«Comecei num jornal muito mau, que era A Luta, onde fui estagiário. Aquilo era um jornal do PS e eu não era do PS nem deixava de ser, estava ali para fazer jornalismo, e era difícil fazer, porque às 4h da tarde ligava o dr. Mário Soares a saber o que era a capa. E mandava mudar e gritava com os directores.»
Miguel Sousa Tavares, em entrevista à Sábado

Mesmo assim terá sido uma educação melhor a que ele teve n’A Luta do que a que José Manuel Fernandes, outro “jornalista” muito afamado, teve noutro jornal partidário no qual, segundo me contaram, se acostumou a escrever artigos de “opinião” (a caluniar as opiniões de outrem) que publicava como se de cartas de leitores se tratassem.
Nos dois casos obedece-se a ordens,seja de um partido,seja de outro.Só pelas virtudes criativas da dialéctica os iguais são simultâneamente diferentes.
Não. Os casos são totalmente diferentes.
(1) M.S.T. obedecia a ordens. J.M.F. dava ordens (ele era o diretor do jornal, pessoa muito influente dentro do partido).
(2) M.S.T. não cometia atos contra a ética do jornalismo. J.M.F. mentia e enganava deliberadamente os leitores do jornal.
É toda a diferença entre uma ovelha e um porco.
O que está aqui em causa é o testemunho directo, em primeira mão, de uma interferência clara de um responsável político (neste caso um chefe do Governo) na orientação editorial de um jornal diário de informação geral. Se os factos se passaram como MST os narra (e não custa nada a crer, até porque o director desse jornal era simultaneamente deputado do PS), devemos ter esse depoimento em consideração quando ouvirmos o político em causa teorizar sobre liberdade de imprensa.
O “segundo me contaram” já envolve um testemunho pelo menos em segunda mão (ou terceira, ou quarta), de credibilidade muito mais duvidosa e, em qualquer dos casos, esse jornal era partidário. O equivalente à ‘Acção Socialista’ no PS, ao ‘Avante’ no PCP ou ao ‘Povo Livre’ no PSD. A comparação estaria, de qualquer modo, sempre deslocada pois de um lado estava um PM e do outro um jovem jornalista em início de carreira. São questões diferentes e responsabilidades muito diferentes.
O que está aqui em causa
… segundo o seu ponto de vista. Segundo o ponto de vista que Você quer transmitir, que é o de querer denegrir Mário Soares.
Do meu ponto de vista, porém, o que está em causa são dois jornais partidários (segundo o seu texto, A Luta era um jornal do PS), e as figuras tristes que dois jornalistas hoje afamados neles fizeram.
Sendo que, enquanto um desses jornalistas nada fazia de desonesto (mudava a capa do jornal, apenas), o outro fazia tudo de desonesto (forjava cartas de leitores).
É claro, eu compreendo que Você esteja tão interessado em lavar a honra de José Manuel Fernandes quanto em denegrir a de Mário Soares.
Eu não estou interessado em “lavar a honra” de ninguém: limitei-me a registar, sem comentários, uma frase muito relevante proferida por MST na entrevista à revista ‘Sábado’.
Adoptando a sua linguagem, pelos vistos você é que está interessado em “lavar a honra” de um primeiro-ministro que interferia claramente nos conteúdos editoriais de uma publicação quando esses conteúdos lhe desagradavam.
É curioso vê-lo passar tão rapidamente da dúvida à certeza. No primeiro comentário alude a um alegado facto rodeando-se de alguma precaução pois não estava lá para ver: “segundo me contaram”. No último comentário a dúvida passa a certeza categórica: “O outro fazia tudo de desonesto”. É o mecanismo típico das conversas de café à portuguesa.
‘A Luta’ não era um jornal partidário: era um jornal diário supostamente de informação geral, submetido à lei de imprensa e às normas deontológicas de carácter geral. As publicações do PS, então como agora, eram a ‘Acção Socialista’ e o ‘Portugal Socialista’.
Mas a questão aqui não é do lado jornalístico: é do lado político. Ou governativo, para ser mais preciso.
O que está em causa, naturalmente, não era a conduta de MST – aliás irrepreensível, tanto que acabou por se demitir do diário por causa disso – mas do chefe do Governo, que mandava mudar a primeira página de um jornal onde não era responsável editorial só porque essa capa não lhe agradava. Um facto gravíssimo, aqui relatado por uma testemunha directa. Gravíssimo em qualquer época ou em qualquer contexto, sob a vigência da actual Constituição.
MST não mudava as páginas, naturalmente, por ser um jovem jornalista em início de carreira, sem responsabilidades na hierarquia do jornal: limita-se a dar conta do que viu e ouviu. E fez muito bem.
Trazer outros supostos casos, envolvendo outras pessoas, para desviar as atenções deste facto concreto, é tentar chutar para canto, como se diz em gíria jornalística. A comparação só seria lícita se mencionasse aqui outro chefe do Governo que tivesse procedido como Sousa Tavares diz que MS procedia.
você é que está interessado em “lavar a honra” de um primeiro-ministro
Não me viu fazer tal coisa. Não tenho qualquer problema em criticar a atuação de Mário Soares.
É curioso vê-lo passar tão rapidamente da dúvida à certeza.
Não. Eu nunca tive dúvidas de que o que me disseram é verdade.
‘A Luta’ não era um jornal partidário: era um jornal diário supostamente de informação geral
Isso é pouco relevante, do meu ponto de vista. Desde o 25 de abril até hoje que houve e há muitos jornais supostamente de informação geral mas que na verdade são correisas de transmissão partidárias. Inclusivé muitos jornais para os quais o Pedro trabalhou. O que interessa, pois, não é saber se o jornal faz essas coisas, porque ao fim e ao cabo todos fazem, mas sim se o faz de forma honesta ou não.
desviar as atenções deste facto concreto, é tentar chutar para canto
Pode estar certo que não tento desviar as atenções deste facto, nem limpar a honra de Mário Soares. Pretendo apenas chamar a atenção, também, para outros factos igualmente, a meu ver, relevantes.