As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria


João Pedro Pimenta,

A Áustria vai receber doentes portugueses com covid em cuidados intensivos. Confirma-se É uma ajuda preciosa e um bom exemplo de como pode funcionar a cooperação europeia. Até porque não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro.

Não só não é inédito entre os dois países como até teve exemplos pré-UE. Deve haver quem se lembre de ouvir os pais ou os avós falar de crianças austríacas que vieram para Portugal no fim da II Guerra, para serem acolhidas por famílias quando o seu país estava num estado lastimável, e precisava de ser reconstruído. Houve-as em toda a parte, num trabalho organizado pela Cáritas portuguesa, e dinamizado por uma princesa do Liechtenstein. Conheço vários exemplos de acolhimento dos meus familiares de Vila Real. Alguns mantiveram contacto, outros não ou perderam-no – é o caso da menina que ficou em casa dos meus avós – e outros reapareceram ao fim de décadas, visitando inclusivamente as antigas famílias de acolhimento (em alguns casos nas mesmas casas). Muitas destas crianças vinham ainda com traumas, como o de fugir quando ouviam um simples foguete, pensando que era um bombardeamento, ou olhar pasmadas para as cascas de batatas a ser deitadas fora, como se servissem de alimento. Certamente que deveram muito do seu crescimento ao facto de terem vindo para cá nesse período de reconstrução da Áustria – e de outros, porque ao que me dizem também as houve de França e da Finlândia. Esperemos agora que bem menos portugueses tenham de ser acolhidos pelo chanceler Kurz.

 

21 comentários em “As ajudas mútuas entre Portugal e a Áustria”

  1. Assim sendo, será necessário um Tratado (ideologicamente unionista, burocrático e uniformista) para que a cooperação e a solidariedade se façam?
    É bom não esquecer a lição da História da Europa. De como todas as tentativas anteriores desse tipo acabaram em chacinas e deportações forçadas.
    Para fazer o Bem, e construir a prosperidade, será preciso assinar um papel? Ou submeter os Outros, a regras burocráticas vindas de um Directório comandado por quem no passado quis sempre conquistá-los?

    1. Neste caso , tudo indica que sim, sobretudo se, como diz, olharmos para a história da Europa. E a conclusão a que chegamos é que não há memória de um período tão própsero e tão pacífico (excepção feita à guerra na antiga Jugoslávia, que como se sabe não fazia parte da UE/CEE) num continente onde as suas nações andavam em guerras constantes até desembocar no duplo suicídio de 1914 e 1939. Chacinas e “deportações forçadas” não estão exactamente nos tratados da UE – aliás olham-na de lado quando se propõe acolher fugitivos desse tipo de acontecimentos. Os objectivos primordiais eram a paz e estes foram totalmente bem sucedidos. Para evitar que crianças tivessem de ir para outro país para ultrapassarem os traumas de guerra.

      1. 1. Concordo e discordo.
        2. Antes, permita a seguinte nota prévia. Quase sempre tento fugir de mim (enquanto humano, produto de uma sociedade que me criou, e da idiossincrasia que pude construir) quando teço uma opinião. Quase sempre não consigo (não tenho essa ilusão). Mas tento. Tento colocar-me num patamar «exterior» (no sentido do limite da indecidibilidade de K.Gödel), para não ser tão enganado pelas minhas escolhas, sentimentos e ideologias. Para me ouvir de fora, como se fosse um-outro-de-mim. É com este «a priori», que tentarei opinar.
        3. Coloca a Paz e a Prosperidade no topo da hierarquia dos critérios de Valor, para criticar a minha opinião. Também concedo a esses dois critérios um valor inestimável. A preservar em qualquer solução/alternativa futura.
        4. Porém, interrogo-me sobre o custo associado a eles. E tento comparar o passado com o presente. Refiro-me às assimetrias, à pobreza, ao acesso a bens essenciais para a prosperidade das crianças [computadores, literacia em STEM (science, technology, engineering, mathematics), habitações adequadas, rendimentos para ter acesso à igualdade de oportunidades, etc.). À proporção entre «quem tem» e «quem não tem», «quem sofre» e «quem não sofre». E se ela mudou, ou permaneceu igual, no decorrer da História.
        5. Se compararmos nessa História da Europa o período Neolítico até à actualidade, encontraremos uma outra visão das coisas. Uma escala que nos obriga a uma maior prudência na análise da história recente. Curiosamente, no mito, a «Europa» é tida como uma prostituta, que sempre foi usada por todos os que a rodeiam, quer pelos Povos a Oriente, ou a Ocidente, ou até os mais ao Sul, no Norte de África e Médio Oriente. Se substituirmos os nomes, e pusermos os que se foram sucedendo desde o Neolítico até à actualidade, talvez consigamos essa «exterioridade» que referi no início.
        6. E se fizermos a comparação, agora sem as variáveis espaço-tempo, mas pelas do «Individual» e do «Social/Colectivo» (nações, povos, países, «europa», etc.), o mesmo acontece.
        7. Ou seja, a Paz e a Prosperidade de uma «Nação/País» escondem a realidade das relações concretas entre os «Indivíduos/Pessoas nas suas Comunidades de pertença e trabalho». Escondem (através do exercício abstracto de estatísticas e indicadores gerais; nas narrativas e discursos dos políticos que estão no topo da hierarquia; mas também, nos Media permitidos pelas autoridades, que tem por accionistas os grupos económicos que dominam essas nações/países) as realidades estruturais de assimetria, pobreza e precariedade que esse nível mais individual sofre.
        8. Nos países deixou de haver guerra, e as estatísticas dos PIB’s servem para afirmar a prosperidade. Mas a guerra e a pobreza transferiram-se para o nível das relações individuais, para a escala do «dia-a-dia das ruas», para as relações de trabalho, para as relações multiétnicas e multi-culturais nos bairros, para os assaltos, explosões, esfaqueamentos, atentados, roubos, etc. Ou seja, a violência, a pobreza, e a desigualdade de oportunidades não desapareceram. Foram transferidas para outra escala.
        9. Ora, independentemente da nossa opção ideológica, ou de nós-mesmos, não é legitimo questionar se, de facto, em termos comparativos e percentuais, houve melhoria ou não?
        10. A avaliação do Valor faz-se sempre em Contexto. Jamais é uma quantidade abstracta e universal, possível de aplicar a todas as épocas da História. A pergunta que faço, é: Há mais ou menos violência e pobreza hoje, do que no passado? Há mais ou menos paz e prosperidade hoje, do que no passado? Quem a detém, quem a sofre? Nos condomínios privados, off-shores e bunkers burocráticos das instituições, ou nas ruas? E assim sucessivamente.
        11. A questão, tanto no passado como no presente, é sempre a linha de ruptura entre essas duas realidades, essas duas escalas, esses dois mundos: o das Nações/Países e o das Pessoas.
        12. Por isso, concordo numa parte. Mas discordo quanto à outra.

        1. 1. Logo, os motivos e as causas que conduziram às guerras mantêm-se intactos. O “Tratado da U.E.” é apenas um formato diferente para as mesmas juras de tréguas de sempre.
          2. Então, se os motivos e as causas se mantêm, como algo de estrutural que continuamos a não saber resolver, porque acreditamos que não regressarão?
          3. Os mais poderosos vão dar licença que a «União» se faça de modo diferente do que querem? É nesse altruísmo e nessa ilusão que os menos poderosos acreditam? É nisso que o João Pedro Pimenta quer que acreditemos? Basta ver o caso recente das vacinas; ou a cisão no caso da guerra do Iraque; ou a política assimétrica de migração, que baixa direitos e salários nos países onde os poderosos colocam as fábricas da sua indústria (Autoeuropa, etc.); ou no efeito na prosperidade e aproximação à riqueza desses países mais poderosos da «União», da obrigação de os menos poderosos não poderem infringir os 3% em investimento como o tal Tratado impõe; etc.
          4. Entretanto, esse Tratado vai-nos tirando a soberania territorial, judicial, política e económica (emissão de moeda, planos, Orçamentos, etc.). Ou seja, como diz o Povo, “estamos a ser comidos por tontos”. E também como sempre nestes casos, os que mais nos atacam são os das nossas próprias Nações, aqueles que têm avenças chorudas pagas por esses outros para fazerem esse serviço. Os que têm cargos, vivem, ou se dizem «especialistas em União Europeia» (pasme-se)…
          4. Portanto, não será mais uma vez um pretexto para a conquista, para a união-uniformizadora (unionismo), e para o saque, que temos assistido na História da Europa desde o paleolítico até aos Tempos Modernos?
          5. Sendo assim, essa dita «U.E.», mais uma vez, não será uma falácia e um embuste? Mas há quem acredite que não, que a História será doravante diferente, apesar dos motivos e das causas para não ser se mantenham intactos.

          1. A UE não é perfeita e tem uma carga burocrática e de (natural) confronto interno quenem sempre ajudam à sua dinâmica. Mas depois das guerras fratricidas, dos crimes contra a Humanidade que se viram nos campos de concentração, nos gulags ou nos campos da Bósnia, depois da Cortina de Ferro e da queda dos Impérios é o refúgio que as suas componentes acharam para construir um futuro bem melhor. Como construção humana que é, é muito imperfeita. Mas duvido seriamente que as alternativas fossem melhores. Os tais motivos que levaram às guerras podem não estar ntactos e reapareceriam se a UE se desfizesse. Não será eterna, mas espero que dure o mais possível.

  2. Verdade!!! Sou desse tempo! Como já sou velho…. não foram só crianças austríacas como de outros países onde se incluíam crianças alemãs. Na minha idade de 11 anos e “marçano” no Porto tive um amigo inglês da minha idade acolhido por uma família proprietária de uma ourivesaria na rua das Flores. Comigo aprendeu algumas palavras portuguesas e eu inglesas. A primeira: shit for you (mandar à merda outro rapaz)

    1. Cá está, como sempre os termos mais importantes de uma língua são sempre os primeiros a ser apreendidos.
      Mas nunca tinha ouvido falar de refugiados ingleses do pós-guerra. É natural que fosse no Porto, tendo em conta as famílias inglesas que cá viviam. Eu sei que na rua das Flores há muitas ourivesarias, mas ainda se lembra qual era?

    2. É verdade!
      Aqui em Lisboa a minha avó teve uma amiga de infância alemã que veio nesse tempo para cá, nunca regressou Alemanha, por cá casou teve filhos e foi sempre amiga da minha avó até ao falecimento dela em 2011.

  3. não é a primeira vez nesta crise pandémica que doentes de um país são acolhidos noutro

    Também fora da crise pandémica isso já acontecia. Ao que creio, é cada vez mais comum pessoas serem tratadas fora do seu país de residência habitual.

  4. Recordo-me, tinha eu 9/10 de na minha terra (Guimarães),uma família de posses ter recebido um rapaz austríaco, que chegou a ir a minha casa. Apenas me recordo que nos zangamos. O meu pai comprava-me o “Mosquito” um bi-semanário de banda desenhada que coleccionava. Ele deitou-os ao chão e empurrei-o.

    1. Não conhecia. Já dei uma vista de olhos e soube que morreu relativamente novo. Sempre achei curioso o fenómeno de estrangeiros que vêm a Portugal (ou Espanha) e adquirem uma paixão por tauromaquia, a ponto de eles próprios saltarem para a arena.

      1. Um fenómeno já é em si uma curiosidade; o toureio nem é fenómeno nem curiosidade nem para curiosos. Muito bom dia

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