A reconciliação


Marta Caires,

   

 

Porque fui ver o ‘Invictus’  este fim-de-semana e as imagens do filme de Clint Eastwood têm cheiro e memórias.

 

Tinha 27 anos quando aterrei no Aeroporto de Joanesburgo. Os sonhos estavam em desalinho, queria a vida de um só golpe e, no passaporte, o visto de emprego concedia-me seis meses para os arrumar. Ainda hoje penso por que motivo desembarquei naquela cidade violenta e de ruas vazias com este objectivo, mas somos insondáveis como os desígnios de Deus.

Joanesburgo não se parecia com nada que tivesse visto, que conhecesse ou imaginasse. Do céu, quando o avião cansado de muitas horas de voo e uma paragem sem fim em Kinshasa começou a descer, vi os brilhos azuis das piscinas, os jardins e as casas. Lembro-me de ter pensado que era um bom sítio para refazer o coração, colar os cacos da alma e renascer. Uma miúda de 27 anos tinha assim tantas mágoas, tanto sofrimento?

Não sei bem. Os anos antes desse em que me mudei para Joanesburgo foram terríveis. Fiquei doente, perdi a minha mãe, baptizei-me na vida e não sabia onde encontrar-me no meu Funchal, morno e protector. A cidade estava igual, as tipuanas e os jacarandás tingiam as ruas de amarelo e lilás todas as Primaveras, as iluminações regressavam no Natal e o fogo de artifício rebentava a 31 de Dezembro para um coração que doía, doía muito.

E, de repente, estava na fila da imigração de um aeroporto a muitos quilómetros de casa, atrás de um grupo de nigerianos e à frente de um emigrante da Ponta do Sol que passara 30 dos seus 50 anos entre a África do Sul, a Rodésia e Moçambique. Do outro lado, o director do meu novo jornal esperava-me sorridente. Ao princípio, somos sempre amigos, não trazemos ressentimentos, nem achamos possível guardar rancor.

A comunidade portuguesa, grande e dispersa, juntava-se aos fins-de-semana nos clubes. Entre bailes e jantares, recriava um Portugal que já não existia, que nunca tinha existido. Bebia vinho, comia feijoada e os filhos falavam um português  onde o "shame’, o ‘nice’ e o ‘yah’ se misturavam com o acento madeirense. Não me esperavam e, tal como Joanesburgo não se parecia com o meu mundo conhecido, eu também não me parecia com nada que conhecessem.

Para lá dos clubes, do meu jornal e do sul de Joanesburgo – onde os portugueses viviam – a cidade fechava-se em gradeamentos, sistemas de alarme e, pelas ruas vazias, soprava uma brisa de medo. As famílias descontraíam nos centros comerciais. A mim, nascida num lugar de mar e sol, estes momentos sufocavam, fazia-me falta andar, mas estava ali para me recompor. Se olhasse além das minhas perdas talvez percebesse.

Não me lembro bem quando comecei a olhar. Não se foi antes ou depois da visita ao Soweto, antes ou depois de começar a ler os jornais e as histórias trágicas que todos os dias contavam. Houve um momento em que as mãos de um homem a depor na Comissão da Verdade me prenderam. O homem, com barba e ainda novo, tinha ganchos no lugar das mãos, foi o que lhe sobrou depois de receber uma carta armadilhada pelos serviços secretos do Apartheid. A seguir a este homem – com lágrimas, barba e ganchos – vieram outros.

As vítimas das bombas dos grupos radicais negros, os infelizes dos campos de treino em Angola e da tortura da polícia. Um país, uma democracia de dois anos, abria as feridas para as tentar curar, para poder passar adiante e reconciliar-se. Aquelas vidas tinham horror, violência, crueldade em graus que nunca saberei bem quais são, como são. Com coragem, confessaram as dores e o sofrimento, mas também os horrores que praticaram.

Os jornais publicaram páginas e páginas de tortura e ódio. Um ódio cego, um desrespeito perante o outro que não sabia ser possível, que vinha descrito em detalhe e trazia anexos de provas. Ao fim, quando se juntou num relatório, o poder branco e o poder negro tentaram esconder as conclusões. Era muito, demasiado, o sangue sujava os partidos, o ANC e o National Party. O passado arriscava-se a ficar debaixo do tapete e escondido por uma providência cautelar não fosse a grandeza de Nelson Mandela e Desmond Tutu.

Quando deixei Joanesburgo, num fim de tarde de Dezembro, as conclusões da Comissão da Verdade e da Reconciliação respiravam livres, eram públicas e estavam disponíveis para quem as quisesse ler. Mandela preparava-se para deixar a presidência da África do Sul. Tinha cumprido a missão, o sonho, fechado o ciclo de luta e 27 anos de prisão. É, eu tinha corrido para Joanesburgo para tentar curar-me da vida e, nesse fim de tarde, percebi que o único remédio para a vida é vivê-la. Ao longe, na estrada para Pretória, um jacarandá lilás brindava, em apoteose, a Primavera.

“A neve é da cor que a gente quiser!”


Marta Caires,

 

O reflexo das garrafas de licores, os bolos que se faziam, os tesouros escondidos que emergiam das gavetas para arejar o mofo, a lã dos colchões estendida ao sol. O Natal anunciava-se assim, como uma Festa, que exigia limpezas, doces, uma lapinha e brinquedos no sapatinho encomendados ao Menino Jesus. O Pai Natal ainda não tinha sido inventado e, por isso, da minha infância não trago o trauma de ter descoberto que o simpático senhor afinal não existe.

É certo que custava a crer que aquele menino, tão pequenino, descia pela chaminé para entregar a boneca que abria e fechava os olhos e até chorava. Não era, no entanto, o único prodígio da quadra. Atónitos, o meu irmão e eu, ouvíamos as explicações mágicas da minha mãe. O Menino Jesus, mesmo pequeno e acabado de nascer, podia e ia a casa de todas as crianças entregar prendas. Ia e podia porque era Deus e, como se sabe, a Deus nada é impossível. A Deus e à minha mãe que, nas vésperas da Festa, se desdobrava em muitas, entre aviar o bordado para a "casa" e arrumar a casa, ainda lhe sobrava tempo para nos falar de fantasia e desencantar um pinheiro e um presépio. Feito à última hora, deixando-nos a sensação que talvez não houvesse. Nem rocha feita de papel, nem bolas, nem os bonecos de barro, nem as palhinhas.

«Mãe, mãe é quase dia de Natal e não temos a lapinha!», mas a minha mãe respondia com espírito e dizia que íamos muito a tempo. «Ainda não nasceu, ainda não nasceu.» E, por artes que só ela conhecia, todos os Natais o Menino Jesus nascia em nossa casa, num presépio de improviso, feito em cima da mesa que também servia para engomar. Maria, José, o menino, a vaca, o burro, os pastores e as ovelhas (quase todos bonecos colados e recolados) saíam de dentro da caixa de sapatos e faziam a Festa, ao lado do alegra-campo, das bolas de soprar e dos pós que coloriam os arredores da gruta de papel. A fazer de neve e que tanto podia ser cor de rosa, branca, dourada, azul, verde, vermelha. Porque, na lógica do Natal da minha infância, a neve não era só branca ou dourada por mais que se tentasse chamar a minha mãe à razão. Ela, que se divertia mais que todos nós juntos, encolhia os ombros e dizia sempre o mesmo: «Vocês não percebem nada disto. A neve é da cor que a gente quiser!»

E não percebíamos mesmo. Ao nosso olhar de crianças escapava o mundo que a minha mãe nos mostrava através da porta dos impossíveis. De um menino acabado de nascer que trazia presentes, da neve que era das cores que lhe vinham à cabeça e lhe sujavam os dedos, da fantasia à medida da imaginação. Talvez por isso não guardo lembrança de prendas especiais, mas da alegria que nos enchia a casa durante o mês de Dezembro. E hoje sei apenas que, se quiser, serão verdadeiras todas as explicações mágicas da minha mãe. Para o Natal e para a vida. Afinal, a neve é mesmo da cor que a gente quiser.

O cenário enche de brilho e luzes, segredando ao ouvido que Dezembro merece um sorriso. Em nome da memória e da infância. E a memória leva-me quase sempre aos tempos felizes e à época em que dava à justa pela beira da mesa, seguindo para todos os lados a minha mãe e as minhas tias. Não podia – não queria – perder um momento que fosse dos dias que antecediam o 25 de Dezembro, nem dos que se seguiam, entre visitas a primos e primas, conhecidos e desconhecidos, do primeiro ao quarto grau.

Nas Urgências


Marta Caires,

 

O sol de fim de tarde aquece a rua e, quando a atravesso, reparo em três mendigos a dormir debaixo de uma árvore do fogo. Ao lado dorme um cão preto e branco, na caixa Multibanco, uma mulher de meia idade levanta dinheiro. É domingo e, aos domingos, ninguém tem pressa. Só eu que há dez minutos galgo pela calçada, parece que a praça de táxis está mais longe do que nos outros dias. É só a minha pressa. A minha tia Alice tem 78 anos e sentiu uma dor no peito.

A dor que a esmagou é apenas a de um coração destroçado pela perda, moído pela idade, curvado na tristeza. Dizem que os velhos não têm medo da morte, mas não é verdade. Têm tanto medo como os novos, as crianças, os jovens, os adultos, todos os que encontro à porta das Urgências. Os bombeiros, os enfermeiros, os médicos, o povo a quem se rebaptizou de utentes. A ambulância descarrega um velhinho acamado e de um táxi sai um casal de estrangeiros. A mulher vem trémula, tem um joelho esfolado.

Grisalha, as mãos a tremer, a minha tia parece uma sombra de tudo o que me lembro. Antes de estar aqui, nesta porta onde as ambulâncias deixam um rasto de fumo nas paredes, foi nova e forte. Quando tinha cinco anos e desmaiei no chão da sala de jantar foi ela quem me levantou. Agora, dá-me o braço, trocámos de lugar. Sou eu quem fala, quem explica e trata dos papéis, quem diz onde se deve sentar e esperar. Se há coisa que sabemos é que vamos esperar e esperar, vamos ver os números a mudar nos relógios digitais.

 Uma, duas, três horas… Faz análises, vai ao raio-x e passa no electrocardiograma. Seguimos uma via-sacra, sorrimos aos companheiros de infortúnio. O casal de estrangeiros está sentado mesmo ao lado, uma senhora de amarelo queixa-se de uma dor no ouvido e a mulher do Estreito, com o cabelo apanhado num carrapito, ciranda pelo corredor. Mete conversa com quem lhe dá troco enquanto o marido, um velhinho entubado, não recebe alta. Há novos, há velhos, há trintões em macas e, por detrás das cortinas, um viveiro de médicos e enfermeiros.

Num lugar reservado, um homem com algemas aguarda a vez e, no corredor, um bêbedo sem dentes esbraceja, fala em inglês e diz a quem quiser ouvir que já não está 2009. Não, não, já entrou em 2010 e não quer esperar por atendimento em 2009. Atira a pulseira de identificação, bate com a cabeça na parede e, no intervalo, diz a uma enfermeira anafada para perder 20 quilos. O médico chama pela minha tia Alice, ouve-se um estrondo. O bêbedo acabou de cair na casa de banho. O coração da minha tia Alice? Está bom, a dor é de tristeza.

Os gatos e a vida


Marta Caires,
O sol projecta os quadrados da janela no chão e, mesmo a meio, a Marquesa estende-se, o pêlo de tigre reluz. Em cima da cama, com os olhos num risco fino e azul, o Ming olha-me, faz-me perguntas de gato. Porque estou tão apressada, porque liguei o aspirador e enchi a manhã de barulho. Vira o focinho para a janela como que a esclarecer-me que, em manhãs de sol, é nossa obrigação aproveitar o calor.

Volta a olhar-me em silêncio, agora recomenda-me a leitura. Aquele livro de capa preta, aquele que tem uma fita a fazer de marcador, que lhe dá gosto mexer e desassossegar o momento. Quando a nossa conversa muda atinge este nível, abre a boca, mostra os dentes e o fastio. E, enquanto lambe uma pata, responde-me que os seres humanos são para isso mesmo, para desassossegar, para acordar com miados sonoros e patas frias sobre as caras de sono.

Do seu quadrado de sol, a Marquesa não entra na conversa. Paciente, conhece de cor o meu coração, os meus hábitos. O aspirador há-de calar-se, em breve o sol e o silêncio vão juntar-se no sofá para uma soneca no colo. Mais tarde ou mais cedo, consoante a birra que houver entre nós, assinaremos a paz. O tigre salta-me para a barriga, ronrona, ajeita-se e dorme. Protege-me, fâ-lo desde o dia que a retirei de uma jaula na SPAD.

Como seriam as manhãs de terça-feira sem estes dois? Que pulam, miam, exigem e arranham? E todos os outros dias? Devo-lhes o sossego e muitas lições sobre essa forma suave e inteligente de atravessar a vida. Li muito, leio muito, somo viagens, experiências, tenho alguns amigos, um marido, mas ninguém foi tão claro quanto à existência como estes gatos. Entre bocejos e longos sonos, há um tempo para tudo e eles sabem que sim.

De Inverno, porque faz frio, engordam; no Verão, lambem sem interesse o paté e emagrecem como se, em si, tivessem um relógio preciso. E, nos dias que correm entre as estações, são gatos. Correm desabridos, perseguem moscas e lagartixas, enfiam as garras nas pernas quando sentem que lhes falta atenção. Enroscam-se, a pedir carinho, viram as costas se exageramos. Amuam, eriçam o pêlo e mostram as unhas, às vezes, deixam marcas a latejar nas mãos. Enfrentam e recuam, escondem-se com medo e vergonha e têm uma maneira muito especial de dizer que gostam de nós.

Mostram a barriga, a rebolar no chão, a dizer que um gato – que é um bicho bravio, uma máquina de sobrevivência – também é meigo, capaz de mostrar o seu lado frágil a quem merece a confiança. Quando chegamos a este ponto, quando vemos – como eu vejo todos os dias – a barriga de dois gatos, então quer dizer que fizemos um longo caminho para compreender o Mundo, a vida que nele existe e os seus habitantes.

Antoninho, terra e água


Marta Caires,

  

 

Descansou a foice e limpou o suor da testa, havia dias que o ar custava a entrar e o coração batia descompassado. Antoninho tirava o chapéu e sentava-se. Ficava ali, a ouvir a água da levada a correr para o poço, a deitar os olhos ao mar e à cidade, ao porto e ao Canberra. A moer, pior do que o coração desgovernado, era a culpa que, sem perceber, lhe chegava com 30 anos de atraso.

Estava no feijão a tratar das estacas quando o mau pensamento pesou pela primeira vez. Ao sair de casa, dois poios abaixo, Ezequiel olhou-o de frente. O sobrinho tinha esse costume. Vira-o, fedelho de oito anos, a assumir a responsabilidade no funeral do pai. O rapaz nunca foi de baixar os braços e, quando Augusta, a mãe, não teve remédio senão ir trabalhar para a casa de bordados, tomou conta da horta e das galinhas.

A casa e a horta escaparam à gula de terra de Antoninho que, sempre de olho em Ezequiel, via-o chegar da escola, cuidar das abóboras e das couves, assobiar ao ‘Lobo’ e sumir-se nos pinheiros à procura de lenha. O rapazinho carregava para si e para quem pagasse, era rijo e atinado, brilhava ao domingo na missa e ainda mais se por perto estivesse o desalmado do Francisco, o filho que Agostinha lhe dera depois de perder uns cinco ou seis.

Antoninho não tinha amor à mulher e o filho parecia-se muito com ele. Reconhecia-lhe a avidez, aquela alma amputada de sentimentos que torturava largatixas e jogava perdas aos cães e gatos, a tudo o que mexesse e tivesse vida. Quando Agostinha se foi, pele e osso, depois de duas pneumonias, suspirou de alívio ao ouvir o rapaz anunciar que ia clandestino para a Venezuela.

Ficou só e, uns meses mais tarde, Augusta, com os pulmões consumidos pelos gases de petróleo da casa de bordados e pela tuberculose, juntou-se ao marido. Ezequiel chorou, com aquele aprumo que o tio cobiçava. Antoninho era o Antoninho, os leiteiros na venda diziam que era ladrão e a língua afiada da Rosarinho enchia o sítio com a história do roubo das terras. E era verdade, era um ladrão de viúvas e órfãos, mas em 30 anos nunca isso lhe tirou o sono.

Agora andava maniado, o dia em que enfiara nas mãos de Augusta o papel da doação, forjado no advogado da Rua da Carreira e pago com o cordão de ouro da mulher, não lhe saia da cabeça. Ficou pior quando Ezequiel bateu à porta, naqueles modos de fidalgo, a dizer que lhe queria falar, assunto importante, coisas de família. Antoninho quase o enxutou, disse que era tarde e tinha umas horas de água de giro que não podia perder, o feijão ainda secava com o calor.

Ezequiel voltou no domingo, cabelo lambido de brilhantina e barba feita. Estava no terreiro, de camisa lavada e olhos postos no seu meio hectare de terra. Quando não estava em redor das vacas ou a limpar os muros, Antoninho consolava-se assim, com os olhos na terra e na água lhe custaram a alma. Enquanto o sobrinho esperava na sombra do damasqueiro, foi à loja buscar a foice e, à cautela, manteve a distância.

Vermelho como o tomate, Ezequiel gaguejava e Antoninho quase não ouvia a arenga, que era a única família que tinha, pois o pai morrera-lhe em criança e a mãe não aguentara a vida dura da casa de bordados. Estava só e o tio também, tinha andado a pensar no futuro, no que iam fazer os dois por ali, naquelas terras. Andava às voltas e, à cabeça do velho, vinham as imagens da Augusta a assinar a escritura a pensar que pagava a conta da farmácia com as terras do marido. No peito, o coração desgovernou-se, limpou o suor da testa e sentiu que se apagava. Só no fim, quando pouco mais tinha do que fio de vida no peito, percebeu que Ezequiel queria casar e vinha pedir conselhos ao tio, o que lhe restava de família.

A inveja


Marta Caires,

Há uns anos, quando a crise ainda não tinha tomado conta dos espíritos, José Gil escreveu um livro sobre o medo de existir, esse terror português que pede desculpas por respirar, por ter ideias, por andar e viver. O filósofo avançava razões para este atavismo histórico, recuava à ditadura, ao que a revolução não fez e, por último, à essência da sociedade. E, lá, por detrás dos debates, foruns e antenas abertas nas televisões, na Internet e nas rádios, o investigador detectava a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso.

A inveja, ainda que feia, é humana, até os santos a sentem. Inveja por alguém mais bonito, pela abundância, pela alegria, mas aquilo que mina as relações sociais não é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros. O impulso é como a espuma na areia, desfaz-se e não deixa rasto. A inveja – a que se instituiu entre os portugueses – é patológica, obssessiva. Corre sinuosa nas apreciações negativas, na troça de pequenos nadas. O rapaz do 2º esquerdo é entrevistado na televisão, diz coisas inteligentes e, quando sai à rua na manhã seguinte, depara-se com o risinho irónico a bailar na cara do vizinho da frente.

Não sabe, mas pressente que, no café, na bica antes de ir trabalhar, a inveja fez a festa. O parvalhão armado em doutor, arrogante, um barriga de vento. O rapaz do 2º esquerdo, que é sério, que pediu polícia no bairro e um baloiço novo para o parque infantil, deixou de ser quem sempre foi, o amigo, o bom vizinho que emprestou cinco euros à velhinha do 5º direito e defendeu o estroina do último andar na reunião de condomínio. Segue a rotina de todos os dias sem saber ainda que, no bairro, subiu ao Olimpo do despeito. Por lá, na mesma galeria de indesejados, está a jeitosa do 3º andar.

O cabelo castanho claro, as pernas altas, a roupa a condizer e o Mazda desportivo no estacionamento. Foi por essa porta que a inveja passou a galope. As mulheres porque era bonita; os homens porque o Mazda os esmagou, o bairro inteiro porque era a jeitosa e tinha dinheiro. Em pouco tempo, passou de bonita a antipática, ninguém deu que era apenas tímida, a hostilidade no elevador não ajudou. Quando deixou de dar os bons dias, corria veloz – como só a má-língua consegue ser – a história que subira na empresa onde trabalhava com favores sexuais. As 12 horas no escritório, a solidão dos domingos, o esforço, aquelas olheiras que enegreciam o rosto ainda jovem? A inveja só vê a mulher bonita ao volante do Mazda verde.

Machismo? Isso existe?


Marta Caires,

O canil, com as jaulas cheias, arrepia. Os cães ladram eufóricos, percebem que as duas raparigas de jeans e t-shirt querem dois para levar às tias. E saltam, ladram, dizem com a cauda a abanar que são os mais bonitos, os meigos, os mais aptos para guardar uma casa, um jardim, uma fazenda de tias velhas. A senhora das limpezas aponta: estes podem ir, estes não. Machos? Não há, são os primeiros a arranjar dono.

Ninguém quer as fêmeas, ninguém ouve sequer as explicações das veterinárias da Sociedade Protectora dos Animais Domésticos. A esterilização é de graça, não custa mais do que os 40 euros da taxa de adopção. São cadelas e basta, estão condenadas a uma vida de prisão. Os irmãos partem e elas, bonitas ou feias, crescem nas jaulas da Sociedade. Um dia, quando é impossível continuar uma existência de poucos metros quadrados, começam a rodar sobre si próprias, condenam-se à loucura e à eutanásia.

As duas raparigas, surdas pelo barulho, apontam para uma jaula, para duas fêmeas pretas e amarelas. São aquelas, as tias vão protestar, mas na fazenda sempre houve cadelas, gatas e muitas mulheres. A compaixão, o afecto, o carinho, tudo isto se mistura quando a Tia Alzira olha para a caixa e sorri. "Eu não queria, mas são tão bonitas…" E em pouco minutos as cadelinhas estão a correr atrás da tia Encarnação, que é a alma daqueles quintais, da capoeira, da romãzeira em flor e dos gatos a dormir no terraço.

Só a Julieta torce o nariz. Não gosta de cadelas, um cão é outra coisa. Um cão, um gato, um rapaz. Aos 80, é tarde para explicar, para falar de direitos, para insurgir-se contra o preconceito que a leva a encontrar qualidades no que vem dos homens, dos cães, dos gatos. As mulheres são as mulheres, são as que ficam para ajudar nos casamentos, nas festas, para os velórios e para ouvir o choro e o desgosto. Como as gatas, as cadelinhas, esse exército de fêmeas que nunca baixa a guarda.

A corrente do ego


Marta Caires,

Distraída, dei pelo desafio do João Carvalho ainda agora, quando fui ver os posts atrasados da semana. E aqui vão seis coisas de que gosto.

 

– Gosto de gatos, dos meus e dos que encontro em cima dos muros, debaixo dos carros, a dormitar ao sol. São suaves e inteligentes do modo que eu gostava de ser.

 

– Gosto do mar e do sol, dos dias quentes no fim da Primavera quando a minha cidade se enche de jacarandás em flor e a tardes crescem.

 

– Gosto desse lugar em que Oriente e o Ocidente se cruzam para lá da Itália, entre a Grécia e o Egipto, onde os homens parecem condenados a desentenderem-se.

 

– Gosto de ler e de livrarias, de parar e esquecer que há Mundo, sentada no sofá, com um gato aos pés e outro no colo.

 

– Gosto de vestidos de Verão e sandálias sem salto, de perfumes leves e o cabelo solto, de olhar-me de lado no reflexo das montras das lojas.

 

– Gosto de ouvir histórias. Casos banais, conversas no autocarro ou na rua. Que sejam de ficção ou verdadeiras, gosto de as ouvir, às vezes, de boca aberta de espanto.

 

E agora passo a corrente à Leonor Barros, André Couto, Pedro Correia, Carlos Barbosa de Oliveira, Teresa Ribeiro e José Gomes André.

 

O Almada e a sorte grande


Marta Caires,

Quando o encontrei, de boné e meio grão na asa, o Almada já não estava bom para entrevistas. Entre abraços e copos no ‘Vera Cruz’, tinha esquecido o valor do prémio do Euromilhões, só sabia que era muito dinheiro. 900 mil euros podem mudar uma vida, mas o que guardo do Almada é que estava feliz por continuar a ser o que era, o que sempre fora. O pintor de sinais de trânsito da Câmara, o irmão de muitos irmãos, o tio de muitos sobrinhos.

Um obscuro funcionário municipal com sorte no Euromilhões é uma história e nós gostamos muito de histórias. E ali estava eu, de bloco de notas, a pedir projectos, extravagâncias, sonhos, viagens de ida e volta à Lua. Nada, o Almada respondia-me distraído, abraçava os amigos de sempre. Sim, sim… Havia de ir buscar o prémio a Lisboa. Sim, sim… ia ajudar a família. Agora, estava ali, conversava, ajeitava as calças e o boné, ria-se.

Desisti dos apontamentos, há momentos que não se fixam em frases. O Almada é um achado. Não tinha projectos, nem amarras, não ouvi falar em casa ou carros, tanto lhe dava o dinheiro chegar já ou depois. Ele havia de continuar com o seu boné e a colecção de miniaturas de navios, as passeatas pelo Apolo e o ‘Vera Cruz’. Mais 900 mil, menos 900 mil, não faziam diferença.