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Rui Rocha,

Uma visão única, crítica e com memória histórica do mundo da guerra fria e da influência soviética num certo Portugal. Uma fonte imprescindível de informação sobre política internacional com particular atenção ao papel cada vez mais incontornável da Rússia e ao perfil singular de Vladimir Putin. O Da Rússia, do extraordinário José Milhazes, é o blogue desta semana.
Com o ataque dos Estados Unidos à Síria, corres o risco de ser convidado para partipar numa discussão televisiva ou radiofónica sobre o tema. Não percebes pevide do assunto? Nada temas. Tens aqui tudo o que é necessário para saires do debate em ombros.
Intervenção inicial: transmite com clareza a tua visão abrangente sobre o problema e as suas diversas implicações. Frase a utilizar: “é demasiado simplista colocar as coisas em termos de Ocidente contra Rússia. O mundo de hoje é multipolar e global. A Síria é um tabuleiro político para onde confluem questões geoestratégicas com ramificações que vão muito além da influência regional”. Olha em redor para todos os outros participantes com ar confiante. Marcaste pontos. Alisa a franja do cabelo como se fosses o Nuno Rogeiro e não contraries a tentativa de intervenção que certamente um outro tertuliano tentará fazer. Já ninguém conseguirá ultrapassar uma análise global tão abrangente como a tua a não ser que invoque uma invasão iminente de marcianos.
Intervenção subsequente: demonstra inequivocamente o teu conhecimento sobre a linha estratégica trilhada pela Rússia como elemento chave no contexto internacional. Frase a utilizar: “a Síria tem uma importância fundamental para Putin (aqui pronuncia como o Zé Milhazes) sobretudo tendo em conta os desenvolvimentos recentes na Península Turca e a ambição política e militar do regime de Ankara”. Mais um tiro certeiro da tua parte. Acabaste de antecipar-te ao tertuliano que tinha prontinha uma intervenção sobre Erdogan. A Turquia é uma referência fundamental nestas discussões. Tu foste o primeiro a trazê-la para a mesa.
3ª Intervenção: é o momento de revelares ao mundo não só o teu domínio da geopolítica mas também do processo histórico de evolução das ideias. Frase a utilizar: “no fundo, tudo isto representa a derrota do pensamento central de Fukuyama (faz descair ligeiramente e com condescendência o teu lábio superior, tal e qual como faz o Miguel Sousa Tavares). A História não acabou… a História não acabou, a verdade é essa. Estamos, não sei se concordarão, perante o regresso da geopolítica”. Concordarão, claro. Com a mesma vontade com que as galinhas concordam sobre a importância do milho. Se não fosse a geopolítica não estavam todos ali, não é?
4ª intervenção: o pensamento humano tem enorme apetência por analogias. Conquista terreno abusando de comparações. Aqui não faz sentido amarrar-te a uma frase pré-definida. Dá largas à tua imaginação. Refere os balcãs, o império austro-húngaro, o Cisma do Ocidente, Hitler, o Czar Branco (não existiu, mas tal como tu, os outros não sabem), Estaline, Richelieu, Pedro o Grande, Zé do Telhado, Tira-Dentes, Átila o Huno, enfim, vai por aí fora. O céu é o limite.
5ª intervenção: está na altura de preparar o KO dos restantes tertulianos. Chegou a hora da filologia. Frase a utilizar: “é preciso termos presente que o território da Síria actual foi sucessivamente colonizado por canaanitas, fenícios, arameus, hebreus, egípcios, sumérios, assírios, babilónios, hititas, persas, gregos e bizantinos. Mas é preciso ter em conta que esta Síria não é a Síria a que Heródoto, por exemplo, se referia. Essa Síria do Heródoto coincidia com o território da Capadócia e por aqui se vê como a própria situação turca está sempre presente nestas questões”. Olha fixamente para os restantes participantes na discussão. Goza o momento. Fodeste-os.

Esta noite tive um pesadelo. Sonhei que, na edição de 1 de Abril de 2017, o Expresso tinha uma notícia que era mentira. Vale a pena dizer que este pesadelo não foi completamente desfasado da realidade. O Expresso costuma publicar todos os anos a 1 de Abril uma notícia que é mentira. Em 2016, por exemplo, o Expresso noticiou que o Facebook iria “controlar as amizades de acordo com os gostos comuns e os rendimentos pessoais”. Pois bem. No meu pesadelo, a notícia inventada do Expresso de 1 de Abril de 2017 era a “sondagem” de Mário Centeno para presidir ao Eurogrupo. Enfim, uma mentirinha inocente, sem consequências, facilmente identificável se pensássemos um bocadinho: improvável, inverosímil mesmo, sem qualquer fonte credível. Apesar disso, no meu pesadelo, a notícia começou a ser divulgada por outros órgãos de comunicação social. Sem que nada o fizesse prever, aquilo que era uma notícia sem pés nem cabeça, acabou por ganhar relevo e destaque. De tal forma que o próprio Presidente da República foi confrontado com ela. E comentou-a: que não tinha qualquer informação sobre o assunto, mas que preferia que o Ministro continuasse em Portugal, que era muito necessário e coiso e tal. No meu pesadelo, perante isto, os responsáveis do Expresso viram-se confrontados com uma decisão complicada. Ou divulgavam, como fazem todos os anos, qual a mentira de 1 de Abril que tinham noticiado e expunham os outros órgãos de comunicação social e, mais grave, o Presidente, ao rídiculo, ou faziam de conta como se o jornal se tivesse esquecido este ano de pregar a partida do costume. No meu pesadelo, os responsáveis do Expresso optaram por esta última hipótese, tendo em conta, aliás, o desconforto que o Palácio de Belém lhes fez chegar. No meu pesadelo as coisas foram assim mas felizmente tudo não passou de um pesadelo. Quando acordei fiquei mesmo muito aliviado. Ainda bem que o Presidente do meu país não andou a comentar, com pose de Estado, mentiras de 1 de Abril. Seria uma vergonha, não é? Só há uma coisa que me deixa um bocadinho preocupado. Já acordado, fui procurar a tal mentira de 1 de Abril de 2017 do Expresso. E não encontrei nenhuma referência do jornal ao tema. Estranho. Ainda mais se tivermos em conta que o Expresso publica sempre uma mentira de 1 de Abril.
O Fidel Castro bateu a bota na Black Friday. O George Michael embarcou no último Natal. Envio daqui um abraço solidário ao Zé Sócrates que deve estar a viver este 1 de Abril num estado de enorme tensão.
Esta coisa de o dia ter menos uma hora é só para funcionários públicos ou aplica-se à população em geral?
Temos de ajudar o Presidente Marcelo a não acabar com a dignidade durante o mandato.
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana
Vamos lá ver. Não teremos verdadeira igualdade se o objectivo for que as mulheres assumam as mais diversas funções por serem competentes. Na verdade, só poderemos falar realmente de uma situação justa quando as mulheres incompetentes ascenderem a cargos em igualdade de circunstâncias com os homens incompetentes. É uma matéria em que fizemos significativo progresso mas temos de reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer.
(Assinalados a vermelho os países com regime comunista em que foi respeitada a liberdade de expressão)
Pode questionar-se o contexto e a oportunidade, mas por uma vez o Presidente Marcelo teve razão. O défice de 2016 não ficou de facto a dever-se a qualquer milagre, mas saiu efectivamente do pêlo dos portugueses. Saiu do pêlo dos portugueses que viram os serviços públicos degradarem-se pelo efeito das cativações. Saiu do pêlo dos portugueses e continuará a sair na medida em que a contracção dramática do investimento afecta o potencial futuro de crescimento da economia. Saiu do pêlo dos portugueses que sofreram com o aumento da carga fiscal global por via da subida dos impostos indirectos. Saiu e continuará a sair-lhes do pêlo na medida em que sendo um resultado em parte obtido por via de medidas que não resolvem os problemas estruturais da economia e, em alguns casos os agravam, acentuando as suas distorções, acaba por traduzir-se numa subida dos juros da dívida, condicionando o presente mas sobretudo o futuro dos portugueses. Na ânsia de responder a Teodora Cardoso e de proteger Costa uma vez mais, Marcelo fez o diagnóstico cru da realidade. Ao contrário do que diz o discurso oficial do governo, não se fechou de todo a página da austeridade. O pêlo dos portugueses pagou e continuará a pagar.
Então e a indústria de Hollywood? Tão avançada, tão progressista, tão activista, tão pelos direitos, tão pelas minorias, tão anti-estereótipo, tão anti-Trump. E depois, vai-se a ver e é na própria cerimónia dos Óscares que se perpetua a discriminação de género. Um Óscar para o melhor actor e outro para a melhor actriz? Porquê? O que é que a Academia quer dizer com isso? Acaso as mulheres não seriam capazes de ganhar aos homens se concorressem na mesma categoria? É isso? É o contrário? E os intergénero? Onde está o Óscar para os intergénero? Pelo Óscar unificado para o melhor desempenho sem discriminação de género, já! E, se for preciso, com quotas, para evitar abusos. E, já agora, o Óscar para o melhor desempenho animal? O PAN não diz nada? Mas que vergonha é esta? E os preocupadinhos com o brinquedo para meninos e para meninas do McDonald´s? Onde é que andam?
A Ryanair, por exemplo, tem partidas do Porto para Roma Ciampino às quartas com regresso às segundas. Marcando com antecedência, encontras viagens de ida e volta para duas pessoas por 150 euros. Cinco noites de hotel com mais que razoável conforto na capital italiana saem-te por 450 euros. Estimemos ainda um total de 400 euros para transportes e alimentação. Estamos portanto a falar de um custo total de 1000 euros para duas pessoas para 6 dias e 5 noites em Roma com a possibilidade de visitar o Coliseu, a Fontana de Trevi ou o Fórum Romano. Se fizeres questão, podes ir ao Vaticano no Domingo ver o Papa. Entretanto, leio que estão a pagar 1000 euros por uma noite em saco-cama para dois adultos durante a visita papal a Fátima. Deus me perdoe, mas é preciso ser-se parvo.
As tentativas de paralisar o acesso de uma Comissão Parlamentar de Inquérito aos sms de Mário Centeno têm sido, em geral, atabalhoadas. Mas, de todos os argumentos já utilizados com esse objectivo, o mais ridículo é aquele que afirma que o prolongamento da discussão do tema põe em causa o futuro da Banco público. Jerónimo afirmou mesmo que uma nova CPI corresponde a fabricar o caixão da CGD, mas o próprio Marcelo não anda longe disso embora com uma formulação mais cuidada. Vamos lá ver. Passámos semanas a ouvir dizer que o que está em causa são tricas e questões sem importância. Se é assim, nunca uma CPI que revelasse tais insignificâncias poderia pôr em causa o que quer que fosse. Aliás, se insignificâncias fossem, o caminho seria bem simples: revelar de uma vez por todas o que foi escrito e deixar a nu a falta de fundamento das acusações da direita. O ponto tem, portanto, de ser outro. As esquerdas e não só sabem que o conteúdo dos sms é grave. Mas não percebem que, se continuarem a prometer o apocalipse para a Caixa perante uma nova CPI, acabam não tarda, por dispensá-la. As afirmações dos geringonços e respectivos padrinhos constituem já uma confissão liminar da gravidade dos factos. Não se imaginava que as esquerdas, na ânsia de esconder, pudessem ser tão transparentes nas suas intenções.
Considero o timing e o conteúdo (li em diagonal, saltando de capítulo para capítulo) no mínimo questionáveis. Desde logo, porque nada acrescenta à imagem daquele que parece ser o seu alvo principal. José Sócrates é um trambiqueiro volúvel, manipulador, irascível e perigoso? Obrigado, já sabíamos. Mas, sobretudo, porque é do senso comum que uma troca de argumentos com Sócrates é mergulhar na lama e só serve para dar palco a um cadáver político. Nestes casos, vale sempre a pena ter em atenção o conselho de Mark Twain: nunca discutas com um cretino; ele arrasta-te até ao nível dele e depois vence-te em experiência.
O país em que o Ministro das Finanças, o Primeiro-Ministro e o Presidente da República se enterram num lodaçal que envolve diplomas feitos à medida, normas ditadas pelos advogados do interessado, publicações fora de tempo, compromissos espúrios, negociações por sms, meias-verdades, versões contraditórias, novilíngua, mentiras, conferências de imprensa ridículas, bloqueios institucionais à descoberta da verdade e raspanetes públicos e, no fim, o único que apresenta a demissão é o Matos Correia da Comissão de Inquérito.