Desde que a cidade em que vivo foi, em 2012, capital europeia da cultura (uma invencionice da UE para promover o turismo, a indústria dos subsídios e a torrefacção de dinheiro dos contribuintes em nome do chapéu da “cultura”) que há uma quantidade inverosímil de “equipamentos culturais” que é preciso justificar. Daí as exposições, os happenings, as performances, o mobiliário artístico urbano que tem uma marcada inclinação para rotundas, e os protestos, nos discursos e escritos dos Mirabeau locais, do intenso amor que os cidadãos dedicam às questões culturais.
Livrarias há poucas e pobres; as verdadeiras catedrais são os centros comerciais; os museus os que o turista se dá ao trabalho de visitar; o circo é o Estádio de futebol; as leituras os jornais desportivos, nos outros os casos do dia e as gordas; a informação é a que veiculam os telejornais; e a música a que os cantores da moda vêm ganir ou chilrear no pavilhão multiusos, ou, no Verão, ao ar livre nas praças. E nada, absolutamente nada, permite supor que a chuva de milhões despejados em cima das actividades ditas culturais tenha modificado seja o que for. Tudo substancialmente igual às outras cidades, benza-as Deus.
Os dinheiros públicos, que como é geralmente sabido são do Estado, isto é, do PS, têm fomentado a consolidação de uma casta, que vem a ser a dos artistas, pessoas geralmente estimáveis que não cessam de promover as riquezas que lhes brotam das entranhas inspiradas, à boleia das munificências municipais.
Este clima leva frequentemente a provas de vida. Por acaso, tropecei nesta, que por desfastio fui escabichar. E faço, praticamente sem conhecer ninguém, e menos ainda ver o que quer que seja, uma apreciação altamente isenta e com um rigor analítico que me honra.
A coisa decorre sob a epígrafe “Nas margens da ficção”, sendo por isso fortemente aconselhável ficar à margem, o que sem dúvida a maior parte dos munícipes fará. Vejamos:
Uma Francisca Carvalho apresenta um conjunto de desenhos a pastel “de índole visceral, musical e futurista”.
Os locais são grandes apreciadores de vísceras, nomeadamente iscas de cebolada, e decerto alguns cairão no engodo. Nem só de iscas vive o Homem, dirão filosoficamente enquanto veem os pastelões.
Outra exposição chama-se ‘Pasado’ e é assinada pelo artista mexicano Rodrigo Hernández, com objetos de diferentes épocas “que colocam em questão concepções lineares da história”.
Concepções lineares?! Ah, já sei, o progresso é quase sempre enganoso, não existem culturas superiores porque todas se equivalem, e devemos inspirarmo-nos no passado para efeito de concluir que já não há tempestades como antigamente e que, realmente, angariar subsídios para o presente é que é um verdadeiro avanço.
Há ainda ‘Quarto Blindado’, em que Fernão Cruz destrói e reconstrói memórias de infância por intermédio de uma instalação de grandes dimensões composta de figuras em papel mâché e pinturas em tecido das ilustrações de F. D. Bedford para o livro “Peter and Wendy”.
É instalação em papel mâché? Ou seja, bonecos toscos de lixo de cartão colado com cuspo e significando nada? Não parece muito inspirador.
Para ver também ‘Complexo Colosso’, que destaca o ‘Colosso de Pedralva’, um caso de arqueologia especulativa do norte de Portugal, com desdobramentos no imaginário português e galego, com a participação dos artistas Alisa Heil e Andre´ Sousa, Andreia Santana, Carla Filipe, Gareth Kennedy, Jorge Barbi, Jorge Satorre, Lola Lasurt, Nova Escultura Galega: Jorge Varela e Misha Bies Golas, Pedro G. Romero, Salgado Almeida e Taxio Ardanaz.
A mistura de arqueologia com a especulação e os artistas garante uma barafunda. Porém, pode eventualmente revestir-se de interesse no caso de o colosso desvelar o mistério da sua origem (que provavelmente nada tem a ver com a cultura castreja e nem sequer, talvez, com antiguidade que vá além de 200 anos).
“Algumas exposições constituem-se também como remontagens porque dizem respeito ao trabalho artístico e curatorial a partir da coleção de José de Guimarães, ao exercício dos olhares, das ficções e das narrativas”, refere o comunicado. Nestas, inclui-se ‘Mistérios do fogo’, uma exposição coletiva que apresenta, pela primeira vez no museu, um conjunto de cinquenta esculturas africanas sobre o tema da maternidade pertencentes à coleção de José de Guimarães, adquiridas a partir dos anos 80, na Europa.
Que bom, de escultura africana ninguém entende nada, de modo que os visitantes poderão, se tiverem comprado um treco num mercado em Nairobi, imaginar que têm um valioso objecto artístico em casa.
À sua volta, estarão trabalhos de outros artistas, como os desenhos florais de Maria Amélia Coutinho, mãe de José de Guimarães, as histórias de emancipação das mulheres negras, no filme ‘Kbela’ (2015), da cineasta brasileira Yasmin Thayná e, finalmente, o projeto ‘All My Independent Women’, de Carla Cruz, que incorporará novos capítulos, neste caso, pedaços da história das mulheres de Guimarães.
A mostra de desenhos florais da mãezinha é uma iniciativa ternurenta que merece ser acarinhada. Já os filmes das cineastas pertencem à categoria cinema com mensagem, do qual as pessoas que não têm um desejo abrasador de reformar o mundo fogem a sete pés.
Uma outra proposta é ‘Sala das Máscaras convida’, em que Sarah Maldoror apresenta uma ideia de “cinema crítico” em diálogo com a coleção de máscaras africanas.
Não te incomodes, Sarah: é muito pouco provável que alguém perceba o que dizes, dada a barulheira que as máscaras devem fazer em diálogo com o cinema crítico.
Já a exposição ‘Signos Sinais’ é um breve capítulo da longa narrativa sobre o signo realizada por José de Guimarães.
As pessoas que sabem o que é o signo abster-se-ão de aprofundar os seus conhecimentos; a as que não sabem poupar-se-ão à maçada de o descobrir, de modo que talvez não fosse pior cancelar esta exposição.
Há ainda ‘Mitos… Non…Avesso’, uma pesquisa poética e crítica a partir do mito de D. Sebastião com a participação de trabalhos de Anna Franceschini, Horácio Frutuoso, José de Guimarães, Kiluanji Kia Henda e Manoel de Oliveira.
A secção de terror, portanto: pesquisa poética quer dizer excertos conhecidos, que não vale a pena ouvir, e desconhecidos, que ganhariam em assim continuar. A inclusão de Manoel de Oliveira, que é o falecido génio pátrio do enjoo cinematográfico, é a cereja em cima do monturo.
Estas novas exposições ficarão patentes até 05 setembro, com lotação limitada a 20 pessoas em simultâneo.
A organização prevê, contudo, que não há o risco de a lotação em momento algum ultrapassar as dez pessoas, excepto se houver alguma aglomeração circunstancial de familiares dos artistas.
Também no dia 16, no Palácio Vila Flor, abre a exposição ‘Movimentos Bruxos’, com curadoria de Ivo Martins e autoria do grupo artístico que junta Carlos Lima (1970), Dora Vieira (1991) e João Alves (1983). Trata-se de diferentes manifestações das suas entidades individuais sob a forma de pintura, colagem e escultura, assim como a sua fusão em peças desenvolvidas no conjunto. “É na forma de instalações imersivas, cinéticas e cénicas, projetadas como uma expedição a fragmentos de realidades paralelas que amplificam e modelam os contornos absurdos e fantásticos da realidade quotidiana, exteriores às coordenadas geoespaciais padronizadas e que preservam o efeito hipnótico de uma beleza formal antiga, pré-digital”, remata o comunicado.
Não estou em condições de comentar por não ter percebido a ponta de um corno e, para me ajudar a penetrar neste texto cabalístico, ter tentado contactar o bruxo de Fafe, o qual porém não estava disponível. Anda assim, talvez valha a pena, apesar de tudo, a visita ao Palácio de Vila Flor: parece que a cafetaria é muito aceitável.

fico inquieto, na expectativa do postal-relato das visitas
Deus me livre, tenho um quintal para tratar. E depois não sou muito conhecido, mas nunca fiando.
Cultura faz bem.
Uns na cultura do nabo, outros na cultura a fazer de nabos os outros.
Equipamentos e requalificações. Top.
Um bocadinho mais de simpatia com as Artes Plásticas seria interessante (mas não é efectivamente necessário) já que neste momento e se calhar como sempre são o último reduto da liberdade, do individual e do subjectivo, que se opõe à formatação, à banalidade, ao colectivo e ao superficial — ainda que com algumas pontas de contaminação mas que não conseguem passar a ponte para o lado de lá.
São uma espécie de Astúrias — mas não vai haver Reconquista. Estarem assim sozinhas e isoladas sem pontes para a linguagem até é a situação ideal: tudo o que é explicado pela linguagem pode ser vulgarizado pelo jornalístico e colonizado pelas ideologias.
Na matéria das artes plásticas, ouvi dizer que há malta que ficou sem a pila funcional por causa dessas texturas.
Na matéria dos signos, minha amiga, cientista astrológica, fez-me um cartão astrológico, pois sou macho e não aceito cartas astrológicas, com várias informações. Porém ao ler o relatório verifiquei que Saturno tinha entrado na minha casa 8.
Topei tudo de imediato. O filho da puta do Saturno é um agente ao serviço da autoridade tributária para me sacar massa de uma das casas que tenho em offshore.
“uma expedição a fragmentos de realidades paralelas que amplificam e modelam os contornos absurdos e fantásticos da realidade quotidiana, exteriores às coordenadas geoespaciais padronizadas e que preservam o efeito hipnótico de uma beleza formal antiga, pré-digital”
Não se deter nesta pérola literária e rumar à cafetaria, é pleno testemunho de horrenda insensibilidade artística e indicador de uma total impreparação para participar numa prova de vinhos!
Por acaso essa até dá para perceber à primeira — devia ser mais críptico
É dos (muito) poucos a ter a coragem dizer que o Rei vai nu.
Mas no país dos Salcedes , boquiabertos perante o “chic” mais que importado, qualque r charlatãozeco de maia-tigela, mas com descaro e apadrinhamento a condizer, tem a vidinha assegurada…
Esta pontinha ibérica tornou-se o “habitat” natural de todo e qualquer vigarista que queira ser bem sucedido , sem correr o risco de malhar com os ossos na cadeia – é só olhar para aquilo que , na paróquia, passa por “política”, “governo”, “parlamento” e toda a fauna que guarnece esses, e outros, sítios mal frequentados…
JSP