[Táxi: A Vida Portuguesa]
Quarta-feira, final da tarde, dia anterior à Greve Geral. Plataforma de estação de comboios do Alto Alentejo. Cerca de vinte pessoas aguardam o comboio inter-cidades vindo de Évora, com destino a Lisboa. Alunos e professores, consultores camarários, reformados de visita às famílias, passageiros locais, militares. Passam cinco minutos da hora tabelada, e este comboio não costuma atrasar-se. Quinze minutos. Alguém tenta encontrar pelo menos um funcionário da CP mas a estação está fechada, de luz apagada. Não há quaisquer avisos escritos ou sonoros e os funcionários da REFER no edifício adjacente dizem desconhecer o que se passa. A banda larga móvel dos viajantes mais novos permite confirmar o esperado: a greve geral já começou e este comboio de longo-curso foi simplesmente suprimido. Este mesmo comboio que, para além de fazer o serviço inter-cidades, substitui ao início e final do dia o regional, que deixou de existir, o que deixa sem qualquer alternativa uma boa parte de quem aqui está.
Os mais novos passam a informação aos restantes, e a desmobilização começa. Os mais-velhos regressam a casa e perdem o bilhete. Os militares dão uso aos telefones enquanto praguejam alto e em bom som, à caça de boleia. Uns quantos ficam estáticos na plataforma, sem reacção. Os de mais longe, à boa maneira portuguesa, desenrascam-se: uma das senhoras mais simples e despachadas sugere a alguns de nós, ilustres desconhecidos, que apanhemos sem demora um táxi até ao Pinhal Novo, já que lá a Fertagus poderá distribuir cada um para o seu destino. Ocorre-me o início dos anos oitenta, tempo em que ouvia o meu pai combinar ao telefone as ‘vaquinhas’ (ainda ninguém dizia car sharing e car pooling, e assim) rotativas com os colegas do banco, à porta do Palácio de Queluz. Então alguém desencanta o número de um tal senhor Raimundo, eu uso o telemóvel, outros dois passageiros juntam-se ao grupo, e aí vamos nós, noite caída; uma cidadã de trintas, uma de quarentas, um de cinquentas e uma de setenta e bons, pela estrada nacional fora, a espingardar e tentar sorrir ao revés do dia.
Quem ganhou com esta ‘luta’ antes do dia dela? Por aquilo que desembolsei, apenas os privados.

Uma estranha concepção de “serviço público”. Valham os privados, no asfalto e sobre os carris, para prestarem esse serviço público.
P. S. – Gostei da imagem: «brinquedo tradicional com fricção». Fez-me despertar boas memórias de infância.
Estes têm uma bela patine histórica, sim; curiosamente ontem vi umas carrinhas e camiões destes de ‘corda’ em modelo à escala, no Pingo Doce, a imitar a própria frota deles; achei a ideia catita e inteligente.
E queres crer, caríssimo, que ao verem a debandada de passageiros ainda nos gritaram, de dentro do café do clube ferroviário, ‘olhem que a gente deve fazer o das vinte para as oito!’?
Começo a perceber que estas coisas só vividas para serem acreditadas, mesmo.