Cartas do Segundo Mundo – O (outro) partido do táxi


Ana Cláudia Vicente,

 [Táxi: A Vida Portuguesa]

Quarta-feira, final da tarde, dia anterior à Greve Geral. Plataforma de estação de comboios do Alto Alentejo. Cerca de vinte pessoas aguardam o comboio inter-cidades vindo de Évora, com destino a Lisboa. Alunos e professores, consultores camarários, reformados de visita às famílias, passageiros locais, militares. Passam cinco minutos da hora tabelada, e este comboio não costuma atrasar-se. Quinze minutos. Alguém tenta encontrar pelo menos um funcionário da CP mas a estação está fechada, de luz apagada. Não há quaisquer avisos escritos ou sonoros e os funcionários da REFER no edifício adjacente dizem desconhecer o que se passa. A banda larga móvel dos viajantes mais novos permite confirmar o esperado: a greve geral já começou e este comboio de longo-curso foi simplesmente suprimido. Este mesmo comboio que, para além de fazer o serviço inter-cidades, substitui ao início e final do dia o regional, que deixou de existir, o que deixa sem qualquer alternativa uma boa parte de quem aqui está.

Os mais novos passam a informação aos restantes, e a desmobilização começa. Os mais-velhos regressam a casa e perdem o bilhete. Os militares dão uso aos telefones enquanto praguejam alto e em bom som, à caça de boleia. Uns quantos ficam estáticos na plataforma, sem reacção. Os de mais longe, à boa maneira portuguesa, desenrascam-se: uma das senhoras mais simples e despachadas sugere a alguns de nós, ilustres desconhecidos, que apanhemos sem demora um táxi até ao Pinhal Novo, já que lá a Fertagus poderá distribuir cada um para o seu destino. Ocorre-me o início dos anos oitenta, tempo em que ouvia o meu pai combinar ao telefone as ‘vaquinhas’ (ainda ninguém dizia car sharing e car pooling, e assim) rotativas com os colegas do banco, à porta do Palácio de Queluz. Então alguém desencanta o número de um tal senhor Raimundo, eu uso o telemóvel, outros dois passageiros juntam-se ao grupo, e aí vamos nós, noite caída; uma cidadã de trintas, uma de quarentas, um de cinquentas e uma de setenta e bons, pela estrada nacional fora, a espingardar e tentar sorrir ao revés do dia.

Quem ganhou com esta ‘luta’ antes do dia dela? Por aquilo que desembolsei, apenas os privados.

4 comentários em “Cartas do Segundo Mundo – O (outro) partido do táxi”

      1. Estes têm uma bela patine histórica, sim; curiosamente ontem vi umas carrinhas e camiões destes de ‘corda’ em modelo à escala, no Pingo Doce, a imitar a própria frota deles; achei a ideia catita e inteligente.

    1. E queres crer, caríssimo, que ao verem a debandada de passageiros ainda nos gritaram, de dentro do café do clube ferroviário, ‘olhem que a gente deve fazer o das vinte para as oito!’?

      Começo a perceber que estas coisas só vividas para serem acreditadas, mesmo.

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