‘Artitectura’: os mal-amados (1)


jmmcc,

Casa da Música – Porto

 

Uns são defendidos por vanguardistas apreciadores do arrojo e detestados por muitos. Outros são pura e simplesmente odiados pela generalidade. Todos eles são exercícios arquitectónicos polémicos, ensaios artísticos de gosto discutível, construções que foram ou ainda são consideradas provocadoras. Estão um pouco por todo o mundo e vão pingar aqui no sentido do alargamento de temas dedicados aos interesses variados de quantos nos brindam com a sua comparência neste blogue. O objecto de partida é intencional. Outros pontos do globo se seguirão.

26 comentários em “‘Artitectura’: os mal-amados (1)”

  1. Aqui está um bom exemplo de uma belíssima peça de arquitectura fora do seu sítio, aquilo a que vulgarmente se chama ‘querer meter o Rossio na Betesga’. Numa cidade ainda com tanto espaço disponível como é o Porto, sempre defendi que esta obra verdadeiramente emblemática do Rem Koolhaas, poderia e deveria ter sido colocada num outro local onde pudesse melhor respirar e ser admirada. Apesar disso, não deixa de ser um verdadeiro ícone da arquitectura contemporânea, quer na forma, quer na função.

      1. Obrigado pela lembrança, João, e se precisares de alguma dica é só dizer, saiba eu dar-ta. Fico então a aguardar as cenas dos próximos capítulos.
        Um abraço.

    1. Exactamente o que penso, Luís. Merecia uns jardins como os de Serralves, e não aquele espaço acanhado e ridículo que escolheram, que arruina um edifício notável.

  2. Excelente ideia a tua: esta série promete. Começa com uma obra que para mim já se tornou um ícone arquitectónico da cidade do Porto. É discutível? Prova de que tem valor. Nada foi tão discutível como a Torre Eiffel, ícone máximo de Paris: na época em que foi erguida não faltaram vozes, até de intelectuais ilustres, que defendiam a sua destruição nem que fosse à bomba.
    Salvo melhor opinião, ao Porto fazia falta um marco arquitectónico da arquitectura contemporânea como este. Tão discutível como a pala do Siza em Lisboa. Esta, no entanto, só tem mesmo valia arquitectónica. Bem à maneira portuguesa, continua a ser discutida, tantos anos depois, que utilização dar àquilo. A Casa da Música, mal ou bem, já sabemos para que serve.

    1. Tens toda a razão, compadre. Ela está fora do lugar que merecia e o lugar em que está também não merecia ter mais um gigante plantado.
      Sobre a Torre Eiffel: hoje, é difícil imaginar que ela era temporária, quando foi erguida.

  3. A ‘peça’ é sem dúvida de gosto muito duvidoso. Mas o que ainda me choca mais, é todo o espaço exterior envolvente, isto é: nada. O vazio pelo vazio.

    Não existe nada em redor do edifício. Uma árvore, um banco, um jardim, uma tertúlia, um candeeiro. Nada.
    Durante o dia é palco de miúdos a andarem de skate, num frenesim de atropelo a quem ali passa.

    Ali nada apela à música, ou a outra qualquer emoção. O ambiente é gelado.

  4. Boa patti. Ajudou-me a perceber por que não gosto da casa da música. Havia alí qualquer coisa que … Afinal, é isso. A horrível caixa no meio do nada.

  5. Que ideia interessante, João
    Apesar do que já foi dito e até de outros aspectos que agora não tenho oportunidade para explicar, eu gosto da casa da música.

    :))

  6. Cada opinião está, obviamente, directamente proporcional à sensibilidade de cada um, sensibilidade essa muito ‘gerida’ por o factor cultura. Arrisco-me a dar a minha: Acho o edifício em si, de grande valor arquitectónico, sem dúvida, embora muito fora da harmonia de linhas que eu, pessoalmente, gostaria que tivesse. Quanto ao ter sido colocado na Praça Mousinho de Albuquerque, estou COMPLETAMENTE em desacordo. Na altura, dirigi-me a alguém a quem perguntei porquê este tipo de arquitectura aqui? Responderam-me: “Vai ver que vai ficar muito bem. Até o jardim vai ficar do tipo anos 1900 ……”
    Mas que disparate de afirmação. Não caí para o lado porque estava sózinha e não teria ninguém para me levantar. Que aberração de escolha de local! Teria ficado muito bem no centro dum enorme jardim. Aí sim.
    É a minha opinião pessoal. Aceito, porque respeito, a de todos os outros comentaristas (ou não). Tal como disse no início deste espaço, tudo depende da sensibilidade de cada um.
    Maria Letra

  7. Gosto da Casa da Música, mas quando lá fui pela primeira vez tive um sentimento de desconforto, não pela qualidade e arrojo da arquitectura, mas pela envolvência gelada e despropositada. Não se poderá remediar a coisa? Sem dúvida que o edifício merecia outro enquadramento.

  8. João
    Dá-me sempre a sensação de uma nave que caiu ali e ali ficou.
    Em vez de no meio de um jardim, vejo mais uma outra envolvência, um espaço amplo, mais livre, talvez relvado, e onde há relvado uma árvore aqui e ali.
    Achei interessante a sua ideia do Parque da Cidade. Sim, por exemplo.
    Esta série promete…

    1. Foi exactamente o que defendi na altura: o Parque da Cidade. Espaço, relva, boa circulação em dias de movimento na Casa da Música e sem nada em volta que pudesse chocar.
      Espero que goste do que está para vir, Ana.

  9. Isto promete!… não vou perder nenhum destes posts. Gostei do primeiro e não tenho nada contra a dizer, antes pelo contrário. É uma obra mal amada? É uma obra injustiçada, isso sim. Nós sempre agarrados ao passado, safa!

  10. João tem-me sido, quase, impossível comentar por algumas razões a 1ª.- que me trouxe ao meu refúgio – sexta-feira, passada, recebi a notícia da morte, num acidente de viação, da filha de uma amiga, em Lisboa, com apenas 20 anos, que me deixou num estado de tristeza…E, agora, estando eu nas Sete Cidades, pelo meu acesso deficiente à internet, isto tudo para dizer que tenho lido tudo o que tem publicado e quando me for possível comentarei, como me merece, João.
    É com agrado que recebo a sua “secção” de – “Arquitectura” – os mal amados” (só o título é muito feliz) – interessa-me, vou estar atenta…

  11. Uma série-surpresa , sim senhor:) Estou curiosa.
    Li os comentários e concordei com quase tudo, mas gostava de aqui meter ao barulho uma certa palavra: Distanciamento.
    Válida para a apreciação da Casa da Música como para todas as obras de ‘ artitectura ‘ do mesmo calibre.
    Ou seja: uma coisa é a reacção a quente, imediata, perante um fenómeno que foge à regra, aturde, desorganiza e aterra na urbe como o tal ufo ” de que se falava acima. Mas o julgamento instantâneo – tendo de ser feito, claro -, não é o melhor. Por isso talvez devessemos levar isso em conta enquanto verbalizamos emotivamente os sentimentos pró ou contra.
    Com isto não estou a fazer a apologia dos calculistas, dos ansiosos do consenso ou dos vanguardistas-à-força (porque está in ‘ e cai sempre bem fazer que se percebe a coisa). Nada disso. Como tudo na vida há que ser autêntico. E quando não se gosta, dizê-lo sem rebuço.
    Estou mesmo convencida que o ‘não’ a certa obra faz muitas vezes parte do processo contraditório de interiorização. E de criação de um sentido latente de pertença/identidade que se questiona a si próprio.
    Mas o que é sumamente belo /sumamente bom raramente provoca aclamação, já viram?

    Distanciamento.
    Arriscar opinião, mas em duodécimos…
    Saber que muito provavelmente a avaliação não pode ser definitiva, que há um jogo qualquer de rejeição/sedução que está em curso e não viraremos a página tão depressa assim.

    O facto da Casa da Música parecer tão deslocada talvez seja uma promessa de (bom) futuro. Os que vierem é que não podem deixar de entender isso. Para não asnearem na envolvência, como aconteceu no passado com prodígios arquitectónicos do tipo do Convento de Mafra, Alcobaça, e por aí fora (num exercício de distanciamento extremo!)

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