Até o microfone treme


Pedro Correia,

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Não vi o jogo, mas conservei a música de fundo. Não era Mozart, nem a Callas, nem sequer Ella Fitzgerald

Era o que se arranjava: Luís Freitas Lobo.

Enquanto trabalhava, mantive ontem o som da partida Dínamo de Kiev-Futebol Clube do Porto, transmitida pela Sport TV: forneceu a atmosfera ideal para me me concentrar naquilo que fazia.

Freitas Lobo é muito mais do que um comentador do esférico: é um verdadeiro poeta da pantalha, artífice da metáfora, ourives do rendilhado oral.

Fala de futebol como se discorresse sobre física quântica. Ficamos a perceber o mesmo: nada. Mas não deixamos de admirar aquela catarata de palavras com o seu cunho inconfundível.

 

Aqui estão algumas das suas pérolas, que fui escrevinhando enquanto o escutava de costas para a televisão: 

«O Porto neste início de encontro define uma zona de pressão média-baixa.»

«Lopetegui não pediu largura a André André, pede-lhe que apareça por dentro a pegar na bola.»

«O jogador russo já lhe tinha ganho a frente.»

«O Porto baixou a zona de pressão.»

«Embora jogando com dois pivôs, há sempre a possibilidade de um deles bascular um pouco para fazer essa cobertura.» 

«André André procura sempre associar-se a outras linhas, juntando as pontas do meio-campo.»

«É uma transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.»

«Ruben Neves tem que esticar o jogo mais rapidamente no flanco.»

«André André adapta-se a tudo isto com a sua intensidade e qualidade de interpretação dos espaços.»

 

Outros diriam: por qué no te callas? Mas eu não. Considero aliás que Lobo está para a bola como algumas divas estão para a ópera: com ele ao leme, até o microfone treme. De reconhecimento e emoção.

Só lamento que actue em transição individual, feita apenas por um jogador em posse, sem a ligação colectiva que a equipa deve ter nessa construção mais apoiada.

Signifique isto o que significar.

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0 comentários em “Até o microfone treme”

  1. De vez em quando aparecem umas estrelas no “relato” nacional, este é de um exagero tal que chega a despertar vergonha alheia. O tipo acha-se tão importante no comentário que julga que tem em si o peso e a responsabilidade de ser a voz na terra de um qualquer deus que comanda o futebol lá de um planeta qualquer. Aquelas insistentes metáforas, quase todas despropositadas, exageradas e completamente ridículas só são próprias de quem não se toca minimamente. Depois, tem dias que fica muito excitado e diz aqueles disparates tipo “este é o melhor desporto do mundo”, não é, ou comparações com Aljubarrota ou a passagem do Cabo da Boa Esperança…
    Mais tabaco, como diria o outro.

    1. Do meu ponto de vista, a intangibilidade do esférico decorre das sinuosidade tecnico-tácticas adjacentes à linearidade do relvado e a verdade desportiva depende em alto grau e larga medida da disponibilidade de todos os agentes envolvidos na condução do processo dentro das quatro linhas de jogo mas principalmente nas estruturas que enquadram este fenómeno capaz de mobilizar a massa adepta e também os milhões que se acumulam sobre as mesas directivas em razão do qual eu não me calarei e sempre relatarei aqui tudo quanto sei e julgo saber ou talvez nem saiba nada por aí além mas mesmo assim contem com a minha voz que ressoará qual trombeta contra a investida castelhana nos plainos de Aljubarrota naquele ano em que a Ala dos Namorados conquistou a Taça Ibérica.

      1. ahahahahahah
        …a vantagem de ser do clube que sou é que raramente tenho de ouvir o dito, normalmente somos deixados aos interessantes comentários de uma rapariga que sabe do que fala, já quando quero ver outro jogo do “istrangeiro” nada posso fazer em contrário, se calhar o melhor é ir buscar a Ella! ; )

        1. Na verdade, as incidências no relvado desencadeadas pelas contingências tecnico-tácticas do onze dominante foram claramente demonstrativas do que venho referindo em razão do qual em equipa que ganha não se mexe e em boca fechada não entra mosca.

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