As bodas de prata da Britpop


João Pedro Pimenta,

Ah, os anos noventa. Depois da nostalgia dos oitenta, eis que a última década do século também desperta saudades, até porque invoca um tempo de paz, prosperidade e optimismo (coisa com que nem todos concordarão, sobretudo na Sérvia, Rússia ou Ruanda). E olhando para os tempos sombrios que atravessamos, essa sensação nostálgica ainda se acentua mais.

Como todas as décadas do último meio século, a cultura pop teve uma influência tremenda. O surgimento dos cinemas em multiplex, a TV por cabo, a entrada em cena, ainda que lenta, da internet (e dos telemóveis), e claro, a música, com os concertos de estádio e os festivais a replicar-se em cada Verão. A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta. Se ainda havia vestígios fortes do hard-rock orelhudo (de que os Gun´s Roses, com hercúlea popularidade, que aliás ainda se mantém, foram demonstrativos), surgiam outras correntes, mais despojadas e substantivas, como o Grunge, da região de Seattle, tendo os Nirvana, Pearl Jam e Soungarden como embaixadores itinerantes, grandemente influenciados pelo indie-rock dos Pixies e dos Sonic Youth.

No país que tinha inventado a pop-rock moderna, o Reino Unido, dominava o desânimo nos primeiros anos, passada que estava a época dos Queen, Pink Floyd, e também de Thatcher e dos Smiths, aliás (algo malevolamente) influenciados pela Dama de Ferro. Mas aí a chegar aos idos da década, e com um primeiro travão do Grunge, os britânicos começaram a ver uma luz. E ela tornou-se especialmente ofuscante no Verão-Outono de 1995, há precisos 25 anos, quando irrompeu a que ficou conhecida como a Batalha do Britpop, essa nova corrente que resgatava os Beatles e outros artista dos Swinging Sixties.

A imprensa musical britânica, bastante pujante à época mas desejosa de uma boa novela épica, aproveitou os novos lançamentos de dois grupos emergentes para criar uma guerra pop. Os Blur consolidavam a sua obra depois do excelente Parklife e os novatos Oasis lançavam-se ao “difícil segundo disco” após o prometedor Definitely Maybe, ambos de 1994. Antes do lançamento dos discos propriamente ditos vieram os singles, ainda em Agosto de 1995, com propaganda à altura, qual combate no ringue. Assim se cunhou a “Batalha da Britpop” e começou a rivalidade. Para mais, as próprias características sociológicas dos dois grupos prestavam-se a isso: de um lado os londrinos Blur, de Damon Albarn, de classe média e pólos Ralph Lauren; do outro, a classe operária pós-industrial de Manchester dos Oasis dos irascíveis irmãos Gallagher. O single dos Blur, Country House, venceu o primeiro assalto a Roll With It. Mas com os álbuns seria diferente. 

 

 

The Great Escape, dos londrinos, saiu logo em Setembro e teve enorme sucesso da crítica e do público, no Reino Unido (e vendas medianas na Europa). Em Outubro saiu (What´s the Story) Morning Glory, dos mancunianos, bem considerado pela crítica e um estrondoso sucesso comercial tanto no Reino Unido (onde ainda hoje é dos álbuns mais vendidos de sempre) como na Europa e nos Estados Unidos. A ajudar à festa, trocas de provocações e de críticas azedas, em especial vindas dos Gallagher, que nem entre si se entendiam. De qualquer das formas, a rivalidade teve tal impacto que os britânicos discutiam qual das duas era a maior banda pop-rock do Mundo, e consta que os nomes dos manos Gallagher, Liam e Noel, foram dos mais atribuídos às crianças do país em 1996, ano em que o país também recebeu o Europeu de Futebol, que marcaria o regresso da Selecção Portuguesa às grandes competições.

 

Mas nem só à rivalidade Blur-Oasis se limitava a Britpop. Na altura surgia a Terceira Via, protagonizada pelo emergente, sorridente e europeísta Tony Blair e o seu New Labour, prestes a abocanhar os despojos do imenso desgaste dos Conservadores. A Britpop também tinha a sua Terceira Via, com os Pulp, que por aqueles dias lançavam o fabuloso Different Class, com Jarvis Cocker dançando enquanto entoava Disco 2000 e Common People (diz-se que directamente inspirada pela mulher de Varoufakis). E embora não tivessem discos novos em 1995, os Suede também tinham direito ao seu galardão de pioneiros do gênero musical da moda. Outros aproveitaram a onda, como os Elastica, James, Ocean Colour Scene, Kula Shaker, The Verve, etc. E diga-se que esses meses nem foram propriamente destituídos de qualidade no que toca à pop-rock. Também em Outubro de 1995, igualmente há um quarto de século, os Smashing Pumpkins revelavam o superlativo Mellon Collie and the Infinite Sadness, e os Radiohead, a quem também tentaram erroneamente ligar à Britpop, tinham lançado The Bends.

 


Cavalgando a onda do estilo em voga e da Cool Britannia, Tony Blair chegou ao poder em 1997. Precisamente a altura em que a Britpop começava a esmorecer, sendo progressivamente substituída por outras correntes. Os grupos continuariam as suas carreiras, nalguns casos separando-se e voltando a juntar-se (menos os Oasis, à espera da reconciliação dos irmãos), mas o êxito de meados dos anos noventa tinha ficado para trás, embora artisticamente tornassem a apresentar projectos válidos. De qualquer maneira permaneceu a memória desses saudosos meados dos anos noventa, protagonizada por personagens carismáticas, antes da música desmaterializada. Os protagonistas da Britpop estão vivos e activos, ao contrário da maior parte da brigada do Grunge, e comemorar as suas Bodas de Prata impõe-se numa altura mais sombria. Teremos com certeza mais novidades deles. Hurrah pela Britpop!

31 comentários em “As bodas de prata da Britpop”

  1. Os Suede já tinham caído no meu esquecimento 🙁

    Bons tempos, já não se fazem músicas como nesse tempo
    (sim, já cheguei a esse estado)

  2. “A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta”

    Sendo eu conhecedor de musica, não podia estar de acordo com o que disse pois a década de 80 é muito superior em qualidade e criatividade comparada com década seguinte.
    E a onda madchester com Happy Mondays, Charlatans, Stone Roses,Inspiral Carpets, que até a primeira metade da década de 90 estava bem viva.
    Mas gostos são gostos e não se discutem!
    Apesar de tudo é um bom Post!

    Rui Santos

    1. “A música pop, em especial, assistiu a uma melhoria visível em relação aos anos oitenta”

      Sim também discordo da afirmação.

      Love & Rockets, The Waterboys, Stranglers etc

      lucklucky

    2. Foram movimentos interessantes, mas diria que eram mais excepções num universo de laca e muita piroseira. E alguns deles ainda aproveitaram a onda britpop, como os Charlatans. Os Stone Roses ainda os vi mesmo em fim de carreira, numa actuação em Vilar de Mouros. Também resuscitaram.

  3. Segui a via dos Radiohead e só lá para 98 é que descobri os Pulp. Mas na “guerra” Blur vs. Oasis sempre fui pelos Blur.

    1. Obrigado. Sim, os Stone Roses já eram um prenúncio à Britpop, até na estética, (é engraçado ver como Liam Gallagher copiava algo do visual de Ian Brown), mas ainda ligados à Madchester (muito inspiradora da pop britânica é Manchester). No fundo, uma transição. Pena que fosem tão preguiçosos e tivessem produzido tão pouco.

  4. Nunca liguei muito à guerra deles. Lembro-me da história de um concerto dos Oasis no Sudoeste (creio que em 98) em que os manos fizeram tanto das suas, com os seus “fuck England” (a que ninguém ligou) que a assistência começou a atirar-lhes copos de cerveja vazio. Perante o repto “ao menos atirem pedras!”, o público correu-os à pedrada. Talvez tenha sido em Paredes de Coura, mas lembro-me (apocrifamente) da história. Mas no im de tudo ainda preferi Albarn, talvez pela sua vontade em experiementar outros sons, como o afrobeat.

    De resto preferi a onda da Factory e Haçienda no lado da pop e, mais tarde, a onda do Bristol Sound com o trip hop de Portishead, Massive Attack, Tricky, etc. A britpop foi interessante, mas creio que atingiu o auge da sua influência quando começaram a aparecer bandas americanas que os copiaram.

    E sejamos sinceros: nunca na vida Blur ou Oasis iriam chegar aos calcanhares dos Pixies ou Sonic Youth…

    PS – os James eram mais antigos que Blur ou Oasis, creio.

    1. Lembro-me de ouvir falar desse concerto em que foram corridos à pedrada. Aconteceu no sudoeste. Penso que nunca chegaram a ir a Paredes de Coura, ao contrário dos Pulp (a esses vi-os eu lá) e dos Suede.

      Mas eu poria os Blur ao lado dos Pixies e ainda mais dos Sonic Youth, não ao nível da influência musical vindoura mas da qualidade da música. Souberam reinvntar-se e nunca foram só britpop. O primeiro álbum ainda é um pouco Madchester. O There is other way podia perfeitamente ser dos Stone Roses ou dos Happy Mondays.
      Os James eram mais antigos, sim, nasceram com os Smiths, mas só tiveram mais medistismo nos anos noventa e aproveitaram a onda britpop.

      1. É preciso ter coragem para dizer isso João Pimenta.

        A década de 70 é sem duvida nenhuma a mais criativa de todas, no Rock Progressivo e no jazz a excelência de bandas Inglesas, Italianas,Dinamarquesas para quem gosta é simplesmente um levitar de alma.

        1. Concedo no jazz, de que não sou um conhecedor. O rock progressivo é uma das razões para gostar pouco da década de setenta. Mas devo dizer que em todas as outras questões estéticas acho essa década, em que nasci, muito pouco inspiradora.

          1. João Pimenta pelos vistos seremos da mesma geração, e estou em total desacordo consigo, mas claro respeito a sua opinião, cada um tem o seu gosto musical.
            Tive a sorte de em miúdo conhecer pessoas( tio mais velho, irmãos de amigos mais velhos) que me ensinaram a ouvir o melhor que se fazia nessa época de rock progressivo e também apreciar e gostar de um certo estilo de jazz
            com o Milles Davis e dois entrei por esse mundo, onde de facto por vezes não é fácil de escutar ou gostar.
            Posso dizer que o primeiro álbum que ouvi de rock Progressivo foi o Fragile dos yes, que adorei, e depois existe todo um mundo de outras bandas de alta qualidade musical.
            Dizer com leveza que é uma época pouco inspiradora, acredite que não é verdade, muito pelo o contrário.

  5. Década 80

    Sisters of Mercy, The Mission , The Cult

    Simple Minds

    David Slyvian (ex Japan)

    Sugarcubes

    The Police

    U2

    Marillion

    AC DC

    etc…

      1. O João Pedro está completamente enganado!

        Os the Police têm três dos seus melhores álbuns nos anos 80, Zenyatta Modatta,(1980) Ghost in the Machine(1981), Synchronicity(1983) este último o apogeu da banda com concertos de elevada qualidade.
        Mas para mim o melhor álbum é o Ghost in the Machine.

        ACDC ganha um novo fôlego com o Brian Johnson o novo vocalista em 1980 com Back in Black e nunca pararam com o estilo aliás vão lançar agora um álbum.

        U2,
        O álbuns:
        war,(1983) unforgettable Fire,(1984) Joshua Tree(1987) são sem dúvida nenhuma os melhores álbuns dos U2, quem disser o contrário é porque não gosta de U2, além, que aprecio bastante o álbum Pop(1997) e o zooropa(1993).

        1. As minhas desculpas:
          Esquecia-me desta obra prima, ao nível dos três dos anos 80 que referenciei.

          Achtung Baby(1991), concordo consigo é um excelente álbum também.

        2. Repare que tanto os Police, que até aprecio, como os Ac/DC devem o seu estilo aos anos setenta e ao que já vinha daí, independentemente de já terem entrado nos oitenta. O grupo de Sting, aliás, desmobilizou em meados de 1980s. quanto ao U2, caro anónimo, não é uma questão de gostar da banda ou não: é uma questão de gosto pessoal, ponto. Para além de Joshua Tree, o mehlro tabalho deles é Achtung, Baby, que marca uma viragem em relação aos anos oitenta, num ano, 1991, muitíssimo fértil no que ao pop-rock diz respeito.

          1. “uma questão de gosto pessoal”
            Têm toda a razão!!!

            Os The Police desmobilizaram em1986 conheço muito bem a banda cheguei a vê-los ao vivo, nascem nos anos 70 com algumas influências jazzisticas do Sting mas tem um espirito completamente novo com a chamada New Wave,que se diferencia do que se fazia na década de 70, Ghost inThe Machine e o synchronicitiy penso que são bons exemplos.
            Os ACDC tem razão as raizes são todas dos anos 70, com o Bon Scott,mas é na década de 80 com Brian Johnson que a banda ganha reputação mundial.

            E totalmente de acordo quando fala em 1991:
            Red Hot Chili Peppers – Blood Sugar Sex Magik ,Pearl Jam – Ten, Soundgarden – Badmotorfinger .

          2. Os Police também vão beber ao reggae, fazendo uma combinação inteligente com rock.

            1991 é o ano da explosão do Grunge, com os grupos que citou e sobretudo Nevermind, do lançamento do primeiro dos Smashing Pumpkins, Gish, da ascensão defnitiva dos Metallica ao grande público, da continuação dos Gun´s Roses com o duplo Use your Illusion, do último dos Pixies antes de grande hiato e muitos outros. E evidentemente a ascensão dos REM ao plano mais visível da música pop-rock, com Out of Time e Losing my Religion. E do outro lado do Atlântico ainda houve o fim dos Queen, o regresso para a despedida dos Genesis, etc.

          3. Mesmo tendo gostado do Black álbum, não sou apreciador de Metallica, nem um grande fã de Nirvana, mas de resto estou em total sintonia consigo 1991 é um grande ano para música.

            E por falar em reggae:

            Bob Marley e Ub40 penso que se destacam.

  6. Agora fiquei deprimida! Não conheço a maior parte esses grupos, que falta de cultura… Mas The Police/Sting, U2😍 adoro! Dire Straits – alguém? (Mark Knopfler). Bruce Springsteen -não?

    1. Deprimida!!!
      fica se ouvir ouvir Tony Carreira!

      Agora quem gosta The Police/Sting, U2 e Dire Straits ( Brothers in arms) e o Boss Bruce, (born in the USA ) .

      Só tem é que saltar e passear na rua!!!

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