho.

só isso


Patrícia Reis,

Sim, a mulher concordou, a vida é só isso. A personagem do filme interrogava-se e ela nem por isso, o filme era uma treta, a vida era o que era. Só isso? Pois, só isso. A ignorância era uma bênção, tinham-lhe garantido. O “só isso” era uma forma assertiva de manter a ignorância. A ver se a dor se afasta.

Lisboa no coração


Patrícia Reis,

O casal de turistas chegara a Lisboa para ver se se mantinham como casal, se sobreviviam ao desgaste de dez anos de relação, de equívocos, de imensos silêncios. Na Baixa Pombalina, cada um em seu passeio, viram as montras, compraram algumas recordações sem importância. Olharam o rio e o arco da Rua Augusta e passaram o dia inteiro a passear sem trocar uma palavra digna desse nome. Quando voltaram ao seu país, elogiaram Portugal, a comida, o vinho e recordaram uma viagem idílica que nunca  existiu. Mostraram as fotografias e garantiram, via twitter, via facebook, que a viagem foi uma lua-de-mel. Francamente, Lisboa merecia um casal melhor.

 

estás tão atrasado, estúpido


Patrícia Reis,

O relógio mostra e garante o massacre do tempo, a impossibilidade de gerir melhor a vidinha, os horários, as obrigações, por isso, perto das dez da manhã, o homem pensou que já tinha subido o Everest. A saber: acordou os filhos, deu-lhes pequeno-almoço, levou-os à escola, foi ao dentista e rumou ao emprego com a cara ainda dormente. Em surdina, só para si, olhando para o relógio castigador, lamentou a estupidez de não conseguir paralisar os segundos. Ele? Estava anestesiado, só não conseguia parar de pensar que estava atrasado. Estúpido, concluía.

imv-2-308-791-img4059-1580[1].jpg

só pode usar a casa de banho se for cliente, sim?


Patrícia Reis,

sim, sim, mas olhe que eu vou fazer nas calças, pela simples razão de que ao fim de oito meses de gravidez será complicado ser cliente primeiro e urinar a seguir, portanto aconselho vivamente o seguinte: alguém vá buscar uma esfregona. E traga-me uma garrafa de água, se faz favor, sim? Natural, sem gás.

imv-2-308-776-img4086-fc12[1].jpg

Vai à carteira


Patrícia Reis,

img1456-cdda[1].jpg

 

 Tinha tudo.

A carteira com os cartões, o pequeno porta-moedas vermelho, um bloco, duas canetas, as chaves de casa, as chaves do carro, a carta da edp para pagar no multibanco, um batôn sem história, uma lima para as unhas, um rebuçado de mentol.

Não tinha nenhum dinheiro na carteira, apesar disso enfrentou o centro comercial com o seu melhor ar, imaginando-se poderosa.