Crise na blogosfera? Dizem que há, mas aqui não se nota. Nos últimos dez dias o DELITO DE OPINIÃO registou 41.357 visitas e 61.701 visualizações.
Fica o registo. Com o agradecimento reiterado a quem nos lê.
Crise na blogosfera? Dizem que há, mas aqui não se nota. Nos últimos dez dias o DELITO DE OPINIÃO registou 41.357 visitas e 61.701 visualizações.
Fica o registo. Com o agradecimento reiterado a quem nos lê.
Depois de já ter lido 8 (oito) crónicas do Luís Naves sobre a crise dos refugiados na Hungria, entendi, no passado dia 14 de Setembro, escrever algumas linhas sobre uma afirmação várias vezes reafirmada naquelas crónicas de que a Hungria era uma democracia. E fi-lo chamando a atenção para a existência de vários modelos de democracia e para um conjunto de factos que em meu entender deviam ser conhecidos dos leitores do Delito de Opinião. E ontem, dia 17, depois de ter ouvido as declarações do Alto Comissário para os Refugiados e de alguns funcionários das Nações Unidas, permiti-me trazer a este blogue alguns outros factos históricos, estabelecendo um paralelo entre o que aconteceu em 1956 e o que está a acontecer em relação ao fluxo de refugiados, dando conta da solução que então foi encontrada. Foram as duas únicas coisas que escrevi sobre a crise dos refugiados na Hungria.
O Luís Naves, que já tinha fica amofinado com o primeiro texto, extraindo dele conclusões precipitadas e que, para além de desajustadas, pouco ou nada tinham que ver com o que lá está (do tipo “uma maioria constitucional, duas maiorias absolutas não contam nesta narrativa“, “o homem só tem defeitos (…)”, “se a Hungria não é uma democracia deve ser expulsa da UE“, “seria preferível fechar os olhos e deixar os traficantes levar toda a gente até à Áustria“, “os húngaros serão forçados a fechar a fronteira ou arriscam-se a ficar com 60 mil pessoas em dez dias-se“, “o nacionalismo é também um exclusivo dos grandes“, “[c]laro que os votos nos pequenos países já não valem nada e a Europa é cada vez mais uma aliança entre grandes potências que não toleram os inúteis gestos de independência dos pequeninos, portanto talvez se encontre uma solução mais expedita“), resolveu ontem voltar à carga a propósito do texto que escrevi sobre os refugiados de 56.
Em relação às respostas que lhe dei ao comentário que deixou no meu primeiro texto, o Luís Naves nada disse. Por isso, reproduzo aqui o que ali ficou:
“Quanto ao argumento da maioria constitucional e às maiorias absolutas só tenho a dizer que a democracia é antes de mais o respeito das regras do jogo, o respeito pelas minorias, a acomodação da diferença, e não me parece que qualquer maioria absoluta (antes Orbán também teve derrotas) legitimem a alteração das regras.
Só duas linhas relativamente à expulsão, porque quanto ao resto cada um tem a sua opinião e os seus argumentos.
Uma das coisas que tem sido salientada por alguns autores, e isso já era referido em 2011 pelo JW Muller, é que “European governments have been too preoccupied with the fate of the euro and their own economic woes to pay much attention to small neighbors about which many Europeans know next to nothing. (…) Brussels itself began to scrutinize the media law, and it nowseems sure that Hungary will amend it in response to criticisms from the EU. Still, it has become painfully obvious that the Union has many instruments and incentives to get countries outside its borders to adopt liberal democracy but precious few for changing the behavior of governments on the inside. In the wake of the failed EU Constitution, the focus has all been on respecting national differences, emphasizing Europe’s internal political diversity, and avoiding tough common European political standards. Tellingly, the latest European treaty—the quasi-constitution—has a provision for a member state to leave voluntarily, but no mechanisms for ejecting a country that has ceased to be democratic. True, there is the possibility of withdrawing voting rights from states that have violated the EU’s “fundamental values,” but no leading politician has even mentioned that possibility yet.”
Um outro autor Ulrich Sedelmeir – London School of Economicas (JCMS, vol 52, 2014) escreveu: “Although the Commission made the debatable claim that the Media Law breached the EU media directive, it decided not to use infringement procedures.Instead, Commissioner Neelie Kroes was satisfied that the Commission’s concerns had been addressed in an exchange of letters with the Hungarian government, which promised to ease rules for foreign media and to soften the rules against ‘unbalanced’ coverage and ‘offensive’ Internet content. After the Hungarian Constitutional Court declared some elements of the Media Law unconstitutional, the controversy reignited when the Media Council withdrew the frequency for Klubradio, the main independent radio channel in the country, leading to criticism from the Commission, although there was no EU law that allowed it to act. A Budapest court granted a temporary relief for Klubradio to stay on air, but according to a Council of Europe expertise on the Hungarian Media Law, the government’s changes still do not meet European human rights standards. Freedom of the press remains problematic since the Media Council ‘still controls the entire broadcast sector and has [. . . the] legal power to reregulate print and online media’ (Bánkuti et al., 2012). In sum, the EU’s use of social pressure to achieve greater plurality and independence of the media was largely ineffective.
In January 2012, the Commission started infringement procedures against Hungarian legislation in three issue areas that had a separate basis in EU law. The lowering of the retirement age of judges (…) infringed Directive 2000/78/EC on equal treatment in employment. Measures to restrict the independence of the national data protection supervisory authority and of the Hungarian central bank, respectively, breached Article 16 TFEU and Directive 95/46/EC on data protection and Article 130 TFEU. Moreover, concerning the independence of the central bank, the EU not only used the infringement procedures – with the threat of financial penalties by the ECJ – but also used issue linkage. In April 2012, the Commission declared itself satisfied with the changes (…)”
Concluo que a UE não foi mais longe porque Orbán fez marcha-atrás, corrigindo o que foi obrigado a corrigir. Tal como a Roménia também fez. As maiorias de nada lhe valeram. Se todos os problemas fossem liminarmente resolvidos com a expulsão talvez já não houvesse UE.“
Ontem, o Luís voltou à carga. E que diz ele, de relevante, em relação ao que eu escrevi: que o meu primeiro texto está “cheio de preconceitos” e que o segundo é “injusto“, para depois concluir que a comparação com 56, “insinuando a insensibilidade e a ingratidão dos húngaros, revela a tese sentada no conforto do camarote“.
A partir daqui, fazendo uso destes elevadíssimos argumentos, atira com uma série de questões que com toda a propriedade deviam ser dirigidas aos responsáveis da União Europeia e das organizações internacionais que estão no terreno. Reparar-se-á que eu nunca coloquei em causa os relatos que o meu colega de blogue faz, não procurei sequer dar resposta às perguntas que ele foi atirando para o ar nas suas crónicas, nem sequer contestei as conclusões que foi extraindo em defesa do que foi afirmando.
Eu só tenho a dizer ao Luís Naves que não percebo onde está o “preconceito”, que aliás ele não desenvolve em relação aos factos que são apresentados e que ele também não refuta. Como também não desenvolve onde está a injustiça da comparação relativamente à situação dos refugiados em 1956 e em 2015. E vem dizer que eu venho insinuar a “insensibilidade e a ingratidão dos húngaros“, revelando “a tese sentada no conforto de camarote“.
Em relação a este último ponto, inclusivamente, eu remeti os leitores para declarações prestadas por um refugiado de 1956 e para o filho de um outro refugiado da mesma época. Se há o apontar de um sentimento de insensibilidade e ingratidão em relação ao que está a acontecer, isso estará nas declarações dos próprios húngaros que criticam a acção do seu governo. E sobre isso o meu colega nada diz. Aliás, o que diz a oposição interna húngara e as várias ONG que se queixam da acção de Orbán, o Luís Naves também ignora. Para o Luís, a narrativa do governo húngaro é que é a correcta, por isso não há nada a dizer.
Quanto aos números dos refugiados, o Luís Naves escreveu em 5 de Setembro “que só este ano, já entraram na Hungria 167 mil migrantes. Amanhã, a soma dará 170 mil“. Bom, mas em 1956 na Áustria entraram 180.000. Em três semanas de Novembro terão entrado 113.000. E ainda lá estavam 150.000 da II Guerra. E a Áustria ao tempo não fazia parte de nenhuma União Europeia. E a situação resolveu-se sem muros, sem vedações de arame farpado, sem usar gás pimenta e gás lacrimogéneo, meios de que ainda ontem a Sérvia se queixou, por terem sido utilizados pela polícia húngara em relação a refugiados que se encontravam do outro lado na fronteira, no seu próprio território. Ah, pois, estavam a tentar entrar na Hungria porque por ali a volta é mais curta…
Vá lá que no texto a que agora se responde, o Luís Naves já vem admitir que, afinal, o Viktor Orbán “tem defeitos: é um conservador populista com visão exagerada do seu país, tem tendência para a franqueza pouco diplomática e para o que considera ser a defesa intransigente dos interesses nacionais“. É um princípio, mas logo a seguir o Luís Naves justifica isso, normal, com a oposição de extrema-direita e a oposição de esquerda pós-comunista, acrescentando ainda, não vão os seus leitores ficar confusos, oposição “que levou a Hungria à falência”. Bem sublinhado. Esta última nota deverá ser, pois, um dado essencial para se compreender a acção de Orbán, para justificar a sua actuação, a sua democracia musculada e o discurso populista. O Luís Naves devia explicar um pouco melhor estas coisas, bem como a história dos juízes do Tribunal Constitucional ou as alterações às leis da comunicação social que os restantes países da União Europeia obrigaram a Hungria a emendar. E já agora dizer quantos países, com excepção da Áustria por uma vez, foram obrigados a acatar recomendações da UE a esse nível. Está visto que o governo de Orbán e o Fidesz são “pequeninos” mas atrevidos. Fossem eles “grandes” e davam uma lição de democracia aos restantes europeus.
Para além disso, o Luís disse coisas tão extraordinárias como que “a vedação é uma medida paliativa“, que “ninguém os impede de apanhar o primeiro comboio para a Alemanha” e colou o Jobbik (o partido de extrema-direita) a Putin, quando aquele com quem Putin faz acordos, tal como faz com a Síria de onde os refugiados vêm, é com Orbán. O refúgio insistente no zeloso cumprimento dos Acordos de Schengen, perante a gravidade e excepcionalidade da situação, só me fez lembrar um manga-de-alpaca que com todo o zelo recusava requerimentos por serem dirigidos ao Chefe da Repartição de Finanças, que estava de férias, quando deviam ser endereçados ao “Chefe da Repartição de Finanças (Substituto)”.
O Luís também não esclarece a questão dos juízes, mas é pena, porque provavelmente poderia dar-nos a conhecer os argumentos que faltaram a Orbán para seguir em frente com a reforma do Tribunal Constitucional húngaro, fazendo calar os tontos de Bruxelas. Num dos seus textos até diz que “estamos a assistir a uma campanha organizada (por quem?) que visa exercer pressão política sobre os países do grupo de Visegrad“. Pois é, o mundo está cheio de malandros que querem tramar a Hungria…
O Luís gostaria que eu entrasse num jogo de ping-pong, mas confesso que tenho pouca paciência (e tempo) para isso. Não gosto de ver jogos de ping-pong. A maior parte das vezes a bola só é vista pelos jogadores e pelos árbitros. Tão pouco estou interessado em dar lições aos leitores ou a ele. Não tenho esse atrevimento.
Aliás, só escrevi o que ficou registado sobre a democracia húngara porque a determinada altura, tanta era a insistência do Luís em mostrar que a Hungria é uma democracia (num dos rankings dos indicadores de democracia estava em 36.º lugar, muito abaixo de Portugal), que comecei a ter a estranha sensação de que Orbán seria um reincarnação do Senhor, a UE uma cambada de malandros a fazerem um uso reprovável do seu poder sobre um pequeno país, e que o Luís Naves foi o escolhido para escrever cartas para os pastorinhos. Como não me chamo Jacinto, Marta ou Lúcia achei por bem marcar a minha posição, fazendo uso da minha liberdade de crítica, o que fiz, sublinho, apenas em relação às questões que eu considero essenciais para os leitores poderem, se quiserem, reflectir e sem que para tal fosse contrariar os factos e as conclusões, algumas sub-liminares, que o Luís apresentou. E repare-se que logo no primeiro texto que escrevi não contestei que a Hungria fosse uma democracia, embora fizesse notar, e foi esse o propósito, a existência de vários modelos e de algumas coisas “estranhas” que se passavam nessa democracia. E escrevi: “importa referir meia-dúzia de outros aspectos que não têm feito parte dos relatos do Luís Naves, e por isso não têm tido resposta, para que as pessoas não pensem que a democracia húngara é igual à alemã, ou à inglesa, ou à francesa, ou à espanhola, à italiana, à belga, à holandesa, e por aí fora, até à portuguesa“.
A factos contrapus outros factos e clarifiquei fontes, socorri-me de textos de académicos, de notícias, de registos conhecidos. Os leitores se quiserem podem informar-se. Já o tinha feito anteriormente quando vi a defesa que o Luís fez de algumas teses em relação à Grécia, sendo certo que não tenho nem manifestei particular simpatia pelo Syriza em nenhuma ocasião. Como várias vezes tenho feito e inclusivamente aqui escrevi uma vez, a provocação é um direito. E a ironia nunca fez mal a ninguém. Eu prefiro ter leitores que contrariem as minhas teses, que apresentem outras versões, que me critiquem e se necessário me corrijam, como alguns por vezes têm feito, do que ter uma carneirada a aplaudir o que escrevo, a insultar anonimamente os vizinhos de blogue com referências indirectas e meias-palavras e a publicar as críticas nos comentários dos textos dos outros porque foram por mim censurados devido aos seus inaceitáveis termos, muitas vezes em relação a terceiros e claramente xenófobos, anti-semitas e racistas.
Aqui não há “narrativas”, o mundo não é visto a preto e branco, de um lado não estão os bons e do outro os maus, não há grandes e “pequeninos”, e eu não dou aulas de catequese a neófitos. Registo as minhas opiniões, as minhas posições, factos que entendo deverem ser registados. E cada um que tire as suas conclusões, que faça as críticas, de preferência sem atacar o vizinho, sem insultar quem escreve, sob pena dos comentários não serem publicados. Lá porque há quem queira “desancar” no vizinho, com quem até posso não simpatizar, o que nem sequer é o caso, não vou permitir que se publiquem nos comentários aos meus textos considerações que possam ser consideradas ofensivas para ele ou para qualquer outro dos meus colegas que aqui escreve. Tenho pena, mas o Delito de Opinião ainda não é a Hungria de Orbán. E se um dia for seguramente que me avisarão com antecedência, porque nesse dia a opinião deixará de ser livre.
Tenho pena, mas é assim que vejo as coisas, Luís.

Já uma vez aqui disse que não percebia muito bem porque é que me tinham convidado para escrever nesta casa. E, na altura, o Delito ainda falava de outras coisas para além do futebol e de política. É verdade que eramos menos e talvez a intimidade fosse diferente.
Por razões que não vêm ao caso, este fim de semana dediquei-me a ler com atenção uns post’s que, por versarem esse tipo de matérias, me interessaram menos e havia deixado para leitura posterior. Fiquei impressionada. O núcleo duro deste blog é mesmo a política. O que, para quem goste, não será um mal maior. Mas descobri algo que, a mim, me pareceu novo. É que o Delito se transformou numa plataforma de pré campanha eleitoral. Não entro em detalhes nesta análise porque todos os “delituosos” me merecem igual respeito. Todavia e a meu ver, existe um começo de “excesso”. Talvez seja eu que esteja errada. Mas, confesso, gostava mais do DO de quando entrei!
Não sei quem foi o primeiro, aquele por quem esta acta deveria começar. Mas, se tivesse de fazer um palpite, diria que foi a Leonor a primeira a entrar naquele princípio de verde que é a casa da Ana. Uma pessoa entra, imaginemos a Leonor, de tarte de lima na mão e determinação no gesto, e dá de caras com a serra. Poderia ser uma parede de serra, daquelas que nos trava, mas não: é um começo de serra e de verde, mesmo.
Mas voltemos aos restantes autores do Delito, que chegaram enquanto eu, aliviado, discutia Hélia Correia com a Ivone, e ela, compreensiva, me dava a conhecer a Teresa Veiga. Quem chegou depois? Depois, talvez para temperar aquele sobressalto que a Leonor não disfarça, deve ter chegado a Teresa, que trouxe bolo de caramelo, imagino que para nos convencer, sem sucesso, que a doçura lhe tinha escorrido toda para o bolo. A Teresa e a Leonor as primeiras a chegar, é o que imagino, numa espécie de equilíbrio que terá confortado a Ana: tudo no seu lugar, o céu e o inferno em paz, o Delito em começo de festa. E estava tudo no seu lugar, de facto.
O Pedro, porque se sente responsável, não deve ter demorado muito mais. Há ali uma liderança que se pressente e que o antecede. Poderíamos chamar-lhe de carisma mas nós temos por hábito chamá-lo de Pedro. E ele, que não sabe da confusão do nome próprio com o substantivo, nem dá pela coisa, distraído talvez com a determinação do Luís, que lhe fez companhia. E é bom ter o Luís por perto nestes almoços. Por vários motivos e por mais este: o sossego de saber que há quem já tenha pensado e concluído sobre como vai este país (era o senhor contente ou o senhor feliz?).
Se o Zé Navarro só chegasse depois de compilar tudo o que sabe, não teria sido o seguinte. Nem teria chegado a tempo, sequer. Mas deve ter sido ele a entrar, logo a seguir ao Pedro e ao Luís. Não por competição, mas porque as histórias que o Zé tem para contar não cabem num fim de tarde e convém chegar cedo. Se quiserem ver o Delito em movimento, convidem o Zé. São dezenas de posts, um a um, a surgir à nossa frente, num convite ao plágio. O Zé André, que publica posts, e livros daqueles a sério, resiste bem a isso do plágio. E até aos seus próprios temas, que ficaram em suspenso, para nos fazer lembrar, vem daí lamechice, que é bom ver alguém feliz, e não necessariamente pelo pleno ‘árvore, livro e filho’.
E foi este o grupo que, com uma hora de viagem, eu e a Ivone encontrámos. Pontualíssimos, apesar de tudo, porque lá estávamos para receber a Gui. A nossa caloira, sem a timidez dos caloiros, arranjou logo forma de escapar à praxe. De igual para igual, sem espaço para hierarquias. E nós fomos na conversa, que acabámos a oferecer ao Zé Maria, que chegou depois, o estatuto de caloiro. Não que a idade não justificasse e os recados trazidos da mãe não provocassem, mas a verdade é que nos deixámos levar pela mestria da caloira. E ficou assim: Gui 1, Zé Maria, também Gui, 0.
Vá lá que o Gui caloiro trouxe arroz doce, daqueles que poderiam ter dizeres a canela: Delito de Opinião, por exemplo. Mas não tinha, por causa de uma desculpa qualquer. De qualquer forma, os dizeres alinhados a canela não teriam durado outro tempo que não o de exibição, que o João Campos, embalado pelas raízes do Alentejo, atacaria o dito sem vergonha, entre a ficção científica e o liberalismo clássico (curiosa combinação, bem sei). E assim começou mais um almoço do Delito.
Do que se falou e de quem por lá passou, naquele dia de Reis, prometeu-se o segredo, que agora cumpro, deixando esta acta confundir-se com uma mera lista de presenças em casa da vital Ana. E que isto sirva de lição aos faltosos. Acabou-se isso de faltar e ficar a saber tudo pelas actas.
Ah. E o almoço foi um caril, que estava daqui.
Deve ter sido por acabar de ver o nosso menino d’ ouro agorinha na televisão à minha frente e contagiada pela falta de modéstia do jovem narciso mais o belo par de pernas que a D. Dolores lhe deu, abençoada mãezinha. Neste país há muito que a vergonha se foi e também eu, adaptando uma das citações mais famosas da História, quero ter os meus cinco minutos de sem vergonha. Venho por este meio, despudorada e descaradamente, informar que aqui o nosso delicioso Delito foi nomeado pelo Aventar para blogue do ano. Não se acanhem, amigos e comentadores, ide lá e colocai a cruzinha. E agora, vou-me, acabei de esgotar a minha quota de pedinchice desavergonhada.
Ele há blogues e blogues…
Patriotismo e patrioteirismo.
Bloguismo e blogueirismo.
O Delito de Opinião é um movimento bloguista, um exercício perigoso, só para gente adulta, aventueira. E onde cada um de nós está de bem consigo (o que não é pouco na blogosfera).
Um blogue colectivo é um saco de gatos? É… Gatos de raça, aristobloggers, no sentido da sua grandeza humana e não do certificado veterinário de paternidade registada.
Por isso, cada momento de não virtualidade é uma celebração da força da verdade. O verdadeiro teste.
Mesmo que não estejamos presentes, somos.
O que não é pouco, reparem.
– Quem disse que a blogosfera estava morta?
Os cabotinos. Apenas esses.
Um presente para os meninos do Delito.
(eu fico com a voz, se não se importam)
Eu sei que é dia de festa, mas parece-me que já estou a ver coisas:
Paul Krugman (sim, o Paul Krugman inspirador dos órfãos de Sócrates), a propósito deste trabalho de Gianluca Cafiso;
b) “Portugueses já pensam Sócrates volta, estás perdoado.“
Domingues Azevedo, Bastonário dos Órfãos da Ordem dos Técnicos Oficiais de Contas;
c) Portugal é a selecção que mais gastará em alojamento no Euro 2012;
d) alteração do aspecto gráfico do DELITO.
Mais um copo e ainda acabava a ver Zorrinhos cor-de-rosa.
«Em Portugal, o direito à liberdade de expressão não está ainda adquirido. Seria importante que se fizesse um estudo sobre os processos de tribunal em que os colunistas da imprensa surgem como réus, por DELITO DE OPINIÃO.»
Inês Pedrosa, no Sol
Mal poisei o pé na estação de Sto. Amaro olhei durante uns segundos para o espaço circundante e, decidida, optei por tomar o caminho à minha direita, como sempre acontece quando não faço a menor ideia do rumo que devo seguir. É triste. É invariável. Já cristalizou em alfinetada de família. Quem me visse tomar-me-ia por uma nativa (objectivo cumprido). E o certo é que não tardei a ouvir nas minhas costas: – Por favor: É de cá? Atentei então naquele vulto de calças floridas e cabelo escuro e respondi: – Não. Mas porquê? E eu a pensar… «toma, outra como tu!». –Vou à procura de um restaurante que fica no parque 7 Castelos, tenho um almoço lá.
– Que engraçado! Eu também – respondi. E ela: – Não me diga que é a Luísa! – Não… disse eu, pesarosa, matutando que se na véspera meia Lisboa estacionara em jantares colectivos de Natal, hoje era decididamente o dia dos almoços em Oeiras… – Espere, insistia ela, não é Luísa, é outra coisa. É… Olhe, o meu encontro é do Delito de Opinião, será que é a… – Laura?, ajudei eu. – Isso mesmo, mas onde é que eu fui buscar o ‘Luísa’? – Não interessa, sou mesmo a Laura. Incrível, nem de propósito.
Entretanto, eu também já percebera que ela só podia ser a única fundadora que me faltava conhecer, a Teresa, que eu lia desde que este blogue é blogue. Tranquila e raiando pelo início da tarde: foi fácil decifrar as chaves do meu informador … (João, fizeste tanta falta!).
E lá fomos a rir, passo estugado, no rasto de um portão de ferro e de um frondoso parque que não tardou a aparecer mostrando ao fundo, num enquadramento perfeito, o refúgio eleito para este nosso encontro: o restaurante 7 Castelos. Valeu a viagem, só vos digo: pelo caloroso acolhimento, pelo ambiente confortável com notas divertidas (e que tal uns candeeiros de tecto feitos daqueles secadores em que as nossas mães sofriam a mise en plis?). E, claro, pela imperdível cozinha, num registo irreprovável entre a solidez dos sabores clássicos e os retoques da imaginação actual: folhados de chèvre com frutos silvestres e shot de melão com presunto crocante; bacalhau com crosta de ervas e mix de folhas; pato confitado com arroz árabe e espargos salteados, tudo condignamente acompanhado de uns magníficos brancos e tintos ‘Vale de Areias’ e rematado com umas deliciosas sobremesas leves, a preceito. E muitos cafés…
À chegada, já lá estavam alguns meus conhecidos: a nossa querida e imprescindível mentora Ana Vidal, a Ana Cláudia – sempre animada e energética -, a minha sister in (civil) arms Leonor e o tranquilo Fernando (que diz que gosta de verde mas ainda não provou o que eu lhe mandei!) E também estavam os nunca-mais-virtuais Luís M. Jorge (que simpático! onde é que escondeste o teu puro veneno, Luís?) a Ivone (ficaste muito longe, há que corrigir isto) e o divertido Luís Menezes Leitão, em quem, pelo meio da imparável verve, procurei um tracinho que fosse de cagança académica (coisas cá muito minhas, que detesto). Mas debalde…
Mesmo no nosso encalço vinha o Adolfo, tenue sportive irrepreensível, tão encantador quanto já reza a lenda e a quem a Nação ainda não deu férias porque o Parlamento não vai parar (sabiam?). O José Gomes André chegou depois. Verdadeiro agit-prov (sim, não é gralha, ele é um puro-sangue agitateur-provocateur). E por fim, adivinhem lá quem se fez esperar… coisa nunca vista? O nosso homem do leme, pois: o Pedro. Sempre impecável e jovial, a pôr uma subtil ordem na conversa e a disfarçar aquelas 4 mãos imparáveis com que trabalha em tudo.
Assim, quando o 13º chegou, o João Campos, – em carne e osso, inteirinho e sem cortes da Troika – imaginam a apoteose? É que do pão saloio, do patê de azeitonas pretas e do patê de queijo já ameaçava não haver vestígios… apesar das incansáveis reposições. Ordem para começar, portanto! Durou até às 6 da tarde…
É o género de obra que me encanta. Produto de uma investigação apurada e consistente, mas que não despreza, na sua riqueza documental, a oportunidade estética.
Não é só um livro de autor: é uma construção atravessada de sensibilidade sobre variadíssimos actores da nossa história cívica e cultural. O que exige método, bom olho, ciência e faro de caçador.
Aqui, viajamos pela história do Supremo Tribunal de Justiça, mas é a própria gesta política de Portugal que sedimenta a obra.
– Afinal, o que é da civilização sem ícones, impressões digitais das gerações, fio e meada, legados materiais?
Nada.
E tolos são os que desvalorizam estes vestígios que nos ficam.
Ainda bem que há quem, por entre outros desafios, esteja atento.
Tamanha lavra? É do nosso João Carvalho. E não preciso de tecer loas: que cada um avalie por si.
Por isso, não percam. Foi o que eu fiz. Completamente por conta própria.
– Verdade ou não, João?
Quase não vejo televisão. Uns jogos de futebol, algum serviço noticioso ao fim do dia, um ou outro programa de debate político ou económico. Tudo somado, meia dúzia de horas semanais. E também quase não leio jornais em papel. Procuro factos nas edições online. Mas, a interpretação, o comentário, a discussão, a crónica, as histórias saborosas, encontro-os noutros sítios. Dedico algum tempo a escrever no DELITO. Há quem se questione sobre o interesse de uma actividade gratuita como esta. Respondo que é uma forma muito mais agradável de entretenimento do que passar quatro ou cinco horas em frente à televisão a assistir a programas de má qualidade. Isso sim é uma actividade perfeitamente gratuita. À leitura de jornais em papel voltaria se algum dia se reencontrassem com a sua missão mais nobre: a de contar histórias. Até lá, assim estou. Praticamente sem televisão e sem jornais. Eu sei que é estranho, mas não tenham pena de mim. Sinto-me muito bem assim.
Quero agradecer à equipa do Delito de Opinião o honroso convite para participar no seu delictum collectivum. Sempre admirei os que têm coragem de se rebelar contra o pensamento único e praticar delitos de opinião. É graças aos autores de delitos de opinião que é possível derrubar regimes ditatoriais e totalitários. Naturalmente que assumo a exclusiva responsabilidade pelos delitos de opinião que vier a praticar no Delito. Ubi non est culpa, ibi non est delictum.