Rais tinha iniciado o negócio da loja de conveniência, em Dallas, há apenas três meses. Um ano antes, deixara o Bangladesh, onde era oficial da força aérea, para estudar informática nos Estados Unidos. A loja estava situada numa zona problemática mas, aos vinte e poucos anos, Rais tinha todas as ilusões do mundo. Entretanto, em 11 de Setembro de 2001, esse mundo mudou. Alguns dias depois, a vida de Rais mudaria também. Após o atentado às torres gémeas, um emigrante paquistanês já tinha sido assassinado na sua pequena mercearia, a uns passos da loja de conveniência. Ao longo daqueles meses, a linha do horizonte sempre fora para Rais uma promessa. Agora, carregava-se de ameaças. Naquele dia, Rais cumpria o turno da manhã para poder, depois do trabalho, dedicar-se às suas orações. Às 12h30, todavia, o turbilhão da história iria desviar a sua vida do trilho da normalidade. Com a arma apontada à cabeça, Rais implorou-lhe que levasse o dinheiro e não o matasse. Foi esse o momento em que ouviu a pergunta improvável: Where are you from? Atordoado, Rais desviou ligeiramente a face para a esquerda. Mais tarde, viria a saber que foi esse gesto que evitou que ficasse cego de ambos os olhos. Nesse preciso momento, tudo o que sentiu foi a picada de um milhão de abelhas, seguida de um estouro na sua face. Dez anos depois, Mark Stroman foi executado no Texas, acusado de ter abatido duas pessoas e de ter ferido uma terceira. O único sobrevivente do tiroteio, Rais Buhyan, implorou ao Tribunal que comutasse a pena. Os seus pedidos foram sempre fundamentados no Islão, a religião que professa e que lhe ensinou a perdoar. Mark Stroman, após a sua prisão, considerou o ataque que levou a cabo um acto de guerra contra a invasão dos Estados Unidos pelo Islão. Na hora da morte, mostrou-se arrependido, apelou ao fim do ódio no mundo e pediu as graças de Deus. Tudo está mal quando acaba mal. Perderam-se três vidas, incluindo a de Mark Stroman. Rais, apesar de ter perdido um olho e uma parte da sua juventude, diz, todavia, que nunca viu o mundo com tanta nitidez. E eu digo que Rais é a raiz a partir da qual pode construir-se um mundo diferente sobre as ruínas deste desastre.