Frases do debate presidencial


Pedro Correia,

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Filllon, Macron, Mélenchon, Le Pen e Hamon ontem na TF1 (foto Le Figaro)

 

Aqui ficam as principais frases do primeiro debate televisivo entre cinco dos onze candidatos presidenciais em França, ocorrido ontem à mesma hora em que os canais “noticiosos” portugueses, totalmente alheados do assunto, preenchiam tempo de antena com intermináveis blablablás sobre futebol:

 

Benoît Hamon: «Quero pôr fim à democracia intermitente, por uma Europa que esteja libertada do dogma da austeridade.»

«Defendo um novo pilar da protecção social, com o rendimento básico universal.»

«Serei um Presidente justo, que porá fim às políticas feitas pelos mesmos de sempre.»

«Serei independente de todos os lóbis.»

 

Emmanuel Macron: «Pretendo proteger o povo francês sem o dividir.»

«Sou capaz de trazer de novo a esperança.»

«Defendo um projecto de alternância profunda, com novos rostos e novos hábitos.»

«Sou favorável à lei de 1905, pela separação da Igreja e do Estado.»

 

François Fillon: «Um francês que vá para a Síria fazer guerra contra nós deve ser privado da nacionalidade francesa.»

«A escalada do fundamentalismo ameaça a sociedade e a própria religião muçulmana.»

«Comigo a França será daqui a dez anos a primeira potência europeia.»

«A nossa saída da zona euro, como defende Marine Le Pen, mergulharia o país no caos económico.»

 

Jean-Luc Mélenchon: «Quero devolver a França aos franceses, libertando-os da monarquia presidencial.»

«Serei o último Presidente da V República. Quero alterar todas as regras.»

«É preciso castigar os corruptos, mas também os corruptores.»

«Comigo sairemos da NATO.»

 

Marine Le Pen: «Temos de declarar guerra total ao fundamentalismo islâmico.»

«Quero ser a Presidente francesa, não quero ser vice-chanceler da senhora Merkel.»

«A segurança é fundamental. Sem paz nas escolas nenhuma aprendizagem é possível.»

«Comigo todas as decisões serão tomadas de acordo com a vontade do povo francês.»

As eleições presidenciais francesas.


Luís Menezes Leitão,

Há uma coisa que me tem surpreendido em absoluto nos últimos tempos: a total falta de profissionalismo na condução das campanhas eleitorais. Mesmo na América, onde as campanhas eleitorais são habitualmente conduzidas com enorme eficácia, Hillary Clinton fez uma campanha desastrosa, acabando por perder a eleição.

 

Em Franca, no entanto, parece que isto atingiu o absurdo total, estando todos os candidatos a dar sucessivos tiros no pé, parecendo que a única coisa que querem garantir a eleição a Marine Le Pen. O último episódio é esta entrevista de Macron. Será que ele acha mesmo que este discurso é a resposta adequada a esta campanha da sua adversária principal? Depois não estranhem o resultado.

Que regras tem este jogo?


enlil,

 

É altura de rever “La Règle du Jeu“ de Jean Renoir. Parece impossível, mas aprende-se muito com o passado. O filme foi estreado em 1939, o ano que hoje sabemos ter sido aquele em que a Europa morreu para o mundo e talvez por isso, pela desvairada ilusão em que todos viviam, literalmente todos, dos comunistas aos fascistas com tudo o que havia pelo meio, suscitou a execração geral.

Porque foi tão odiado então um filme que depois viria ser tão obviamente amado? Porque por exemplo há um estupefacto marquês que a dado passo tem a lucidez e a impotência de dizer: “O que é terrível nesta terra é que todos têm as suas razões”. Tinham, como nesse Outono de 39 se começou a perceber, ou seja, ninguém tinha razão nenhuma porque menos com menos só resulta em mais desgraça.

Rever “La Règle du Jeu” ajuda a desconfiar do poder e da virtude prometida pelo novo senhor que se sentou à mesa no château de França. Quando o marquês do filme se enfada de vez com a confusão instalada no castelo ordena ao criado: “faites cesser cette comédie”, ao que este, sonso e arguto como todos os servos, lhe contesta: “laquelle, Monsieur?”

Vejam como nos pusemos: de boné torcido nas mãos à espera de uma palavra do marquês de Hollande que nos mude o destino, que dele venha um gesto de compreensão e misericórdia com o nosso penar. E enquanto nos prostramos na soleira do portão, negligenciamos que ao fundo do quintal se vai armando uma patuleia de muito má índole. O que sucedeu na Grécia é bem mais feio e decisivo do que as prováveis hesitações do futuro Hollande, porque a barafunda, como se sabe e é patente, grassa sempre das periferias para o miolo.

Serão as ilusões de 39 outra vez? “lequelles, Monsieurs?”

Pauvre mec.


vidabreve,

É um triste sinal da velhice, alguém manter a verrina enquanto descuida o estilo e abandona a inteligência. Vasco Pulido Valente dedica a sua crónica de hoje à tentativa frustre e atordoada de persuadir o leitor que Hollande  “não mudará a Europa”.  Como se Hollande não tivesse mudado a Europa no próprio minuto em que venceu: bastou-lhe não ser Sarkosy. Nesse minuto, a cumplicidade entre os Governos francês e alemão acabou. Merkel está só. A segunda potência europeia escolheu outro caminho. Nenhuma birra, nenhum azedume altera a realidade.

As eleições francesas.


Luís Menezes Leitão,

 

Estive há dias em Paris, cidade que muito aprecio. Ao passar junto ao Arco do Triunfo assisti a um desfile em homenagem a antigos combatentes da II Guerra Mundial, em que a assistência denotava um patriotismo profundo e um enorme respeito pelo sacrifício dos antigos combatentes. Pensei logo no contraste com a política actual de Sarkozy, que se tem assumido na esfera internacional como um autêntico fantoche de Angela Merkel, e o que isto deveria fazer lembrar os franceses o regime de Vichy. A partir daí fiquei convencido que Sarkozy tinha tantas hipóteses de ganhar as eleições como a Torre Eiffel de dançar o samba. Os resultados de domingo passado confirmaram a minha opinião. Hollande pode ser um candidato fraquíssimo e a sua política económica um disparate total, susceptível de conduzir a França ao desastre. Mas o facto de ter batido o pé à Alemanha na questão do tratado orçamental vai seguramente dar-lhe o voto dos franceses na hora final.

 

Também não foi surpresa para mim a votação de Marine Le Pen, que sempre considerei muito mais perigosa do que o pai. Na verdade, Marine Le Pen está a conseguir quebrar o bloqueio do regime à Frente Nacional, que levava a que, mesmo com votações na ordem dos 15%, ela não contasse no espectro político francês. Na única vez em que Jean-Marie Le Pen, devido a uma divisão da esquerda, conseguiu passar à segunda volta, todos os partidos se uniram em redor de Chirac, dando-lhe uma votação albanesa de 84% dos votos. Mas agora, com a votação da extrema-direita perto dos 20%, a direita tradicional vai querer pescar os votos da Frente Nacional, como se viu com o discurso de Sarkozy na primeira volta e que agora vai acentuar na segunda. O resultado disto pode ser uma catástrofe para a direita francesa, que se pode ver obrigada a integrar a Frente Nacional.

 

Tudo isto só demonstra o desastre aonde Sarkozy conseguiu conduzir a direita francesa. Infelizmente não me consigo recordar de um presidente francês pior. Só espero que Hollande não o venha ainda a superar.

 

A nostalgia da grandeza perdida


Pedro Correia,

 

Outros dirão provavelmente que o resultado da primeira volta das presidenciais de ontem em França foi bom para a Europa. Não é o meu caso. Quase um terço dos eleitores, que acorreram em grande número às urnas, exprimiram com clareza um voto anti-europeu.

É certo que o peculiar sistema eleitoral francês potencia o voto de protesto na primeira volta. Mas se somarmos os 6,4 milhões de eleitores de Marine Le Pen (que conduziu a Frente Nacional ao seu melhor resultado de sempre) aos quatro milhões de Jean-Luc Mélenchon, representante da Frente das Esquerdas (o equivalente gaulês do Bloco de Esquerda), verificamos que cerca de um em cada três franceses renega o essencial do projecto europeu tal como foi desenhado no último meio século. No todo ou em grande parte, estes eleitores querem que o país abandone o euro, renegue Schengen, rasgue o Tratado de Lisboa. Defendem o “patriotismo” monetário, o proteccionismo económico, o controlo estatal do aparelho produtivo. Renegam a disciplina financeira. Exigem a reforma aos 60 anos e a subida do salário mínimo para os 1700 euros como se vivessem numa ilha, separada do continente, numa irreprimível nostalgia daquelas três gloriosas décadas – entre 1945 e 1975 – em que a França, grande potência industrial e agrícola, era um dos motores da economia mundial, com índices anuais de crescimento do produto interno bruto que ultrapassavam os 5% (mantendo-se nos 5,8% entre 1959 e 1973).

Esses tempos passaram, provavelmente para sempre. Vista de outras parcelas do globo, observada por chineses ou brasileiros, a Europa é hoje um continente em irreprimível declínio. A França deixou de desempenhar o relevante papel cultural que durante séculos assumiu no mundo e não o retomará com bravatas retóricas. Nem François Hollande (28,3%), com o seu socialismo descafeinado, nem Nicolas Sarkozy (27,2%), o mais errático dos conservadores europeus, conseguirão alterar nada de essencial – suceda o que suceder na segunda volta, com os eleitores de Marine a servirem de fiéis da balança.

“A extrema-direita, com quase 20% na França do século XXI, é o resultado da crise económica, política e moral”, alertou o candidato centrista François Bayrou, que obteve uns decepcionantes 9,1%. É a voz da razão. Mas cada vez menos querem ouvi-la nos dias que vão correndo, em que tudo serve de pretexto – à esquerda e à direita, com a cumplicidade activa das candidaturas do “sistema” – para enterrar o projecto europeu. Todos teremos a perder com isso. E, como é de prever, só perceberemos tarde de mais.

Publicado também aqui

ADENDA de 26/4:

Jorge Almeida Fernandes, no Público: «A “questão da Europa”, sempre latente em França, volta a ser central. Note-se que, entre extrema-direita e extrema-esquerda, mais de um terço do eleitorado pôs directamente em causa a Europa.»

Le fond de l’air est frais


enlil,

 

É só para dar uma noticiazinha de rodapé que parece ter ficado esquecida: voltem a pôr a rolha no champagne, Carla Bruna deverá morar mais 5 anos no Eliseu (e Sarkozy também). Para Portugal isto nem é bom nem é mau, ou alguém ainda se iludirá com a hipótese de Hollande defender uma política europeia para a França (esta frase é assim mesmo) diferente da actual?

Eleições francesas: Lalallande ou Ohlalallande?


Rui Rocha,

Numa eleição, a insuficiência de argumentos pode ser suprida pelo carisma dos candidatos. Mas nesta eleição defrontam-se Sarkozy e Hollande. Não têm ponta de carisma por onde um eleitor lhes possa pegar. Sarkozy tem defeitos. Hollande não tem qualidades. Sarkozy não agrada. Hollande não convence. Sarkozy não cumpriu as promessas que fez. Hollande faz promessas que não pode cumprir. Perante isto, Hollande vai vencer. As eleições ganham-se ao centro. Para sobreviver na 1ª volta, Sarkozy andou em ziguezague, mas encostado à direita. Em nome dos fins, perdeu o meio. Não o vai recuperar. Criou anticorpos onde Hollande recolhe indiferença. Os anticorpos são insuperáveis. A indiferença admite um voto de olhos fechados. A avaliação que o eleitor comum pode fazer sobre Hollande não é positiva. A que faz sobre Sarkozy é negativa. O voto do mal menor vai prevalecer. O melhor virá no dia seguinte. No momento em que Hollande for confrontado com as suas promessas. Ou tenta cumpri-las e desgraça a França, transformando-a na Lalallande, ou não as cumpre e desgraça-se, transformando-se a si próprio em Ohlalallande. De uma maneira ou de outra, o estado de graça do futuro Presidente de França dura exactamente até à noite de 6 de Maio. Sarkozy não merece tanto.

Obviamente Dominique de Villepin.


Luís Menezes Leitão,

 

Fico muito satisfeito com este anúncio da candidatura de Dominique de Villepin à presidência da França. Assisti uma vez a uma comunicação de Villepin e fiquei convencido que teria sido muito melhor presidente do que Nicolas Sarkozy. Este foi um desastre total como presidente francês, tendo transformado a França num mero compaignon de route da Alemanha, quase parecendo o Marechal Pétain da Senhora Merkel. Não admira, por isso, que todas as sondagens coloquem Hollande muitos pontos acima de Sarkozy. Se a direita francesa não quer perder as presidenciais, não pode continuar a apoiar Sarkozy. Villepin é o homem certo para restituir à França o papel que ela deve continuar a desempenhar na Europa.