Não pode haver maior dor na vida de um pai do que perder um filho. Quando um filho com oito meses de gestação, prestes a nascer, morre no ventre materno estamos perante um drama que marca para sempre qualquer mulher – e também qualquer homem que sonhou ser pai. Foi isso que aconteceu há dias, em Portalegre. Pelo menos um canal de televisão mostrou-nos esse pai lavado em lágrimas, falando entre soluços convulsivos, num momento dramático da sua existência. Dias antes a mulher fora vacinada contra a gripe A e o homem procurava naquele instante uma relação de causa-efeito entre a vacina e o óbito, tanto mais que até aí a gestação decorrera sem qualquer problema. Qualquer pessoa faria o mesmo perante aquele golpe traiçoeiro do destino.
Achei revoltante que esse canal de televisão – nem fixei qual é – tenha dado tempo de antena, naquela ocasião precisa, a uma pessoa que se encontrava sob um evidente choque emocional. Manda o código deontológico dos jornalistas que não sejam recolhidos depoimentos nestas circunstâncias. Infelizmente, esta norma está a tornar-se letra morta. Pelo contrário, quanto maior for hoje a oportunidade para explorar despudoramente as circunstâncias dramáticas na vida de qualquer de nós, lá está um microfone estendido, lá está uma câmara ligada, lá está um repórter mandatado por uma chefia fechada num gabinete qualquer – tudo pronto a servir as emoções alheias ao domicílio.
Como se todos os pormenores da vida íntima de cada um fossem um interminável reality show em sessões contínuas. Haverá quem chame jornalismo a este espectáculo indecoroso. Eu não.
ADENDA:
Ler esta excelente crónica do Ferreira Fernandes.

Foi revolta, o que senti durante essas imagens, que passaram repetidamente. Se a deontolgia passou a letra morta, que se recupere ao menos algum de decoro. Ou um mínimo de compaixão.
Palavrras antigas, compadre. Muito fora de moda. Infelizmente.
Deonto…quê? 🙂
Brinco, claro. Excelente post. Parabéns.
Lamentável. Além do “espectáculo” indecoroso que o Pedro tão bem refere, acresce que, ao repetirem a peça, davam eco a uma especulação sobre a relação entre a vacina e a causa da morte. Parece impossível como abusam destes “adivinhações” em assuntos delicados como este. Não fora o respeitinho que a fala do médico ainda provca e… a estas horas, na opinião pública, a ideia de que a causa da morte tinha sido a vacina se não estivesse colada, para lá caminhava com pressa…
🙂
Na verdade, é revoltante vermos certos entrevistadores, em momentos verdadeiramente dramáticos, perguntarem a quem sofre: “Como se sente?”. Não há qualquer possível forma de considerar-se aceitável este tipo de pergunta, pois ela significa insensibilidade e incompetência jornalística da parte de quem a faz. Como esta, muitas outras coisas ficam mal a certos jornalistas. Tenho, todavia, muito respeito pelo trabalho de alguns, muito competentes, profissionais de jornalismo.
Maria Letra
Como é que é, perder um filho?
Não me admirava que um dia destes alguém fizesse uma pergunta dessas. Em directo, ao vivo e a cores.
Espero que a minha resposta não saia 2 vezes porque já a tinha feito e desapareceu …. Se assim acontecer, peço desculpa.
Eu respondo: Nunca tive a infelicidade de perder um filho, portanto não posso responder-lhe senão imaginando ser dilacerante. Essa pergunta não deve ser feita a ninguém em sofrimento pela morte, sobretudo, dum familiar. É, quanto a mim, uma pergunta carregada de sadismo. Pior ainda, se o entrevistador está acompanhado dum cameraman que não ‘desgruda’ de focar o entrevistado, mesmo quando ele já respondeu, para termos a certeza que tem uma expressão de sofrimento.
Maria Letra
Plenamente de acordo consigo. Daí a minha indignação.
Sim, Pedro, mas isso está a ser cada vez mais recorrente. Há coisa de um mês e enquanto o corpo de miudo de 11 anos estava a arrefecer, era ver o pai e a madrasta a explicarem, pormenorizadamente, como é que o miúdo tinha morrido de gripe A, e as câmaras a filmarem e a dissecarem. Vi pouca emoção na cara do pai e ia jurar que a madrasta tinha ido ao cabeleireiro antes de “ir para o ar”. É o que vende e é o que povo quer; aparecer na televisão a qualquer custo [os tais 5 minutos de fama que toda a gente acha que merece].
(E depois, por cada jornalista que nega esse tipo de espectáculo, há dez que levantam o dedo e dizem que sim, que querem, que o fazem e que vão lá)
Foi de facto revoltante.
Acrescento que a «reportagem» teve lugar no telejornal da SIC
Sim, isto passou-se “ca sic”.
Concordo em absoluto, Pedro. Como já aqui escrevi, cada vez mais se confunde jornalismo com voyeurismo. Para mim, naõ é surpresa, confesso… sempre disse que tantos cursos de jornalismo iam dar mau resultado. O que se ensina em alguns cursos de jornalismo e comunicação, é a negação do jornalismo.
E depois há o outro lado da questão… Muitas vezes, quem manda, acredita que é isto que interessa às pessoas.
Isto dava muito pano para mangas, mas fico-me por aqui…
Não é isso que interessa às pessoas, Carlos. Tenho a certeza que não.
Pergunto, isto passa-se no resto do mundo civilizado, ou é só neste cano de esgoto das nossas televisões? Que nojo!
É em todo o lado. Arrisco a ser, certamente, fulminada, ao dizer que este modelo de jornalismo é uma cópia do jornalismo oco, insensível e indecoroso norte-americano.
Felizmente, ainda não temos jornalistas a encomendar assassinatos para ter a melhor reportagem. Mas é bem visível a incapacidade de criar um texto digno de telejornal e a sua constante sibstituição por imagens chocantes. Se não houver corpos dilacerados no local de um atentado, lá terá de haver um grande plano a uma poça de sangue, como se a própria notícia de x mortes não fosse suficientemente chocante.
É realmente triste que além de jornalistas acéfalos existam milhares de pessoas que se regozijam com estas imagens enquanto jantam.
Não vi essas imagens, Pedro, mas já vi outras muito parecidas. É realmente indecoroso. Às vezes, quando dou uma ou outra palestra a jornalistas ou estudantes de jornalismo, o grande conselho que lhes dou é que tragam sempre consigo o Código Deontológico. Porque está lá tudo o que precisam de saber. Desde que o leiam, o percebam e o sigam.
Depende dos professores de ética que se tem durante os cursos… 🙂
Mas em muitos casos – como neste, por exemplo – o código deontológico é perfeitamente dispensável, haja um pouco de sensibilidade. Isto é que talvez se vá tornando raro…
Infelizmente, já não é novidade. Comigo vou ter sempre um famoso momento televisivo de 2002 (espero não me enganar na data), quando terríveis incêndios devastaram a Serra de Monchique. Na imagem, um terreno completamente queimado, uma casa (uma vida) reduzida a cinzas. E o jornalista a perguntar ao velhote que fora dono daquela casa, daquela vida, “como se sente?
Com isto lembrei-me porque gosto tanto do momento “no comments” da Euronews. Por vezes o melhor jornalismo é feito de microfone desligado, e sem perguntas.
Sem dúvida: por vezes o melhor jornalismo é feito de microfone desligado.
Lembro-me muito bem dessa cena, que também me revoltou. E também me lembro de uma resposta magistral que mal se ouviu, em segundo plano, dada por um habitante de uma povoação em chamas a outro menino jornalista com perguntas desse género: “pegue mas é num balde ou numa mangueira e venha ajudar a gente, que as perguntas não apagam fogos!”
Também vi e, na verdade, foi um momento televisivo simplesmente deplorável. Ainda estamos a viver a triste herança dos “Big Brothers” e afins, de tão má memória, mas que, pelos vistos, não só fizeram escola, como também deixaram uma plateia de admiradores. Tristes ‘voyeurs’ estes, que se interessam mais pelos dramas dos outros e sabem mais da vida alheia que da sua própria.
O problema, caro Luís, é que as fronteiras entre os ‘Big Brothers’ e a informação televisiva estão cada vez mais diluídas.
A SIC já tinha feito o mesmo no recente caso da criança que morreu na Estefânia com um problema cardíaco agravado pela Gripe A.
Tudo serve na guerra de audiências.
É isso mesmo o que se passa com certo dito “jornalismo” – “espectáculo indecoroso” – como bem diz o Pedro e é também – “Perder, de vez, as estribeiras” -citanto Ferreira Fernandes, no DN de hoje, a propósito duma entrevista com Jardel no Jornal i – eu li a entrevista e também fiquei indignada… O entrevistador a páginas tantas – Jardel entretanto, ao longo da entrevista, ia dando conta do seu esforço, titânico, para sobreviver aos revezes da vida – aproveitando o facto de Jardel se referir à morte trágica de Henke, questiona-lhe : “Suicídio? Passou-lhe alguma vez pela cabeça…”
São cada vez mais os casos de falta de pudor que, às tantas, banaliza-se, fica-se insensível… Bem-haja – os que ainda se indignam e fazem alguma coisa para contrariar essa “corrente”, obrigado Pedro pela sua sensibilidade e sentido ético…
Embora, de somenos importância comparado com a fraca prosa e porventura com outros erros – obrigada, pois, Pedro e não “obrigado”;))
( tenho-vos lido, não tenho comentado porque onde me encontro, há dias, o acesso à internet é muito lento e comentar fica mais difícil)
Pedro, a sério, fiz menção à crónica de ferreira Fernandes sem ter reparado na sua “adenda” – é meu hábito ler o DN e as crónicas de Ferreira Fernandes….
Registada a sintonia, Maria. A crónica é de facto excelente, como tantas outras com que o Ferreira Fernandes nos tem brindado.
Não vi (o jornalismo televisivo a ver tem de ser escolhido a dedo), mas acredito e imagino. De resto, vem na linha de ‘reportagens’ como as da entrega da Alexandra à mãe biológica (que tive o azar de ver) ou as 500 que se fizeram a seguir à queda da ponte de Entre-os-Rios. Mas a culpa desta exploração de pessoas em situações de vulnerabilidade não é só dos jornalistas; quem vê peças destas, sem mudar de canal ou desligar a televisão, contribui para o circo.
Tem toda a razão, Maria João: em última análise, tudo depende de cada um de nós. Mas por vezes não conseguimos mesmo evitar que uma coisa destas nos entre inesperadamente pela casa adentro.