Bebés


Teresa Ribeiro,

É uma notícia que se presta a extrapolações demagógicas, desde já a de que é por causa das leis que despenalizam a IVG que as mulheres abortam mais. Mas, segundo me pareceu, o Instituto de Política Familiar coloca a questão da forma certa. Se há tantas mulheres a abortar  numa Europa que envelhece a um ritmo preocupante, é necessário investir nas leis de protecção à família e, é claro, desincentivar a IVG (o que é muito mais eficaz do que passá-la à clandestinidade).

Contaram-me que há muitos, muitos anos, um modesto trabalhador rural da região saloia da periferia de Lisboa confessou com a maior naturalidade que preferia que lhe morresse um filho do que uma vaca. Um filho, dizia ele, não tinha problema, porque se arranjava outro, ao passo que uma vaca custava-lhe muito dinheiro.

Na sua inocência bruta, aquele pobre diabo não se apercebia da alarvidade que proferia. Eram outros tempos. As mulheres pariam como coelhas e os filhos criavam-se a pão e azeitonas. A taxa de mortalidade infantil há 60 anos, em Portugal, era vergonhosa, mas como por cada mulher nasciam muitos filhos, a população portuguesa estava longe de registar um saldo demográfico negativo (até porque a esperança de vida era consideravelmente inferior à que temos hoje). Não havia, portanto, sobressaltos. As taxas de nascimento e de mortalidade próprias dos países subdesenvolvidos nunca representam um risco para a economia. 

Agora as mulheres já não querem "parir". Preferem "ter bebés", de preferência quando assim o desejarem e em condições dignas. Como princípio, não me parece mal. Dêem-lhes horários a tempo parcial – em Portugal quase não existem – boas redes de creches e leis eficazes contra a discriminação no mercado de trabalho e elas desejarão ter mais filhos.

Os detractores do Estado social, que em regra também são ferozes opositores das leis que despenalizam a IVG, deviam pensar com seriedade nisto. Dar condições de vida às pessoas é mais consequente do que gritar slogans em manifestações em defesa da vida que em muitos casos não desejariam para os seus.

9 comentários em “Bebés”

  1. É uma triste notícia, Teresa. Nem tanto o céu, nem tanto a Terra.Antigamente as mulheres tinham muitos filhos e agora não querem ter nem um.É preciso um meio termo, em todos os sentidos. A mulher quer trabalhar, ter independência financeira e não ter trabalho com filhos. Porque tem que cuidar, amar, alimentar e principalmente educar.Mas é possível, se a mulher trabalhar meio período e dedicar-se aos filhos na outra metade.Aqui também as creches não funcionam. Nisto a participação de um companheiro é importante (aqui vão me matar as feministas).Porque é claro que a mulher, se puder optar, não vai ter um filho sem condições de criá-lo.

    1. Turmalina, querer ter condições para criar um filho é um atitude responsável e desejável. Criticar as mulheres que os não querem ter sem critério, chamando-lhes “egoístas”, como já ouvi, é de um machismo intolerável.

  2. Claro que tens razão, Teresa. Criar condições reais para se ter filhos é a única forma de ter algum sucesso a contrariar as baixíssimas taxas de natalidade. E não é com o incentivo ridículo de 200 euros (!) nem com condenações liminares (ainda que sejam só dedos apontados às consciências) que se vai lá. Uma abordagem séria e profunda deste assunto, para encontrar soluções viáveis, seria bem mais profícua do que a histeria a que assistimos – de ambos os lados, note-se – sempre que se fala dele.

  3. Exactamente Teresa. é que muitos daqueles que desfilam nas tais manifestações pela “vida”, (todos os opositores são uns assassinos), são aqueles que à primeira curva da estrada não promovem uma mulher que está grávida, torcem o nariz e fazem má cara quando têm que cumprir a lei quanto à utilização das horas de aleitamento, and so on and so on …

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