Passagem de Nível


tralhasdavida,

A única obsessão que toda a gente quer: “amor”. As pessoas pensam que ao amar se tornam inteiras, completas? A união platónica das almas? Eu não penso assim. Penso que estamos inteiros antes de começarmos. E o amor fractura-nos. Estás inteiro e depois estás fracturado – aberto.

 

(Philip Roth, em O Animal Moribundo)

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Aquela conversa de travesseiro, “quem é o meu quindizinho?”. “Sou eu. Quem é a minha roim-roim- roim?” “Sou eu”, e ele inventou de dizer que jamais se separariam e que ele seria, para ela, como aquele nervinho de carne que fica preso entre os dentes, e ela disse “Credo, Osvaldo, que mau gosto!”, e saiu da cama e depois nunca mais. Acabou por metáfora errada.

 

(Luis Fernando Veríssimo, em  O Melhor das Comédias da Vida Privada)

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Toda aquela itinerância com guias, disse ele passado um momento. Naqueles horríveis crocodilos de turistas, a entrar e a sair de igrejas, museus e mesquitas. Não, não, não. Gosto de estar quieto, de descobrir uma cadeira confortável. Está a ver o que quero dizer? Gosto de absorver um país.

 

(Paul Theroux, em O Grande Bazar Ferroviário)

Passagem de Nível


tralhasdavida,

Olhou tristemente para Pockey Protero, a sua melhor amiga, sentada do outro lado da mesa, toda esparramada na cadeira e a largar as cinzas do cigarro sobre o prato cheio de gelado derretido e restos de bolo encharcado, com as deploráveis maneiras à mesa que só os muito ricos se podem dar ao luxo de exibir.

 

(Mary Maccarthy, em O Grupo)

Passagem de Nível


tralhasdavida,

– Um biquino novo? – É, pai. – Você comprou um no ano passado! – Não serve mais, pai. Eu cresci. – Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim. – Não serve, pai. – Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior. – Maior não, pai. Menor.

Aquele pai, também, não entendia nada.

 

(Luís Fernando Veríssimo, em  O Melhor das Comédias da Vida Privada)