Porque fui ver o ‘Invictus’ este fim-de-semana e as imagens do filme de Clint Eastwood têm cheiro e memórias.
Tinha 27 anos quando aterrei no Aeroporto de Joanesburgo. Os sonhos estavam em desalinho, queria a vida de um só golpe e, no passaporte, o visto de emprego concedia-me seis meses para os arrumar. Ainda hoje penso por que motivo desembarquei naquela cidade violenta e de ruas vazias com este objectivo, mas somos insondáveis como os desígnios de Deus.
Joanesburgo não se parecia com nada que tivesse visto, que conhecesse ou imaginasse. Do céu, quando o avião cansado de muitas horas de voo e uma paragem sem fim em Kinshasa começou a descer, vi os brilhos azuis das piscinas, os jardins e as casas. Lembro-me de ter pensado que era um bom sítio para refazer o coração, colar os cacos da alma e renascer. Uma miúda de 27 anos tinha assim tantas mágoas, tanto sofrimento?
Não sei bem. Os anos antes desse em que me mudei para Joanesburgo foram terríveis. Fiquei doente, perdi a minha mãe, baptizei-me na vida e não sabia onde encontrar-me no meu Funchal, morno e protector. A cidade estava igual, as tipuanas e os jacarandás tingiam as ruas de amarelo e lilás todas as Primaveras, as iluminações regressavam no Natal e o fogo de artifício rebentava a 31 de Dezembro para um coração que doía, doía muito.
E, de repente, estava na fila da imigração de um aeroporto a muitos quilómetros de casa, atrás de um grupo de nigerianos e à frente de um emigrante da Ponta do Sol que passara 30 dos seus 50 anos entre a África do Sul, a Rodésia e Moçambique. Do outro lado, o director do meu novo jornal esperava-me sorridente. Ao princípio, somos sempre amigos, não trazemos ressentimentos, nem achamos possível guardar rancor.
A comunidade portuguesa, grande e dispersa, juntava-se aos fins-de-semana nos clubes. Entre bailes e jantares, recriava um Portugal que já não existia, que nunca tinha existido. Bebia vinho, comia feijoada e os filhos falavam um português onde o "shame’, o ‘nice’ e o ‘yah’ se misturavam com o acento madeirense. Não me esperavam e, tal como Joanesburgo não se parecia com o meu mundo conhecido, eu também não me parecia com nada que conhecessem.
Para lá dos clubes, do meu jornal e do sul de Joanesburgo – onde os portugueses viviam – a cidade fechava-se em gradeamentos, sistemas de alarme e, pelas ruas vazias, soprava uma brisa de medo. As famílias descontraíam nos centros comerciais. A mim, nascida num lugar de mar e sol, estes momentos sufocavam, fazia-me falta andar, mas estava ali para me recompor. Se olhasse além das minhas perdas talvez percebesse.
Não me lembro bem quando comecei a olhar. Não se foi antes ou depois da visita ao Soweto, antes ou depois de começar a ler os jornais e as histórias trágicas que todos os dias contavam. Houve um momento em que as mãos de um homem a depor na Comissão da Verdade me prenderam. O homem, com barba e ainda novo, tinha ganchos no lugar das mãos, foi o que lhe sobrou depois de receber uma carta armadilhada pelos serviços secretos do Apartheid. A seguir a este homem – com lágrimas, barba e ganchos – vieram outros.
As vítimas das bombas dos grupos radicais negros, os infelizes dos campos de treino em Angola e da tortura da polícia. Um país, uma democracia de dois anos, abria as feridas para as tentar curar, para poder passar adiante e reconciliar-se. Aquelas vidas tinham horror, violência, crueldade em graus que nunca saberei bem quais são, como são. Com coragem, confessaram as dores e o sofrimento, mas também os horrores que praticaram.
Os jornais publicaram páginas e páginas de tortura e ódio. Um ódio cego, um desrespeito perante o outro que não sabia ser possível, que vinha descrito em detalhe e trazia anexos de provas. Ao fim, quando se juntou num relatório, o poder branco e o poder negro tentaram esconder as conclusões. Era muito, demasiado, o sangue sujava os partidos, o ANC e o National Party. O passado arriscava-se a ficar debaixo do tapete e escondido por uma providência cautelar não fosse a grandeza de Nelson Mandela e Desmond Tutu.
Quando deixei Joanesburgo, num fim de tarde de Dezembro, as conclusões da Comissão da Verdade e da Reconciliação respiravam livres, eram públicas e estavam disponíveis para quem as quisesse ler. Mandela preparava-se para deixar a presidência da África do Sul. Tinha cumprido a missão, o sonho, fechado o ciclo de luta e 27 anos de prisão. É, eu tinha corrido para Joanesburgo para tentar curar-me da vida e, nesse fim de tarde, percebi que o único remédio para a vida é vivê-la. Ao longe, na estrada para Pretória, um jacarandá lilás brindava, em apoteose, a Primavera.


Belíssimo post.
Excelente, Marta. Fiquei sem mais palavras.
Há muito que sou chegado à Madeira, ao Funchal que reencontro regularmente, à ilha que me ampara a alma sempre que preciso. Quando se tem origens num lugar assim, nascem textos assim. De reencontro e alma.
….”o único remédio para a vida é vivê-la”. Muito bom.
Muito, muito bom, Marta.
(ainda bem que “chamei” por ti…)
Magnífico, Marta. Ainda bem que partilhou este post connosco.
Que texto fantástico, Marta. Parabéns… “o único remédio para a vida é vivê-la”. Gostei.
Um texto maravilhoso. Magnífico mesmo.
Ainda melhor que Coetzee.
Em boa hora reclamei o seu regresso, Marta. Cada post que escreve é um deslumbramento.Volte mais vezes, está bem?
“Ao longe, na estrada para Pretória, um jacarandá lilás brindava, em apoteose, a Primavera.”
Abraço!
(e parabéns por um dos melhores textos que já li em tudo o que já li)