“A neve é da cor que a gente quiser!”


Marta Caires,

 

O reflexo das garrafas de licores, os bolos que se faziam, os tesouros escondidos que emergiam das gavetas para arejar o mofo, a lã dos colchões estendida ao sol. O Natal anunciava-se assim, como uma Festa, que exigia limpezas, doces, uma lapinha e brinquedos no sapatinho encomendados ao Menino Jesus. O Pai Natal ainda não tinha sido inventado e, por isso, da minha infância não trago o trauma de ter descoberto que o simpático senhor afinal não existe.

É certo que custava a crer que aquele menino, tão pequenino, descia pela chaminé para entregar a boneca que abria e fechava os olhos e até chorava. Não era, no entanto, o único prodígio da quadra. Atónitos, o meu irmão e eu, ouvíamos as explicações mágicas da minha mãe. O Menino Jesus, mesmo pequeno e acabado de nascer, podia e ia a casa de todas as crianças entregar prendas. Ia e podia porque era Deus e, como se sabe, a Deus nada é impossível. A Deus e à minha mãe que, nas vésperas da Festa, se desdobrava em muitas, entre aviar o bordado para a "casa" e arrumar a casa, ainda lhe sobrava tempo para nos falar de fantasia e desencantar um pinheiro e um presépio. Feito à última hora, deixando-nos a sensação que talvez não houvesse. Nem rocha feita de papel, nem bolas, nem os bonecos de barro, nem as palhinhas.

«Mãe, mãe é quase dia de Natal e não temos a lapinha!», mas a minha mãe respondia com espírito e dizia que íamos muito a tempo. «Ainda não nasceu, ainda não nasceu.» E, por artes que só ela conhecia, todos os Natais o Menino Jesus nascia em nossa casa, num presépio de improviso, feito em cima da mesa que também servia para engomar. Maria, José, o menino, a vaca, o burro, os pastores e as ovelhas (quase todos bonecos colados e recolados) saíam de dentro da caixa de sapatos e faziam a Festa, ao lado do alegra-campo, das bolas de soprar e dos pós que coloriam os arredores da gruta de papel. A fazer de neve e que tanto podia ser cor de rosa, branca, dourada, azul, verde, vermelha. Porque, na lógica do Natal da minha infância, a neve não era só branca ou dourada por mais que se tentasse chamar a minha mãe à razão. Ela, que se divertia mais que todos nós juntos, encolhia os ombros e dizia sempre o mesmo: «Vocês não percebem nada disto. A neve é da cor que a gente quiser!»

E não percebíamos mesmo. Ao nosso olhar de crianças escapava o mundo que a minha mãe nos mostrava através da porta dos impossíveis. De um menino acabado de nascer que trazia presentes, da neve que era das cores que lhe vinham à cabeça e lhe sujavam os dedos, da fantasia à medida da imaginação. Talvez por isso não guardo lembrança de prendas especiais, mas da alegria que nos enchia a casa durante o mês de Dezembro. E hoje sei apenas que, se quiser, serão verdadeiras todas as explicações mágicas da minha mãe. Para o Natal e para a vida. Afinal, a neve é mesmo da cor que a gente quiser.

O cenário enche de brilho e luzes, segredando ao ouvido que Dezembro merece um sorriso. Em nome da memória e da infância. E a memória leva-me quase sempre aos tempos felizes e à época em que dava à justa pela beira da mesa, seguindo para todos os lados a minha mãe e as minhas tias. Não podia – não queria – perder um momento que fosse dos dias que antecediam o 25 de Dezembro, nem dos que se seguiam, entre visitas a primos e primas, conhecidos e desconhecidos, do primeiro ao quarto grau.

5 comentários em ““A neve é da cor que a gente quiser!””

  1. Marta, belíssimo texto – cheio de ternura – percebi nele uma bonita homenagem à sua mãe. Revi-me no Natal da sua infância – recordei os presépios com lagos de prata ( dos chocolates) com musgo apanhado em dias de chuva, farelo pintado a várias cores, pedras vulcânicas tudo a fazer parte de um cenário que, quase, todos os anos mudava, dependia da criatividade da minha mãe, ela que dizia – “o deserto pode sempre mudar de cor”.;))
    Obrigada, matei saudades, Marta.

  2. Parabéns Marta 🙂 texto que inspira a ternura que ainda sente e naquilo em que vale realmente acreditar 🙂

    e sim .. a neve é da cor que quisermos *

    Festas Felizes

  3. Boa Tarde. Inicialmente, registro que sou brasileiro,moro em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. Apenas hoje, 27 de janeiro de 2012, li e me encantei com o seu belo texto e mensagens nele contidas. Em minha casa todos os anos,desde a época de meus bisavós, sempre montamos um “Presépio”, ou Lapinha, como vocês o chamam ai em Portugal.
    No Estado de Minas Gerais, unidade federativa do Brasil, onde moro, é grande a tradição religiosa em consequência da colonização portuguesa e das obras barrocas de Aleijadinho e outros mestres . As cidades de Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e tantas outras, são presépios (ou lapinhas) ao vivo.
    Seu texto muito me emocionou, e como vivo em um páís tropical, onde não neva, exceto em pouquissímas cidades ficam bem ao sul e que fazem fornteira com a Argentina, penso que ela pode ser azul, amarela, rosa ou vermelha, conforme nossos sonhos e esperanças…livre, como o poeta desejar. Felicidades e muito obrigado por ter me permitido ler suas inspiradoras mensagens.
    Daqui, do Brasil, país de tantas contradições, belezas e misérias, aquele abraço fraterno e cristão

    Marcelo Braga

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