
Estive há dias em Paris, cidade que muito aprecio. Ao passar junto ao Arco do Triunfo assisti a um desfile em homenagem a antigos combatentes da II Guerra Mundial, em que a assistência denotava um patriotismo profundo e um enorme respeito pelo sacrifício dos antigos combatentes. Pensei logo no contraste com a política actual de Sarkozy, que se tem assumido na esfera internacional como um autêntico fantoche de Angela Merkel, e o que isto deveria fazer lembrar os franceses o regime de Vichy. A partir daí fiquei convencido que Sarkozy tinha tantas hipóteses de ganhar as eleições como a Torre Eiffel de dançar o samba. Os resultados de domingo passado confirmaram a minha opinião. Hollande pode ser um candidato fraquíssimo e a sua política económica um disparate total, susceptível de conduzir a França ao desastre. Mas o facto de ter batido o pé à Alemanha na questão do tratado orçamental vai seguramente dar-lhe o voto dos franceses na hora final.
Também não foi surpresa para mim a votação de Marine Le Pen, que sempre considerei muito mais perigosa do que o pai. Na verdade, Marine Le Pen está a conseguir quebrar o bloqueio do regime à Frente Nacional, que levava a que, mesmo com votações na ordem dos 15%, ela não contasse no espectro político francês. Na única vez em que Jean-Marie Le Pen, devido a uma divisão da esquerda, conseguiu passar à segunda volta, todos os partidos se uniram em redor de Chirac, dando-lhe uma votação albanesa de 84% dos votos. Mas agora, com a votação da extrema-direita perto dos 20%, a direita tradicional vai querer pescar os votos da Frente Nacional, como se viu com o discurso de Sarkozy na primeira volta e que agora vai acentuar na segunda. O resultado disto pode ser uma catástrofe para a direita francesa, que se pode ver obrigada a integrar a Frente Nacional.
Tudo isto só demonstra o desastre aonde Sarkozy conseguiu conduzir a direita francesa. Infelizmente não me consigo recordar de um presidente francês pior. Só espero que Hollande não o venha ainda a superar.

Mitterrand foi pior que Sarkozy. Levou a França à quase bancarrota – Sarkozy vai pelo mesmo caminho mas com mais problemas de fundo-, deu o pontapé de saída para a Frente Nacional com avanço de uns anos e isto quando tinha ainda muitas vantagens do passado que já desapareceram.
No tempo de Miterrand a França tinha uma posição, se não superior, pelo menos igual à da Alemanha na Europa. É um facto que Miterrand favoreceu a Frente Nacional quando introduziu o sistema proporcional, mais isso visou a destruição da direita, que era o seu objectivo como político de esquerda. Sarkozy, sendo de direita, está a fazer o mesmo, a destruir a direita, graças a autênticos tiros no pé, o principal dos quais é a forma como se subordinou aos caprichos alemães-
Onde está o problema da “direita” francesa integrar a Frente Nacional?
E porquê a diabolização, polìticamente correctíssima e muito, mas mesmo muito “air du temps”, de Marine Le Pen?
É pelo que a senhora diz ou pelo que ( os seus inimigos) dizem dela?…
Um dos dogmas da V República era o isolamento da Frente Nacional, pelo que uma direita francesa que a integre será uma direita muito diferente daquela que temos conhecido. Dito isto, não diabolizo Marine Le Pen, cujo talento político reconheço. Não me revejo é nas suas ideias xenófobas, que acho que não vão trazer nada de bom à direita francesa.