Há uns anos, quando a crise ainda não tinha tomado conta dos espíritos, José Gil escreveu um livro sobre o medo de existir, esse terror português que pede desculpas por respirar, por ter ideias, por andar e viver. O filósofo avançava razões para este atavismo histórico, recuava à ditadura, ao que a revolução não fez e, por último, à essência da sociedade. E, lá, por detrás dos debates, foruns e antenas abertas nas televisões, na Internet e nas rádios, o investigador detectava a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso.
A inveja, ainda que feia, é humana, até os santos a sentem. Inveja por alguém mais bonito, pela abundância, pela alegria, mas aquilo que mina as relações sociais não é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros. O impulso é como a espuma na areia, desfaz-se e não deixa rasto. A inveja – a que se instituiu entre os portugueses – é patológica, obssessiva. Corre sinuosa nas apreciações negativas, na troça de pequenos nadas. O rapaz do 2º esquerdo é entrevistado na televisão, diz coisas inteligentes e, quando sai à rua na manhã seguinte, depara-se com o risinho irónico a bailar na cara do vizinho da frente.
Não sabe, mas pressente que, no café, na bica antes de ir trabalhar, a inveja fez a festa. O parvalhão armado em doutor, arrogante, um barriga de vento. O rapaz do 2º esquerdo, que é sério, que pediu polícia no bairro e um baloiço novo para o parque infantil, deixou de ser quem sempre foi, o amigo, o bom vizinho que emprestou cinco euros à velhinha do 5º direito e defendeu o estroina do último andar na reunião de condomínio. Segue a rotina de todos os dias sem saber ainda que, no bairro, subiu ao Olimpo do despeito. Por lá, na mesma galeria de indesejados, está a jeitosa do 3º andar.
O cabelo castanho claro, as pernas altas, a roupa a condizer e o Mazda desportivo no estacionamento. Foi por essa porta que a inveja passou a galope. As mulheres porque era bonita; os homens porque o Mazda os esmagou, o bairro inteiro porque era a jeitosa e tinha dinheiro. Em pouco tempo, passou de bonita a antipática, ninguém deu que era apenas tímida, a hostilidade no elevador não ajudou. Quando deixou de dar os bons dias, corria veloz – como só a má-língua consegue ser – a história que subira na empresa onde trabalhava com favores sexuais. As 12 horas no escritório, a solidão dos domingos, o esforço, aquelas olheiras que enegreciam o rosto ainda jovem? A inveja só vê a mulher bonita ao volante do Mazda verde.

Discordo em absoluto da inveja intrinsecamente portuguesa. Adiante. O Mazda desportivo verde da pequena é um MX-5 dos últimos? Ela trabalha 12 horas por dia e fica sozinha aos domingos? Hum… esse escritório deve pagar bem… Ou ela é que se faz pagar bem. O carro não lhe caiu do céu. Com aquelas olheiras… está-se mesmo a ver… Farta-se de trabalhar… Com aquelas pernas até eu já estava reformado…
Até eu, que não sou dado a essas coisas, gostava de conhecer a moçoila…
Uma antipática que não interessa a ninguém…
No fundo, no fundo, não sei se será…
Bem, parece que só andas a fazer-te ao piso à jeitosa do MX. Nem ligaste àquela parte do rapaz do 2.º esquerdo. Se calhar é porque ele falou foi à TVI…
eheheheh
Nem mais. É um atavismo clássico.
Foi o que ela disse ao patrão. Num daqueles momentos a sós com o velhote, não se conteve:
– Vê lá se t’avias, ó clássico!
Que más-linguas, chiça!!
Eu não sou nada invejosa mas sempre ouvi dizer que «quem cabritos vende e cabras não tem de algum lado lhe vem»
Muito bem escrito
Bah, essa jeitosa do Mazda deve ter subido a pulso mas foi para a cama do chefe…
É o que consta. Eu já soube de tudo (ver mais acima).
Ela é um ganda coiro!
E vai-se a ver, tem os dentes podres!
Logo vi… galdéria!
E eu nem contei tudo o que me disseram dela… Cala-te boca…
” A inveja – a que se instituiu entre os portugueses – é patológica, obssessiva” […]
[…] “a raiz do mal na inveja que despreza o mérito, deprecia a criatividade e condena ao silêncio tudo o que possa florescer e ter sucesso”.
Absolutamente de acordo.
(Estranhos comentários, esses anteriores…)
Marta:
Estou perdido de riso, depois de ter lido todos os comentários jocosos dos nossos bloggers ao seu magnífico post. Assim, vou (tentar) dizer qualquer coisa séria.
Como o José Gil bem refere, os portugueses têm medo da própria sombra e, constantemente, pedem desculpa de existir. É já ancestral entre nós, este tremelicar constante perante tudo e todos. Dantes, atribuía-se este comportamento à duração da «longa noite fascista». Porém, o que se constata acualmente, é que mais de 30 anos volvidos, agora em democracia, tudo continua como dantes, se não pior. O mal da nossa(s) sociedade(s), da nossa politiquice, é que têm investido muito mais no ter do que no ser, nos tais “Mazdas” e em todo o género de bugigangas semelhantes que, no fim de contas, não só não o enriquecem como não acrescentam nada à verdadeira dimensão do homem. E a inveja é exactamente isto: eu invejo-te porque gostava de ter mais do que tu, não porque quisesse ser humanamente melhor do que tu. Tenho (sempre) esperança que uma nova ordem mundial esteja a caminho e que as coisas comecem realmente a mudar…
Como escreveu o John Lennon, “You can say I’m a dreamer, but I’m not the only one…»
Are you a dreamer, Marta?
Querias uma nova ordem mundial? És um invejoso, é o que tu és…
“é este imponderável, essa fraqueza de querer a felicidade dos outros” – fantástico texto Marta .. e tão real quanto o ensinamento desta pequena frase. Tristes os que acham que de alguma forma conseguem viver vidas alheias.
Perdem a própria e nunca o conseguirão 🙂